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29/08/2007

Famílias transnacionais - parte 2: Construindo futuros

Financial Times
Richard Lapper
Atualmente com 47 anos, José Antonio Reyes trabalhou por anos como operário de construção em El Salvador e nunca pensou em abrir uma conta bancária.

Diante das circunstâncias, ele e sua esposa Edith Portales parecem algumas das pessoas mais improváveis a ter suas vidas transformadas pelas inovações das finanças transnacionais. O casal vive em uma casa apertada e sem ventilação em Soyapango, perto da capital do país, San Salvador, que compartilham com seu filho Fernando e com os três filhos de seu sobrinho, Gerardo Alfaro. Eles dependem dos cerca de US$ 600 que Alfaro envia todo mês para eles dos Estados Unidos.

Reyes disse que há muito desejava assobradar sua casa, mas fazer uma hipoteca para financiar a obra nunca foi uma opção. Em El Salvador, como por toda a América Latina, serviços bancários comerciais tradicionalmente só estão disponíveis para aqueles em melhor situação.

Mas neste ano, Gerardo recebeu a oferta de um empréstimo hipotecário inovador de US$ 20 mil nos Estados Unidos que permitirá que seus parentes construam o andar adicional, que fornecerá aos seus filhos um quarto próprio e um local para estudarem. O negócio foi organizado por uma empresa americana de transferência de dinheiro chamada Alante e o Integral, um banco salvadorenho de microfinanciamento.

Até recentemente, realizar uma hipoteca de valor tão pequeno, especialmente uma transnacional, seria cara demais para os bancos obterem um retorno decente. Mas auxiliados pela maior estabilidade econômica na região e taxas de juros menores, os bancos de microfinanciamento e algumas outras instituições financeiras inovadoras começaram a ver potencial neste mercado.

O negócio acentua a forma como trabalhadores imigrantes e suas famílias estão lentamente ingressando nos mercados bancário e de crédito mundiais, que especialistas dizem ser crucial para dar às remessas de dinheiro um maior impacto no desenvolvimento econômico. Empresas de transferência de dinheiro como a Western Union tradicionalmente lidavam com grande parte das transações.

Tal sistema de moeda a moeda significa que apenas uma pequena fração das remessas - que correspondem a mais de 15% do produto interno bruto de El Salvador - fica no sistema bancário, onde poderia ser usado para financiar o investimento local.

Mas, dadas as oportunidades certas, as famílias que recebem regularmente as remessas poderiam usá-las para abrir contas bancárias e então encontrarem formas mais fáceis de adquirir seguro e outros produtos financeiros, contrair empréstimos para compra de uma casa ou iniciar um pequeno negócio. Tudo o que poderia aumentar dramaticamente o impacto econômico do dinheiro. Nas palavras de Don Terry, o chefe do Fundo de Investimento Multilateral do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): "Creditworthiness (capacidade de financiamento) produz maiores efeitos multiplicadores".

Os grandes bancos começaram a despertar para o potencial da movimentação financeira dos imigrantes. Os bancos espanhóis têm sido particularmente ativos na oferta de contas para equatorianos, peruanos e outros imigrantes latino-americanos que seguiram para seu país nos últimos anos. Os bancos americanos - incluindo Citicorp, Bank of America e Wells Fargo - também estão de olho no potencial das famílias de imigrantes.

"O segmento do imigrante é mais jovem que o tradicional e de muitas formas nos primeiros estágios do ciclo de vida financeiro", disse Daniel Ayala, chefe dos serviços de remessa global do Wells Fargo. "Eles estão comprando seu primeiro carro, sua primeira casa e estão começando a acumular dívida de cartão de crédito. Trazê-los a bordo agora é uma oportunidade de colocar nosso pé na porta".

Algumas grandes instituições também está entrando no mercado de hipoteca transnacional, onde clientes como Gerardo podem obter uma hipoteca em casa mas pagá-la como dinheiro vindo do exterior. Elas são encorajadas pelo constante declínio das taxas de juros e o crescimento dos mercados hipotecários domésticos no México e em alguns outros países latino-americanos.

Nos últimos anos, centenas de imigrantes equatorianos na Espanha e Itália passaram a ter acesso a hipotecas do Banco Solidario, com sede em Quito - atualmente parte do grupo Mutualista Pichincha - e um programa semelhante envolvendo vários bancos locais tem desfrutado certo sucesso no Peru.

