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21/08/2007

Generosidade no exterior poderá provocar dificuldades na Venezuela

Financial Times
Dino Mahtani e Benedict Mander
As margens escuras e nubladas do Tâmisa em Londres forneceram ontem o pano de fundo improvável para o último gesto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para ampliar suas ambições geopolíticas.

Parado diante de seu gabinete, na frente de um ônibus vermelho de dois andares em Londres, o prefeito Ken Livingstone anunciou formalmente um esquema pelo qual a PDVSA, companhia estatal de petróleo da Venezuela, subsidiaria tarifas de transporte mais baratas para os londrinos pobres, num acordo de US$ 32 milhões.
AS BENESSES DE HUGO*
PaísValor gasto (US$ milhões)
Cuba7.581
Argentina6.305
Brasil4.501
Nicarágua3.264
Bolívia2.061
Uruguai927
Paraguai810
Outros do Caribe792
Jamaica631
Equador565
Haiti427
China300
EUA236
República Dominicana156
Mali100
Irã100
Guiana53
El Salvador40
Reino Unido32
Dominica10
Granada7,5
Benim2,9
Indonésia2
Outros da África1,16
Porto Rico0,25

A última promessa venezuelana se dá exatamente duas semanas depois de Chávez ter percorrido a América do Sul prometendo ajudar a financiar usinas de petróleo e gás de bilhões de dólares em todo o continente e a fornecer petróleo com desconto "por cem anos". Este mês a Venezuela aparentemente também prometeu à Belarus US$ 460 milhões para ajudá-la a pagar sua conta de gás com a Rússia.

As promessas fazem parte da estratégia de Chávez de usar as receitas da PDVSA para promover sua muito anunciada agenda contra o governo americano. Sempre um mestre da publicidade, ele recentemente autorizou um acordo para fornecer petróleo ao Irã para ajudar o país a superar sua escassez e ampliou um plano para oferecer com descontos às residências pobres dos EUA óleo para aquecimento.

Mas analistas da indústria se perguntam se Chávez tem condições de continuar aumentando os gastos em empreendimentos no exterior, em meio a preocupações de que a PDVSA, a quarta maior companhia de petróleo integrada do mundo, não estaria investindo o suficiente para aumentar a produção e manter o fluxo de caixa.

"O governo atualmente tem muitas prioridades que está tentando financiar e há um risco de que possa não alimentar bem a galinha dos ovos de ouro", disse Jed Bailey, um especialista em América Latina e diretor-gerente de mercados emergentes na Cambridge Energy Research Associates.

Como parte de sua chamada revolução bolivariana, Chávez usou o orçamento da PDVSA para embarcar numa redistribuição de renda em larga escala para os setores pobres da população. No ano passado a PDVSA financiou custos de US$ 13,3 bilhões somente em gastos sociais, o equivalente a 87% do valor dos custos operacionais e de exploração da companhia.

A Fundación Justicia y Democracia (FJD), um grupo de pensadores de oposição, diz que as promessas de Chávez no exterior prejudicaram ainda mais as finanças da PDVSA. O grupo estima que a Venezuela se comprometeu a "dar de presente" cerca de US$ 30 bilhões para países estrangeiros "amigos" desde 2004, quando deveria gastar esse dinheiro em casa.

Alguns dos maiores projetos de Chávez incluem bilhões de dólares prometidos para financiar refinarias nas Américas do Sul e Central e outros bilhões em entregas de petróleo com desconto para países do Caribe, incluindo Cuba, que em troca mandou médicos para Venezuela.

Calixto Ortega, diretor da Comissão de Energia da Assembléia Nacional da Venezuela até o ano passado, diz que esses gastos externos permitem que a Venezuela ajude seus amigos e receba algo em troca, e afirma que se a Venezuela gastasse toda a sua riqueza internamente a inflação "explodiria".

Em referência à estimativa do FJD, ele disse: "Não é uma proposta séria, assim como a maioria das propostas da oposição".

Mas muitos analistas dizem que enquanto os gastos sociais e externos estão aumentando em meio aos preços recordes do petróleo, não se está investindo o suficiente para aumentar a produção de petróleo e manter o fluxo de caixa da petrodiplomacia.

O governo venezuelano pretende aumentar a produção nacional para 5,8 milhões de barris/dia até 2012, contra os 3,1 milhões que declara atualmente. A maioria dos observadores do setor, incluindo a Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, já situa a produção de petróleo cru venezuelano na faixa dos 2,5 milhões de barris/dia, uma queda do pico de 3,4 milhões em 1999, e considera os planos do governo irreais.

David Mares, um pesquisador da Universidade da Califórnia e especialista em PDVSA, diz que a extração de petróleo dos poços existentes na Venezuela está caindo em um ritmo muito mais rápido do que as normas da indústria, em parte porque os depósitos da Venezuela são de óleo pesado, que exige mais tecnologia para ser extraído.

"O ritmo de perfuração de novos poços também não está de acordo com as expectativas para os aumentos de produção que eles definiram", ele diz.

Segundo fontes da indústria, Chávez talvez tenha de escolher entre aumentar a produção ou gastar em empreendimentos no exterior, diante da pressão política que enfrenta para conter os gastos sociais. Em conseqüência, grandes projetos que vão além da mera publicidade podem estar ameaçados.

* Fonte: Fundación Justicia y Democracia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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