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03/08/2007

Vitória de populista do PRI poderá ser retrocesso para processo eleitoral mexicano

Financial Times
Adam Thomson
Financial Times
Uma rinha de galos não é o cenário que a maioria dos políticos escolheria para sediar o seu comitê de campanha. Mas Jorge Hank parece determinado a romper com a convenção, onde quer que esta surja.

Acompanhado de um papagaio engaiolado, o candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI) na eleição de domingo para o governo do Estado da Baixa Califórnia, no noroeste do México, senta-se à sua mesa em um quiosque na rinha de Palenque, em Tijuana, saboreando doses generosas de tequila.

Ele insiste em dizer que a bebida é especial - um amigo chinês a temperou com alguns escorpiões, cascavéis, bile de urso e os pênis de três animais: um leão, um tigre e um cachorro. "Ela faz a gente suar", afirma o candidato, esvaziando o copo de um só gole.

Usando um colete de pele de lagarto e botas de couro de tamanduá, Hank está estremecendo uma eleição que apenas alguns meses atrás parecia ter como vencedor certo o candidato do Partido da Ação Nacional (PAN) de Felipe Calderón, o presidente mexicano de centro-direita.

Vários analistas ainda acreditam que José Guadalupe Osuna, o candidato do PAN ao governo do Estado, poderá prevalecer, mas algumas pesquisas recentes indicam que os dois candidatos estão tecnicamente empatados.

Alejandro Hope, um cientista político da empresa de consultoria GEA, na Cidade do México, acredita que as repercussões de uma vitória de Hank se fariam sentir muito além das fábricas e favelas de Tijuana, a maior cidade da Baixa Califórnia. "Tal vitória desencadearia mudanças fundamentais nas estruturas partidárias do PAN e do PRI", afirma Hope.

A primeira dessas mudanças diz respeito à importância simbólica da Baixa Califórnia desde 1989, quando o Estado tornou-se o primeiro a ser controlado pelo PAN, após 70 anos de hegemonia governamental ininterrupta do PRI.

"A Baixa Califórnia é um ícone para nós", admite Osuna. "Foi nela que teve início a transição para a democracia".

Sob quaisquer circunstâncias, o impacto psicológico da perda da Baixa Califórnia seria suficientemente ruim. Mas o PAN de Calderón já perdeu uma eleição estadual para o PRI neste ano, e só venceu a eleição presidencial em 2006 com uma vantagem mínima.

"O PAN não pode se dar ao luxo de sofrer uma segunda derrota consecutiva", afirma Hope. "Isso obrigaria o partido a reavaliar toda a sua estratégia".

Uma segunda mudança diz respeito à emergência de Hank nos quadros do PRI. O ex-prefeito de Tijuana, um empresário que tem 19 filhos, um zoológico particular com mais de 20 mil animais e um patrimônio líquido de mais de US$ 1 bilhão, é estreitamente vinculado à velha guarda e às piores práticas do partido.

Os seus críticos vêem nas fiestas espalhafatosas que ele organiza para os pobres - todos os anos ele dá presentes a mães e crianças necessitadas, e desfila com os seus animais exóticos - manifestações descaradas dos hábitos populistas de um modelo corrupto e redundante.

Hank, cujo pai foi um influente governador e ministro do PRI, foi alvo de críticas em diversas outras ocasiões.

Muitos mexicanos ainda se recordam da ocasião em 1988 em que os seus guarda-costas assassinaram um jornalista local, embora ele próprio não estivesse envolvido no caso. O seu principal negócio, uma vasta rede de cassinos chamada Caliente, é suspeita de estar vinculada ao crime organizado, e o governo dos Estados Unidos já conduziu várias investigações contra ele.

Sentado no seu escritório na rinha de galos, Hank não parece estar muito incomodado com as críticas. Ele ajeita o relógio Rolex de ouro com mostrador vermelho - um símbolo que traz as cores do seu partido - e declara: "Já fui investigado devido a praticamente todas as acusações, e essas investigações nunca deram em nada".

Por todos esses motivos, detratores como Tonatiuh Guillén, o presidente da Universidade da Fronteira Norte, uma instituição local de ensino superior, argumenta que a emergência de Hank como força política representa um retrocesso não apenas para as tentativas de modernização de algumas figuras dentro do PRI, mas também para a política mexicana em geral.

"Caso o PRI vença no domingo, isso não será uma vitória do PRI do futuro, mas das mais tradicionais e questionáveis tendências passadas do partido", afirma Guillén. "Tal fato geraria dúvidas quanto à própria qualidade da democracia mexicana".

Hank aponta para o seu histórico como prefeito municipal como prova da sua capacidade administrativa. Segundo ele, a segurança pública, um dos principais temas da eleição estadual, melhorou durante o seu governo - assim como a coordenação policial. "O tempo de resposta da polícia às chamadas de emergência caiu de 20 minutos para apenas três".

Mesmo assim, Hank não está dando chance ao azar. Vários dos milhares de correligionários para os quais ele discursa em uma noite morna em Tijuana foram trazidos de ônibus das comunidades adjacentes - o que é um lembrete da eficiência da máquina política do PRI.

Ele sabe que será necessária cada parcela dos impressionantes poderes mobilizadores do seu partido para garantir uma vitória.

Com o auxílio de enormes modelos de cédulas eleitorais, e utilizando o tom de voz de um pai que ensina uma lição a um filho pequeno, ele aponta para o quadrado relevante em frente ao seu nome e diz à platéia: "É aqui que vocês devem marcar o 'x' no domingo. Lembrem-se de que vamos vencer, mas que a vitória ainda não ocorreu". UOL

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