UOL Notícias Internacional
 

30/07/2007

Vitória no futebol proporciona rara alegria ao Iraque

Financial Times
De John Aglionby, no Estádio Gelora Bung Karno, Jacarta e
Steve Negus, no Iraque
Os iraquianos se reuniram para um raro momento de celebração genuinamente unida no domingo (29), quando a seleção de futebol do país concluiu uma jornada de conto de fadas, vencendo a final da Copa da Ásia, a versão oriental da nossa Copa América.

 Bertil Ericson/Sanpix/AFP 
Iraquianos na Suécia unem-se ao país natal, na vibração do futebol


A vitória por 1 a 0 sobre a Arábia Saudita pode ser o maior feito esportivo da nação, mas talvez mais importante na atual situação, seja o fato de ter fornecido um raro momento de alegria a um país marcado pela tragédia, propiciando uma febre de orgulho nacional a um Estado que parecia à beira da desintegração.

AFP
Comitivas iraquianas comemoram o título nas ruas, apesar da tentativa do governo de conter festejos e possíveis atentados
Atef Hassan/Reuters
Rostos pintados, réplica da taça e alegria em Basra, a 550 quilômetros de Bagdá
Jerry Lampen/Reuters
Bandeira com as cores iraquianas e a expressão 'Una-se, Iraque' é hasteada próximo ao estádio da decisão, em Jacarta
A vitória pode não ter muito impacto de curto prazo sobre o conflito sectário no Iraque. Mas simbolicamente é importante: uma equipe composta de xiitas, sunitas e curdos conseguiu superar um início desfavorável para vencer um importante torneio de futebol, enquanto em casa grupos armados continuam lutando uns contra os outros e políticos de diferentes grupos étnicos continuam brigando.

"Não há sunitas ou xiitas, apenas iraquianos", disse um morador do bairro de maioria xiita Sadr City, onde os moradores foram às ruas no domingo para distribuir doces para seus vizinhos e, apesar dos apelos tanto do governo quanto da milícia Exército Mahdi, dispararam suas armas para o alto.

Após a semifinal da semana passada, carros-bomba visavam reuniões de torcedores nas ruas de Bagdá, matando 50, e o governo iraquiano tentou impedir que o mesmo ocorresse no domingo, impondo uma proibição nacional ao trânsito de veículos.

Mas a vitória foi um lembrete de que o nacionalismo iraquiano e a nostalgia por um país unido continuam sendo forças poderosas, apesar dos anos de conflito civil. Os torcedores freqüentemente desconhecem a identidade sectária da maioria dos jogadores.

Após a vitória nas semifinais sobre a Coréia do Sul, bandeiras iraquianas foram vistas até mesmo no Curdistão, onde costumam ser desprezadas por terem sido hasteadas pelos exércitos que por oito décadas travaram guerra contra os guerrilheiros nacionalistas curdos.


Saeed Khan/AFP
Os brasileiros Jorvan Vieira (esq.) e Hélio dos Anjos orientam suas equipes na final da Copa da Ásia; vitória de Vieira e alegria dos iraquianos.

"Não fui eu nem o Hélio (dos Anjos) que ganhou, foi o Brasil que ganhou, porque numa competição de Copa da Ásia, uma competição de um continente completamente diferente do nosso, dois brasileiros estavam na final", disse Vieira à imprensa internacional.

Saeed Khan/AFP
O camisa 10 Younis Mahmoud se antecipa ao goleiro saudita e marca, no primeiro tempo, o gol do título iraquiano
O jogo
A vitória sobre a Arábia Saudita veio aos 26 minutos do segundo tempo, com um gol de cabeça do camisa dez Younis Mahmoud, capitão da equipe e eleito o melhor jogador da competição.

Younis, 24 anos, disse que seu sonho imediato agora é ver os americanos deixarem sua terra natal. "Agora que vencemos, a América pode sair do Iraque", ele disse ao "Financial Times". "Talvez não hoje, mas certamente amanhã ou depois de amanhã."

Enquanto levantava a taça de campeão em Jacarta, Younis reconheceu que seus pensamentos estavam em outro lugar. "Eu não estava no estádio", ele disse. "Eu estava com meu povo em Basra, em Bagdá, Mosul e por todo o país."

Para Younis, os xiitas, sunitas e curdos na equipe -que tiveram que se preparar para o torneio na Jordânia, porque o Iraque era considerado inseguro demais- trabalharam juntos sem problemas. "Nós somos todos amigos", ele disse. "As diferenças são para os políticos."

Nashat Ali, o craque meio-campista da equipe, disse que gostaria de excursionar com a taça pelo país. "Ela foi conquistada para todas as pessoas do Iraque, não para sunitas, xiitas ou curdos, e gostaria que todos pudessem vê-la", falou. "Ela lhes deu algo para celebrar e gostaríamos de compartilhá-la com eles."

O Iraque, 80º no ranking mundial da Fifa antes do torneio, não era considerado um adversário à altura de outras equipes mais badaladas, como Irã, Arábia Saudita, Japão e Coréia do Sul.

Apenas seis jogadores conseguiram participar do primeiro treino com o técnico Jorvan Viera, o brasileiro que comanda a equipe do Oriente Médio, devido aos problemas de segurança que atrasaram a viagem deles. No início do torneio, eles viviam de forma bastante modesta.

A vitória foi ainda mais doce por ter sido sobre a vizinha bem mais rica do Iraque, a Arábia Saudita - também dirigida por um brasileiro, Hélio dos Anjos-, que muitos iraquianos culpam pela disseminação do extremismo religioso e por alimentar o conflito sectário no Iraque.

Desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, os atletas iraquianos sofriam com a falta de segurança. Vários membros das equipes nacionais perderam parentes nos últimos meses. E entre os jogadores iraquianos que caíram vítima estavam o capitão sunita de um dos principais clubes do país e um importante jogador olímpico. Apenas metade da seleção nacional iraquiana atualmente joga em clubes locais. George El Khouri Andolfato

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