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23/08/2007

Os primeiros 100 dias heterogêneos de Sarkozy

Financial Times
Peggy Hollinger
Em Paris
Nicolas Sarkozy, presidente da França, chega ao final de seus primeiros 100 dias hoje, enquanto nuvens e tempestade parecem estar se reunindo sobre seu prometido programa de reforma: uma crise financeira global ameaça o crescimento econômico doméstico, que já desapontava; a criação de empregos empacou, e sua promessa eleitoral de dar alívios fiscais aos proprietários de casa própria foi barrada na justiça.

Ainda assim, as pesquisas de opinião mostram que o energético presidente francês está mais popular do que nunca - não só em seu partido de centro-direita, o UMP, mas junto à oposição. De acordo com Pierre Giacometti, diretor do grupo de pesquisa de opinião Ipsos France, mais de um terço dos eleitores da oposição apóia Sarkozy consistentemente, independentemente da questão.

Joel Saget/Reuters - 17.jul.2007 
Sarkozy saúda participantes do Tour de France, tradicional competição de ciclismo da França

A chave de sua popularidade tem sido sua abertura à oposição - ter cooptado astros da esquerda e do centro para seu governo - e sua determinação pública de implementar as promessas feitas na campanha presidencial, diz Giacometti. "No que concerne aos franceses, está cumprindo sua palavra".

Desde que foi eleito, em maio, Sarkozy parece estar em toda parte. Foi a Bruxelas para restaurar o projeto europeu; foi à Líbia para cimentar acordos bilaterais após libertar reféns búlgaros; finalmente, em casa, lançou seu prometido programa de reforma que inclui leis sobre impostos, trabalho, ensino superior e justiça.

Entretanto, para os reformistas franceses, que viam Sarkozy como a melhor esperança do país para trazer dinamismo à economia, os primeiros três meses foram algo desapontadores. Tentou liberar o mercado de trabalho abolindo o imposto sobre a hora extra, mas comprou a paz com os sindicatos comprometendo uma promessa de obrigar a oferta mínima de transporte público durante as greves. Ele deu ao sistema universitário francês debilitado uma autonomia muito necessária, mas rendeu-se à resistência dos sindicatos nas questões de seleção dos alunos e taxas.

Para os críticos, esses acordos foram um mau presságio para a ruptura dramática que o próprio Sarkozy dissera ser necessária para colocar a economia francesa, que é excessivamente regulada, de volta ao caminho do forte crescimento.

Para piorar, longe de conter o déficit orçamentário inchado do país, as primeiras medidas de fato vão esticá-lo ainda mais - em até 0,6% do produto interno bruto, de acordo com a Barclays Capital - enquanto apenas marginalmente fomentarão o consumo.

IMPOSTOS
Hora extra sem impostos a partir de outubro.
Imposto individual total deve cair de 60 a 50%.
Imposto sobre fortuna reduzido, e imposto sobre herança abolido.
Alívios fiscais retroativos sobre juros de hipotecas julgado inconstitucional.

UNIVERSIDADES
Todas as instituições de terceiro grau devem administrar suas próprias finanças em cinco anos, inclusive o direito de atrair acadêmicos com salários competitivos. Mas sem seleção de alunos e taxas.

SERVIÇO MÍNIMO DE TRANSPORTE PÚBLICO
Grevistas devem se identificar 48 horas antes de uma greve e uma votação secreta deve ser feita após oito dias, mas os níveis de serviço não serão garantidos por lei.

JUSTIÇA
Sentenças mínimas impostas a réus secundários.
Menores com mais de 16 anos devem ser tratados como adultos em certos casos.
Novas iniciativas estão sendo examinadas para violência sexual.

MERCADO DE TRABALHO
As empresas são liberadas de condições de trabalho rígidas; um contrato único e mais flexível está sendo negociado entre indústria e sindicatos. Na falta de um acordo, o governo fará suas próprias propostas em dezembro.

REFORMA NO SERVIÇO PÚBLICO
Sarkozy prometeu substituir apenas um em cada dois funcionários públicos que partirem, mas as pesquisas mostram resistência a uma reforma ampla.

PENSÕES
Funcionários de transporte em empresas estatais têm aposentadoria antecipada e pensões totais, em um sistema criado no período do pós-guerra. O governo prometeu modificar esses esquemas caros e o sistema geral de pensões até janeiro.

SINDICATOS
O direito legal de certos sindicatos franceses de representar trabalhadores em diálogos nacionais no mercado de trabalho e no sistema de saúde e desemprego será revisto. Quase todos os sindicatos querem um novo sistema, mas nenhum concorda em como deve ser, com gordos subsídios dependendo do resultado.
REFORMAS DE JULHO E PLANOS FUTUROS
"Existe uma série de mudanças estruturais necessárias para alavancar o crescimento, mas as reformas que ele anunciou não correspondem de forma alguma a essas necessidades", diz Elie Cohen, do Conselho de Análise Econômica, um grupo de estudos independente. "Se eu fosse professor dele teria que dizer que poderia ter feito melhor".

Cohen, entretanto, admite que três meses não são suficientes para mudar as estruturas rígidas que restringiram o crescimento econômico por tanto tempo.

E alguns acreditam que Sarkozy tinha que adotar uma abordagem suave em suas primeiras reformas, para tranqüilizar a nação temerosa, antes das iniciativas mais significativas no outono.

Max Gallo, historiador e socialista convertido à causa de Sarkozy, está nesse time. "As pessoas disseram que Nicolas Sarkozy era fascista, que sua presidência ia fomentar a violência nos subúrbios", diz ele. "Mas, ao negociar, está tentando evitar o confronto brutal, sem renunciar ao que quer".

O historiador de 75 anos, que recentemente entrou para as fileiras dos imortais franceses - guardiões da cultura e idioma francês da Academie Française - acredita que a conquista mais importante de Sarkozy até agora foi ter começado a transformar a própria natureza do que significa ser francês: "Há uma verdadeira ruptura na forma que ele fala da França, sua visão da história, da importância da nação e da questão da contrição".

Sarkozy também é um imigrante de primeira geração que trouxe outros imigrantes para seu governo; é um outsider, que não foi formado pelo sistema de ensino de elite que governou a França por tanto tempo. "Ele é um francês recente, então sua relação com a França é intelectual. Ele está enraizado na história da França, mas não na 'terra'".

Entretanto, essa conquista também é difícil de julgar em meses, até em anos.

O sucesso mais evidente aconteceu na frente política doméstica, onde Sarkozy aparece como tático brilhante. A oposição socialista foi dividida e desarmada pela nomeação de algumas de suas figuras principais para cargos importantes. O partido parece incapaz de construir uma linha coerente de ataque contra o presidente mais popular da França em décadas.

"Para Sarkozy, este é um momento definitivo, como 1958 foi para de Gaulle, quando foi chamado de volta ao poder", diz Cohen. A própria política aberta do general - trazendo os melhores e mais brilhantes da esquerda para se tornarem pilares da reforma gaullista - levou aos 23 anos de poder da direita. "Sarkozy realmente quer mudar o cenário político de forma duradoura", diz Cohen. "A surpresa é ele ter tido tamanho sucesso nisso, mas seu histórico econômico é apenas medíocre." Deborah Weinberg

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