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28/08/2007

Famílias transnacionais - parte 1: exilados da globalização mantém o fogão em casa funcionando

Financial Times
Richard Lapper
Neste mês, uma crise em uma pequena subsecção do mercado imobiliário dos EUA criou caos em torno do globo. A atenção da mídia concentrou-se nas altas finanças e nos elos das grandes economias do mundo.

Há, entretanto, outra história de integração econômica e mobilidade global do dinheiro que podemos argumentar como mais importante para muitas pessoas do que derivativos e fundos de investimento desequilibrados. É a história das remessas, a contraparte das inovações financeiras para o pobre, e de como elas geraram mudanças vastas e visíveis em muitos países em desenvolvimento.

Com as fronteiras se abrindo e a diferença salarial entre países ricos e pobres se ampliando, mais pessoas do que nunca decidem procurar fortunas e trabalhar fora. O crescimento de serviços de transferência de dinheiro significa que é mais fácil do que nunca para essas pessoas enviarem seus salários para casa e sustentar suas famílias.

Em muitos países em desenvolvimento hoje, mais dinheiro vem das remessas do que da assistência exterior, do investimento estrangeiro ou até das exportações tradicionais. Na América Central, as remessas há muito ofuscaram os produtos agrícolas tradicionais, como café e banana. Os emigrantes enviam mais dinheiro para o Marrocos do que os turistas gastam por lá. Em alguns pequenos países - Líbano, Sérvia, Haiti, Tonga, Albânia e Jamaica por exemplo - as remessas geram mais renda do que todas as exportações de mercadorias unidas. Os números mais recentes do Banco Mundial listam 14 países onde o dinheiro enviado pelos que emigraram é responsável por 15% ou mais da produção econômica, como a Moldova, com 38%, ou a Jamaica com 16,4%.

As remessas são uma parte maior da economia global do que jamais foram. Os emigrantes de países em desenvolvimento enviaram de volta US$ 206,3 bilhões (em torno de R$ 412,6 bilhões) em 2006, de acordo com o Banco Mundial, quase sete vezes o nível de 1990. Esses são os números oficiais - não oficialmente, eles podem dobrar.

Baseada em extensas pesquisas, Manuela Orozco, especialista de remessas do instituto de Diálogo Inter-Americano de Washington, estima que a quantia total enviada para o mundo em desenvolvimento no ano passado foi de US$ 298 bilhões (em torno de R$ 600 bilhões), muito mais do que a estimativa do Banco Mundial.

Dilip Ratha, que chefia a unidade de migração e remessas do Banco Mundial, acredita que as remessas no mundo todo continuarão crescendo em torno de 10% ao ano no médio prazo.

Outros dizem que o fenômeno está se nivelando, e que a diminuição do aumento de remessas dos EUA para o México pode ser anúncio da mudança. Uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento neste mês concluiu que as restrições legais enfrentadas pelos imigrantes ilegais na Geórgia, Louisiana e uma série de outros Estados estavam levando muitos imigrantes a cortarem a quantia que estavam enviando para casa. Alguns economistas questionam o valor desse fluxo de renda, argumentando que não compensa o rompimento econômico causado a um país pelas altas taxas de emigração. Esse é especialmente o caso de países que exportam trabalhadores especializados, como médicos ou engenheiros.

Em um artigo publicado neste ano, por exemplo, o economista falecido Riccardo Faini, que foi do Centro de Pesquisa de Política Econômica, demonstrou que imigrantes formados enviam menos dinheiro a seus países de origem do que os que não têm formação, em grande parte porque, em geral, vêm de famílias mais ricas e têm maior capacidade de levar seus dependentes ao país adotado. O impacto negativo da perda de cérebros, portanto, não é mitigado por um aumento na renda remetida.

Não só os países se vêem com pouco pessoal, como também efetivamente desperdiçam o dinheiro gasto em sua formação. Por exemplo, para manter apenas um médico, a Jamaica teve que formar cinco, e Granada, 22, de acordo com uma pesquisa citada pelo Banco Mundial. Nas Filipinas, alguns médicos fizeram nova faculdade de enfermagem para viajar para fora.

Há uma preocupação com o impacto macroeconômico das remessas. Em países excepcionalmente dependentes de remessas para o câmbio, a entrada pode inflar artificialmente o valor da moeda local, deixando as importações mais baratas e as exportações menos competitivas.

Além disso, as remessas podem criar dependência econômica e reduzir a disposição das comunidades pobres de fazer trabalho manual de baixa remuneração, especialmente entre os jovens.

Mais recentemente, porém, os políticos começaram a ressaltar os lados positivos argumentando - como fez o Banco Mundial em importante relatório de 2005 - que as remessas podem reduzir a pobreza e ajudar os menos ricos a ultrapassarem momentos difíceis. Além de ajudar a pagar as contas de comida e remédio, as transferências são usadas para mensalidade escolar e livros. O dinheiro tende a ser mais confiável que outras fontes de capital externo: durante os anos 90, as remessas foram uma das fontes menos voláteis de câmbio para países em desenvolvimento. Enquanto os fluxos de capital tendem a subir e cair com o ciclo econômico, o fluxo das remessas foram mais estáveis. "Tendem a ser contra-cíclicos", diz Ratha.

Economistas de desenvolvimento como Ratha ressaltam a importância de canalizar as remessas para bens materiais como casas ou pequenas empresas. Há sinais de que isso está acontecendo.

Um estudo de 2006 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, indicou que até um terço dos imigrantes estão investindo dinheiro, comparado com apenas 5% encontrado em pesquisa similar há dois anos. Outros artigos do mesmo banco citam evidências da Turquia, do México e do Egito mostrando que as remessas ajudam os migrantes a montar negócios e comprar casas.

Mesmo assim, os governos quase certamente vão precisar fazer mais para aproveitar o potencial desse fluxo. As remessas podem ser canalizadas para o sistema financeiro formal onde podem - em teoria, ao menos - ser convertidas em poupança e em uma fonte de investimento de longo prazo. Investimentos bem sucedidos usando remessas - alguns com apoio do governo - são um dos principais temas desta série. Deborah Weinberg

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