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28/08/2007

O revolucionário astro do rock de Caracas

Financial Times
Richard Lapper
De Belarus ao Irã e de Nova York a Londres, o presidente iconoclasta da Venezuela, Hugo Chávez, se tornou uma espécie de nome familiar.

Sua oposição veemente ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e os ataques incessantes ao que chama de "neoliberalismo" têm importância em um mundo cada vez mais preocupado com escassez de energia. Afinal, a Venezuela conta com algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo. Como Moisés Naím, o intelectual venezuelano, aponta em sua perceptiva introdução a esta nova biografia, desde Che Guevara e Fidel Castro um político latino-americano não tocava tão fortemente o nervo internacional.

A publicação em inglês daquela que talvez possa ser a melhor biografia em língua espanhola do líder venezuelano é bem-vinda, apesar do livro ser falho de muitas formas. Seus autores, Cristina Marcano, uma jornalista, e Alberto Barrera, um romancista, não desfrutaram de acesso direto ao líder venezuelano. Grande parte do relato deles se baseia em fontes secundárias, e seus supostos erros levaram um furioso crítico local a escrever uma réplica.

Reuters - 6.mai.2007 
Chávez se prepara para lançar bola para iniciar partida de beisebol entre Venezuela e Cuba

Além disso, grande parte do livro foi escrito em 2004, sendo que de lá para cá Chávez aumentou o ritmo da radicalização e o livro ainda não foi devidamente atualizado. Há pouco sobre a série de novas nacionalizações ou sobre a recente proposta constitucional que permitiria ao líder venezuelano permanecer no cargo por décadas. Os autores também deviam dar mais atenção ao desenvolvimento das "misiones", a rede de programas sociais financiados por dinheiro do petróleo mas freqüentemente executados por cubanos. Esta rede é um elemento importante para o sucesso político de Chávez.

Todavia, o livro é bem escrito e acessível - diferente de alguns relatos ideológicos que Chávez tende a inspirar.

Marcano e Barrera são melhores quando descrevem os primeiros 45 anos da vida de Chávez: a seqüência bizarra de eventos que o conduziu da minúscula e remota aldeia de Sabaneta até a presidência em 1998. As
entrevistas - originais ou não - são um elemento crucial e atrativo deste relato. Os amigos de infância e professores falam sobre o desajeitamento do líder venezuelano, seu amor pelo beisebol e o crescente interesse nos mitos e "intrepidez" da história de seu país.

Conspiradores militares descrevem como Chávez formou apoio entre os demais oficiais para a tentativa de derrubada do governo democraticamente eleito, mas impopular, de Carlos Andrés Pérez.

Eles também recontam como ele conseguiu transformar a derrota no "golpe de propaganda da década". Apelando aos conspiradores para baixarem suas armas, Chávez declarou em televisão nacional que "os objetivos que estabelecemos... não foram atingidos". Mas ao casualmente deixar escapar duas palavras, "por ora", ele adicionou um toque de suspense dramático, como se dissesse: "Continua..."

O golpe cimentou sua imagem de líder carismático determinado a colocar um fim à corrupção, desigualdade econômica e exclusão social. Após a tentativa de golpe, os venezuelanos faziam fila para se encontrar com seu herói aprisionado. Herma Marksman, uma professora de história e ex-amante de Chávez, disse que a popularidade estonteante o transformou. "Hugo acha que é Rock Hudson dando autógrafos", ela disse. "Um fogo messiânico começou a queimar dentro dele".

O relato fornece mais algumas intuições importantes sobre a personalidade e motivação de Chávez. Sempre propenso a "romancear" sua vida, sua convicção de que encarna uma espécie de missão espiritual natural parece ter se tornado mais forte ao longo dos anos. Nedo Paniz, um arquiteto com quem Chávez permaneceu após sua saída da prisão nos anos 90, disse que a devoção dele a Simón Bolívar, o pai do século 19 da nação, "beira o delírio".

A habilidade de Chávez de inspirar simpatia de uma forma que funciona tanto em pequenos grupos quanto na mídia também está fortemente em evidência. É um talento que faz com que seja visto por muitos venezuelanos pobres como uma mistura de astro do rock, pregador e apresentador de talk show. "Ele fala com simplicidade, explicando coisas com exemplos e com domínio magistral dos códigos de discurso populares", dizem Marcano e Barrera. "Ele sempre sabota a solenidade oficial, desdenhando de tudo o que é formal".

Apesar de toda a retórica de socialismo do século 21, o crescente relacionamento da Venezuela com Cuba e conversa sobre partidos revolucionários, Chávez é primeiro e acima de tudo um soldado. Ele é esquerdista, mas fortemente leal aos companheiros militares que exerceram um papel importante em seus governos. Este é um homem obcecado por poder. Como coloca Francisco Arias, um co-conspirador do golpe de 1992 e atualmente embaixador da Venezuela na ONU: "Eu acho que ele vive nas garras de uma paranóia para preservação de seu poder. Este é seu próprio inferno pessoal e o motivo para estar constantemente em batalha".

"Hugo Chávez" - Cristina Marcano e Alberto Barrera (Random House, US$ 27,95) George El Khouri Andolfato

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