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17/08/2007

África do Sul volta a confrontar seu passado conturbado

Financial Times
Alec Russell
Em Johanesburgo, África do Sul
Em "Dream of the Dog" (Sonho do Cão), uma nova e poderosa peça sul-africana sobre confrontar o passado, um dos personagens, um fazendeiro branco racista idoso, fica chocado quando um de seus antigos trabalhadores negros volta, após o fim da apartheid, para confrontá-lo sobre seus abusos.

"Não é tarde demais para isso?", pergunta o fazendeiro. "Nunca é tarde demais", responde o antigo funcionário, que se tornara um empresário de sucesso.

Trocas de farpas similares sobre como lidar com o passado vêm reverberando pela África do Sul antes de um julgamento que se inicia hoje, trazendo a história do país de volta ao debate político.

Adriaan Vlok, ministro linha dura da lei e da ordem nos últimos anos do domínio branco, será julgado por um dos crimes mais sinistros da era da apartheid - a tentativa de assassinato em 1989 de um proeminente ativista que combatia a segregação racial. A vítima foi Frank Chikane, hoje assessor do presidente Thabo Mbeki. Suas cuecas foram envenenadas com uma substância que atacou seu sistema nervoso e ele teve que ser levado às pressas ao hospital.

AFP
Adriaan Vlok confessou crime contra defensores do fim do apartheid

Nos nove anos após a Comissão de Verdade e Reconciliação concluir suas audiências sobre os abusos de direitos humanos durante apartheid, a política concentrou-se nos desafios do presente e do futuro, particularmente da economia.

Agora, novamente, a África do Sul está tendo que lidar com os conceitos freqüentemente contraditórios de justiça, verdade e reconciliação e aceitar que as feridas da era da apartheid estão longe de estarem cicatrizadas.

A acusação contra Vlok, junto com um antigo chefe de polícia e três ex-policiais, dividiu a África do Sul em suas linhas raciais. Muitos brancos, particularmente os africâneres, vêem a ação como a abertura desnecessária de feridas antigas. O último presidente branco, F.W. de Klerk, advertiu que ela ameaça o espírito de reconciliação conquistado a duras penas na África do Sul.

"Fomos longe para lidar com isso pela comissão. Achamos que deve haver prioridades mais importantes - por exemplo, os 18.000 assassinatos na África do Sul por ano", diz Jan Bosman, diretor de um grupo de pressão africâner, Afrikanerbond.

Para muitos sul-africanos negros, porém, a comissão deixou questões sem resposta. Em particular, há ressentimento que apenas membros inferiores das forças de segurança da apartheid foram levados à justiça, em vez dos altos escalões.

"A comissão não era apenas sobre reconciliação; também era para fazer justiça", diz Adam Habib, importante cientista político. "Conversando com intelectuais negros e membros das famílias das vítimas, uma pergunta ainda os persegue: como os soldados rasos foram processados, mas os tomadores de decisão saíram ilesos?"

A Comissão de Verdade e Reconciliação concedeu anistia aos que confessaram crimes políticos, mas deixou claro que os que ignorassem a oportunidade mais tarde poderiam ser processados.

Vlok foi o único alto político a confessar um crime: a explosão dos escritórios de grupos de combate à apartheid em Johanesburgo. Ele não pediu anistia pelo envenenamento de 1989, o qual é acusado de chefiar, mas, em uma cena bizarra no ano passado, ele pediu desculpas a Rev Chikane e lavou seus pés em penitência.

Rev Chikane tentou abaixar a temperatura política no último final de semana, insistindo que não havia uma "caça às bruxas" africâneres. Há também especulações crescentes de que Vlok fez um acordo antes do julgamento.

A África do Sul, entretanto, foi lembrada de que o país ainda está longe de liberar o que outro personagem de "Dream of the Dog" chamou de "veneno" do passado.

"Isso é algo que temos que fazer", diz o professor Habib. O processo tem que ser justo, mas é essencial levar os casos à justiça para que a África do Sul não desenvolva uma cultura política de impunidade. "Fazer pouco caso cria todo tipo de outros pesadelos", diz ele. Deborah Weinberg

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