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31/07/2007

Mulheres brancas são quebra-cabeça para arquitetos da ação afirmativa na África do Sul

Financial Times
Alec Russell
Em Johannesburgo
Sob o apartheid, a África do Sul era governada por e para os homens brancos. Muito depois das mulheres começarem a atravessar o "teto de vidro" na Europa e nos Estados Unidos, era esperado de suas pares sul-africanas que deixassem a tomada de decisões aos homens e se limitassem a criar a família e cuidar do lar.

Agora, segundo uma controversa nova pesquisa do programa de ação afirmativa da África do Sul, a hora das mulheres brancas pode finalmente ter chegado.

Um estudo do governo indica que nos últimos seis anos o número de mulheres brancas em altos cargos administrativos aumentou, como percentual de sua participação na população, mais que qualquer outro grupo. A pesquisa apontou que apesar das mulheres brancas corresponderem a 5,5% da população economicamente ativa, elas ocupavam 14,7% dos cargos executivos administrativos nas 4.380 empresas pesquisadas e 22,2% dos cargos de gerenciamento médio. Os dados provocaram um furor.

Grupos de lobby negros e autoridades do governo fizeram uso deles para sugerir que provam que os críticos estão errados em reclamar que brancos capacitados não conseguem emprego por causa da ação afirmativa. "Nós dissemos: 'Uau. É uma boa notícia algo estar funcionando'", disse Jimmy Manyi, o chefe do Fórum Administrativo Negro. "Quem dera os negros estivessem se saindo tão bem".

Ele pede por audiências públicas para julgar se as mulheres brancas ainda precisam da ajuda do sistema de cotas que visa tratar das desigualdades nos locais de trabalho. No momento, os grupos que merecem tratamento preferencial em entrevistas de emprego segundo a Lei de Igualdade no Trabalho são não-brancos, mulheres e pessoas com deficiências.

"Esta preferência por mulheres brancas se deve a estereótipos raciais", ele argumenta. "As pessoas que tomam as decisões de contratação ainda são em grande parte homens brancos. Há um padrão aqui: quanto mais distante você estiver da cultura ocidental, menor a chance de ser contratado".

Tais argumentos provocam olhares aborrecidos da maioria dos empresários.

Mais de 13 anos após o fim do governo branco, há uma crescente preocupação nos círculos empresariais de que o programa de ação afirmativa do partido do governo, o Congresso Nacional Africano, está privando a África do Sul de trabalhadores capacitados altamente necessários e está levando à contratação de pessoas desqualificadas para os cargos.

A partida em massa, ao longo da última década, de burocratas brancos do escalão médio do serviço público teve um impacto particularmente prejudicial nos departamentos de saúde e educação e nos governos locais. Segundo Sipho Seepe, um colunista proeminente do jornal "Business Day", ouvintes de um programa de rádio rural na Província Noroeste ligaram recentemente pedindo o fim da ação afirmativa, argumentando que ela levou à nomeação de pessoas desqualificadas e incompetentes que conseguiram seus empregos apenas devido aos seus contatos políticos.

"O governo agiu depressa demais sem levar em consideração o valor da experiência", disse Jenny Cargill, chefe da BusinessMap, que presta consultoria às empresas sobre ação afirmativa. "E então, não estando atentos a tal experiência, eles não implementam mecanismos que apóiem e dotem os novos nomeados, de forma que estão quase destinados a fracassar".

Dirk Hermann, vice-secretário-geral do Solidariedade, um sindicato de maioria branca, e autor de "The Naked Emperor" (o imperador nu), um livro que critica a ação afirmativa, argumenta que estatísticas sobre mulheres brancas foram escolhidas seletivamente e que é insensato sugerir que estão prosperando. Ele pede pelo fim das cotas raciais e para que o foco se volte para o treinamento e desenvolvimento.

Alguns no governo parecem acreditar que a ação afirmativa talvez tenha que ser reduzida.

Alec Erwin, o ministro dos empreendimentos públicos, disse recentemente em Londres que ela em muitos aspectos está morta, "não como política, mas como pré-requisito para contratação".

Mas o ministro do Trabalho, Membathisi Mdladlana, argumenta que ela só poderá acabar quando o local de trabalho refletir a demografia sul-africana. "Quando o racismo desaparecer, então a igualdade no emprego será redundante", ele disse.

Para as mulheres brancas, pelo menos, o teto de vidro em breve poderá ser colocado de volta. George El Khouri Andolfato

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