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18/08/2007

Precisa-se de um poderoso chefão para acabar com o pânico financeiro

Financial Times
Joh Authers
A história tem o hábito de se repetir. Outubro marcará o centenário do Pânico de 1907, uma crise financeira que começou na Europa e que quase provocou o colapso do sistema bancário dos Estados Unidos.

O desastre foi tão grande que o Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos) foi criado como uma resposta ao que aconteceu - para garantir que tal crise jamais pudesse ocorrer novamente.

A iminência do aniversário gerou uma onda de lançamento de livros e artigos sobre o pânico, obras que falam sobre as lições aprendidas com o fato e fazem recomendações para evitar uma crise do gênero no futuro.

Mas os autores foram surpreendidos pelos fatos. Estamos neste momento à beira da maior crise de confiança nos mercados globais desde o estouro da bolha de tecnologia em 2000. As comparações que têm sido discutidas incluem o colapso do fundo de hedge Long Term Capital Management em 1998, que por um breve período levou os mercados de dívida do planeta a uma paralisação total; o Crash de 1929, que conduziu à Grande Depressão; e o Pânico de 1907.

Mas o que provocou o desastre de 1907? Da mesma maneira que ocorre hoje, não houve uma causa nítida. O capital fluía mais rapidamente em um sistema financeiro mais globalizado. Os Estados Unidos desfrutavam de um longo período de expansão incessante. Isso estimulou os especuladores, que enxergaram pouco risco em investimentos que são freqüentemente voláteis.

A seguir o mercado foi atingido, literalmente, por um evento sísmico: o terremoto de São Francisco. As autoridades monetárias européias, preocupadas com a fuga de capital, passaram a aumentar as taxas de juros. Isso foi suficiente para derrubar alguns corretores que tinham feito más apostas - especialmente os que especularam no setor de cobre - e que não as salvaguardaram. Depois disso, o extenso e opaco sistema bancário dos Estados Unidos começou a oscilar. Ninguém sabia ao certo quem estava absorvendo as perdas, de forma que teve início uma corrida aos bancos.

A lei exigia que os grandes bancos de Nova York, peças fundamentais do sistema, mantivessem amplas reservas de dinheiro. Isso conferiu segurança a eles, mas também fez com que tivessem mais dificuldade de obter lucro. Uma solução foi emprestar aos negociantes na Bolsa de Valores de Nova York. Assim, quando os bancos sentiram-se pressionados, exigiram o pagamento dessas dívidas, o que obrigou vários negociantes a vender as suas ações. Na linguagem moderna, aquilo foi um "contágio" a partir de mercadorias, dos mercados de dívida e capital para as ações - exatamente aquilo que está nos atingindo cem anos depois.

Para aqueles de nós que observaram perplexos os acontecimentos das últimas semanas enquanto o extraordinário espasmo de pânico se espalhava pelos mercados globais, tudo isso soa assustadoramente familiar. Após um longo período de tranqüilidade irracional frente às condições econômicas benignas, vários investidores tentaram ganhar um pouco mais de dinheiro assumindo aquilo que se revelou um risco bem maior.

As correlações surgiram e classes de ativos completamente diferentes acabaram revelando vínculos entre si, da mesma forma como os empréstimos dos bancos de Nova York ajudaram a transformar o Pânico de 1907 em uma ameaça à própria Bolsa de Valores de Nova York.

Robert Bruner e Sean Carr publicaram recentemente um ótimo estudo acadêmico chamado "The Panic of 1907" ("O Pânico de 1907"), que tinha como objetivo ser um alerta. Em vez disso, o texto parece ser uma descrição do que acaba de acontecer.

Eles identificaram sete fatores causadores da crise. Os autores observaram, de forma presciente, que todos estes fatores estão agora presentes: arquitetura sistêmica; mercado flutuante e crescimento econômico; barreiras amortecedoras de segurança inadequadas no sistema; liderança adversa (Theodore Roosevelt atacou os "malfeitores donos de grandes fortunas" pouco antes do pânico, e agora o Congresso está protestando contra os fundo de hedge e a prosperidade dos private equities); um choque econômico; medo e ganância exagerados; e um fracasso da ação coletiva.

Mas a grande lição parece ser a necessidade de uma liderança. J. Pierpont Morgan, cuja House of Morgan gerou os atuais JPMorgan e Morgan Stanley, proporcionou tal liderança.

A biografia definitiva de Morgan feita por Jean Strouse narra detalhadamente como as multidões tomadas pelo pânico nas ruas de Manhattan paravam para saudá-lo enquanto ele passava caminhando durante a crise, fumando um charuto. Tão poderosa era a House of Morgan - mais poderosa do que o governo no universo financeiro - que ninguém ousava dizer não a ele.

A crise acabou na sua biblioteca em meio à sua coleção de livros e obras de arte. Dezenas de financistas estavam no aposento enquanto Morgam dizia-lhes que eles precisavam trabalhar coletivamente. Em determinado trecho do livro Strouse narra que Morgan trancou as portas, recusando-se a deixar qualquer pessoa partir até que ele tivesse a resposta que desejava - o que só ocorreu às quatro horas da manhã. A maneira como agiu se assemelha mais às manobras de Marlon Brando no filme "O Poderoso Chefão" ("The Godfather", EUA, 1972) do que ao comportamento comedido de um grande banqueiro.

A criação do Fed foi uma resposta natural à constatação de que o controle e a liderança do sistema financeiro dos Estados Unidos haviam de fato sido terceirizados para um empresário privado.

Mas persiste o desejo pela figura de um poderoso chefão capaz de aplicar cascudos e colocar ordem no mercado por conta própria. Isso explica todas as demandas que estão sendo feitas agora ao Fed e a outros bancos centrais do mundo. Quando o medo supera a ganância, e o pânico toma conta do cenário, até mesmo os negociantes do mercado sentem a necessidade de contar com uma figura repleta de autoridade.

Tudo agora está nas mãos de Ben Bernanke e dos seus colegas de banco central. Eles podem não ser figuras grandiosas como o patrono das artes e fumador de charutos J.P. Morgan, mas neste momento é para eles que os mercados estão olhando. UOL

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