UOL Notícias Internacional
 

28/07/2007

Visão de longo prazo: Há claros argumentos para ter a consciência limpa

Financial Times
John Authers
Como se pode investir com "responsabilidade social"? Essa pergunta - que parece um luxo burguês no final de uma das semanas mais conturbadas dos últimos anos nos mercados de ações mundiais - tem pelo menos três respostas.

Primeiro, os defensores do livre mercado afirmariam que o melhor a fazer, especialmente numa época como esta, é tentar maximizar os retornos através de quaisquer meios legais. Se isso der lucros, cabe à consciência individual decidir se esse dinheiro deve ir para instituições de caridade.

Para a escola de Adam Smith, o investimento socialmente responsável só faz sentido como interesse próprio esclarecido. Os investimentos que são bons para o mundo também têm a possibilidade de um melhor desempenho.

Outra escola, da ética médica, é: "Primeiro, não cause danos". Somente os muito ricos podem tentar usar seus investimentos ativamente para melhorar o mundo. Mas o restante de nós podemos pelo menos nos abster de investimentos ativamente ruins.

Terceiro, existe uma ramificação agressiva da mesma filosofia. Ela pode ser chamada de divestimento. Os ativistas tentam usar seu dinheiro de investimento como uma arma. Desde que um número suficiente de investidores consiga se reunir, a idéia é forçar os malfeitores a mudar seus hábitos.

O investimento socialmente responsável - hoje conhecido como ISR - tornou-se uma parte fixa da paisagem do investimento. Em qual desses três níveis o ISR faz sentido?

No nível do interesse próprio esclarecido, o ISR pode fazer sentido. A moda do investimento ambiental é a tese mais clara. Ela começa a parecer uma necessidade econômica, por isso talvez haja dinheiro aí.

Tentativas de interesse próprio de atuar no mercado de combustíveis alternativos também podem indicar quais tecnologias poderão aliviar os problemas de energia do planeta e quais poderão se revelar caras demais. O problema é a volatilidade que acompanha as novas idéias. Veja por exemplo o etanol.

Os futuros de etanol recém-lançados na Câmara de Comércio de Chicago subiram 265% em um ano antes de chegar ao pico em maio passado. Desde então caíram 54%.

Mais surpreendente foi o impacto em um mercado antigo e líquido: os futuros de milho. O milho aumentou 61% no final do ano passado. Desde então caiu 30%, enquanto os mercados digerem o impacto de toda a terra adicional que os agricultores agora pretendem dedicar a sua produção.

Essas mudanças dramáticas sugerem que o etanol só poderá substituir os combustíveis fósseis ao custo de grande deslocamento econômico em outros lugares.

Esse drama no mercado, por sua vez, contribuiu para aumentar a sensação, pelo menos nos EUA, de que o etanol é apenas parte da resposta na busca por energia sustentável.

E sobre a escola "Primeiro, não cause danos"? Aqui as evidências são mistas, graças à recente recuperação do "Grande Tabaco".

O índice social Domini 400, mantido pelo grupo de índices KLD de Boston, é a expressão mais clara dessa filosofia. Ele aplica filtros sociais, mas tenta acompanhar o S&P 500 depois de fazer suas exclusões. Desde o início de 2005, quando o tabaco começou a se recuperar, ele ficou abaixo do S&P, mas durante vários anos desta década os dois índices estiveram muito próximos. Parece possível filtrar investimentos moralmente questionáveis e ainda se equiparar ao mercado.

Mas note que nos EUA o chamado Fundo do Vício se especializa em quatro setores: álcool, tabaco, armas e jogo. Desde seu lançamento em setembro de 2002, ele cresceu em um ritmo de 20%, eclipsando o índice de crescimento do S&P 500, de 16% ao ano.

E os ativistas? O divestimento e as sanções têm uma longa história, mas sua eficácia ainda é questionável.

As sanções contra a África do Sul na era do apartheid foram seguidas, com o tempo, pela chegada pacífica de Nelson Mandela à presidência. Mas muitos sul-africanos dizem que foi o boicote cultural - especialmente nos esportes - o que mais contou.

Um exemplo de claro sucesso ocorreu nove anos atrás, quando uma ameaça coordenada pelos maiores fundos públicos de pensão dos EUA para se divestir de todas as ações suíças ajudou a forçar os bancos suíços UBS e Crédit Suisse a pagar US$ 1,25 bilhão aos sobreviventes do Holocausto cujas contas haviam ficado dormentes depois da guerra.

Mas os diretores do UBS e do Crédit Suisse estavam racionais, preocupados com sua reputação nos EUA e desesperados para manter a capacidade de levantar capital social. Indiscutivelmente, nada disso se aplica aos líderes dos países vilões. Muitos fundos públicos de pensão americanos impuseram sanções a Burma na mesma época. O país continua amplamente fora da linha internacional.

Isso não impediu os pedidos de divestimento de países considerados patrocinadores do terrorismo. Uma iniciativa de legisladores em Nova York para promover investimentos "livres do terror" diz que os fundos de pensão do estado tiveram até 16% de seus ativos em ações ligados a companhias relacionadas a países que promovem o terrorismo, sobretudo na indústria de petróleo. Existe até um fundo livre do Sudão, que pretende acompanhar o mercado enquanto evita ações envolvidas no Sudão.

Isso não vai vencer a guerra ao terror. Mas Andrew Karolyi, da escola de economia Fisher da Ohio State University, descobriu que um sub-portfólio de ações S&P 500 filtrado para evitar as que têm negócios em países supostamente terroristas não mostrou diferença estatisticamente significativa do S&P como um todo.

Portanto, esse investimento não precisa prejudicar sua carteira. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,27
    3,252
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h23

    1,58
    74.594,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host