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28/08/2007

Bush vê outro homem de confiança deixar o seu governo

Financial Times
Edward Luce e Demetri Sevastopulo
Alberto Gonzales anunciou na segunda-feira (27/08) o término dos seus serviços no governo Bush, de forma semelhante à que adotou para prestar tais serviços - ou seja, sem divulgar qualquer informação. O homem que disse "não me lembro" ou "não tenho nenhuma lembrança" mais de cem vezes no decorrer do seu depoimento perante o Congresso dos Estados Unidos neste ano ficará conhecido como um dos funcionários de gabinete de conduta mais secretista na história moderna do país.

Um "Bushie" (termo usado pela oposição para designar os assessores muito próximos a Bush) de uma lealdade intensa, Gonzales também será visto como um dos procuradores-gerais mais partidários dos Estados Unidos desde John Mitchell, a principal autoridade do judiciário durante o mandato de Richard Nixon, e que renunciou ao cargo em 1972.

Grande amigo de George W. Bush antes que este se tornasse governador do Texas em 1994, Gonzales foi nomeado conselheiro da Casa Branca quando Bush assumiu a presidência em janeiro de 2001. Ele tornou-se procurador-geral em 2005, após a aposentadoria de John Ashcroft.

Chip Somodevilla/Getty Images/AFP 
Alberto Gonzales se prepara para anunciar sua saída do Departamento da Justiça

"Como procurador-geral, a principal missão de Alberto Gonzales era servir à constituição e patrocinar a lei do país, mas ele continuou a se comportar como se fosse o advogado pessoal de Bush", afirma Carl Tobias, professor de direito constitucional. "É difícil imaginar qualquer outra figura que tenha se empenhado tanto quanto Gonzales em politizar o Departamento de Justiça, ou que enxergue a lei sob um prisma tão político".

A renúncia de ontem fará com que aumente a atenção sobre a tendência de Bush de colocar a lealdade acima de todas as outras qualidades daqueles que o cercam. Há apenas três semanas Bush disse que tinha total confiança em Gonzales, apesar de a declaração do procurador-geral no Congresso, prestada sob juramento, ter sido diretamente contradita por Robert Mueller, diretor do Birô Federal de Investigação (FBI).

Gonzales negou ter visitado - como conselheiro da Casa Branca - Ashcroft no seu leito hospitalar em 2004 para pressionar o então procurador-geral a assinar um documento expandindo a autoridade ainda secreta - e supostamente inconstitucional - do presidente para fazer interceptações de comunicação. Houve também contradição entre os depoimentos de Gonzales e aquele prestado no Congresso neste ano por Jim Comey, que acompanhou Gonzales ao hospital na visita ao então procurador-geral.

Muita gente acredita que Bush, ao não deixar de apoiar Gonzales - apesar dos inúmeros pedidos feitos por senadores republicanos e democratas para que ele fosse exonerado -, estava no fundo procurando proteger Karl Rove, o seu principal assessor político, um indivíduo que os democratas consideram a principal figura por trás de uma outra controvérsia a respeito da suposta defenestração de nove procuradores federais no ano passado.

Mas a renúncia de Rove neste mês e a probabilidade de que os últimos 17 meses de Gonzales como procurador-geral fossem dominados por incessantes investigações congressuais deixaram Bush sem opção, a não ser aceitar a sua renúncia no final de semana. Vários parlamentares também fizeram pressão para promover o impeachment de Gonzales, em uma movimentação que Tony Snow, o porta-voz da Casa Branca, descreveu como "a corrida para ser o mais tóxico".

"Eles disseram que Karl Rove deixou a cidade antes da chegada do xerife, e o mesmo argumento pode ser duplamente verdadeiro no caso de Alberto Gonzales", afirma Robert Dallek, historiador especializado na presidência dos Estados Unidos. "Os estudiosos examinarão os registros oficiais por vários anos para determinar o grau de corrupção política durante o período em que Gonzales foi procurador-geral".

Mas o papel de Gonzales como conselheiro da Casa Branca no primeiro mandato de Bush é o que se revelará mais polêmico. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ele foi uma figura central para ajudar na ampliação dos poderes da presidência.

Entre outras iniciativas, Gonzales ajudou a elaborar a estrutura de justificativas legais para a extensão do "privilégio executivo" da Casa Branca no intuito de permitir a detenção de suspeitos sem julgamento, fazer interceptações eletrônicas de conversas sem mandado judicial, burlar as convenções de Genebra sobre tortura (que Gonzales definiu como "estranhas") e criar um centro de detenção na Baía de Guantánamo, em Cuba.

Várias autoridades graduadas do governo, incluindo Robert Gates, o secretário de Defesa, e Condoleezza Rice, a secretária de Estado, têm defendido o fechamento da instalação prisional em Guantánamo. Acredita-se que Gonzales foi um aliado de Dick Cheney, o vice-presidente, na defesa do centro de detenção. A sua saída poderá fortalecer aqueles que pressionam pelo fechamento daquela prisão.

Agora as atenções se voltarão para a pessoa que Bush nomear para substituir Gonzales e para a maneira como o congresso democrata tratará o nomeado. Até lá o procurador Paul Clement atuará como procurador-geral. "Se Bush quiser evitar controvérsias ele poderá manter Clement no cargo por tempo indefinido", afirma Tobias.

Gonzalez deixa como herança um Departamento de Justiça destituído de quase todo o seu alto escalão. Os três principais cargos - procurador-geral, vice-procurador-geral e procurador-geral associado - estão vagos.

Acredita-se que tanto Gonzalez como Rove alegarão "privilégios executivos" para se recusarem a testemunhar a respeito de assuntos sensíveis perante o congresso, cujas investigações prosseguirão. UOL

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