No ano passado a tendência se estendeu ao México, o país latino-americano onde o mercado de remessa tem crescido mais rapidamente, com emprestadores como a Su Casita oferecendo entre 2 mil e 3 mil empréstimos hipotecários para imigrantes gastarem em seu país natal.

De seu escritório simples em um porão em um bairro boêmio de Denver, Colorado, Francisco Arana, o gerente local do Su Casita, disse que fecha cerca de 40 hipotecas por mês, com imigrantes mexicanos geralmente à procura de empréstimos de cerca de US$ 45 mil a US$ 50 mil para compra de casas novas em áreas recém-desenvolvidas. "Definitivamente está crescendo. Nós estamos vendo mais pessoas que querem comprar alguns bens no México", ele disse.

Em um momento em que a desaceleração do mercado imobiliário expôs os fornecedores das chamadas hipotecas de risco nos Estados Unidos, o otimismo com as perspectivas de um novo mercado voltado para grupos igualmente de baixa renda pode parecer equivocado. Mas as empresas de hipotecas transnacionais insistem que é um tipo de negócio muito diferente. "Um salvadorenho que ganha US$ 25 mil é de baixa renda nos Estados Unidos, mas em El Salvador ele está muito bem", disse Kai Schmidt, vice-presidente executivo do Alante, que faz parte da Microfinance International Corporation, com sede em Washington. "O que é um cliente de risco nos Estados Unidos pode muito bem ser um cliente sólido em casa".

Além disso, aqueles que atuam neste novo mercado insistem em severa análise de crédito dos clientes, algo freqüentemente ignorado no setor de risco. "Você concede empréstimos para pessoas de acordo com sua renda de fato. Isto difere do setor de risco, onde os emprestadores apenas apostavam que os preços continuariam subindo", disse Schmidt.

Mas ainda há obstáculos para a incorporação das remessas aos serviços financeiros tradicionais. Primeiro e acima de tudo, relativamente poucas famílias de imigrantes no rico norte e ainda mais no sul mais pobre possuem conta bancária, muito menos acesso a produtos financeiros como hipotecas, seguros ou crédito para compra de bens e abertura de pequenas empresas.

"Os bancos dão um talão de cheque mas o imigrante não sabe como usá-lo. Ele nunca viu um na sua vida", disse Luis Peña Kegel, diretor geral do Banorte, um banco mexicano. Nos Estados Unidos, dificuldades de língua aumentam o problema.

Mesmo os imigrantes que tinham conta bancária em casa podem ter tido experiências ruins, lembrando da forma como contas foram congeladas ou confiscadas durante o turbulento passado recente da América Latina. "Os imigrantes acreditam que bancos são distantes, caros e inacessíveis", disse Peña Kegel.

Segundo, apesar do crescimento das remessas nos últimos anos, grande parte dos pagamentos vem em valores pequenos e custeiam diretamente alimento e medicamentos. Grande parte dos recebedores são tão pobres que, para os bancos, os custos para administração de suas transações superariam os ganhos potenciais. "Se os bancos pudessem lhes prestar serviços, eles o fariam", disse Gwenn Bézard do Aite, uma consultoria financeira com sede em Boston. "Mas não é viável, pelo menos não da noite para o dia".

Terceiro, a maioria dos bancos latino-americanos que entraram no mercado de remessas adotou principalmente um papel limitado de agente intermediário. Em outras palavras, eles permitem o saque do dinheiro remetido para as famílias do imigrante em troca de uma taxa única, em vez de oferecerem uma série de serviços bancários.

Manuel Orozco, um especialista em remessas do Diálogo Interamericano, em Washington, disse que a lucratividade das taxas serve como um desestímulo para a oferta de contas ou empréstimos. Ele disse que os bancos centro-americanos, por exemplo, obtêm um quarto de seus lucros com a intermediação das remessas. Alguns bancos - como o Banorte - estão tentando converter os clientes de remessas em clientes bancários plenos, mas os progressos são lentos.

Quarto, muitos bancos americanos têm protelado a entrada no mercado. As instituições que se esforçaram para desenvolver negócios junto aos grupos de imigrantes são exceções. Alguns bancos realizaram incursões onerosas e malsucedidas no mercado, avaliando mal, por exemplo, quanto os clientes mexicanos estariam preparados para usar cartões de débito. Outros foram afastados pelas pressões regulatórias associadas à repressão à lavagem de dinheiro ou o aumento da controvérsia política associada à imigração ilegal.

Terry, do BID, tem pressionado os bancos americanos a abrirem suas portas aos imigrantes e ao mercado de remessas, mas disse estar decepcionado com os resultados. "Eu imaginei que teríamos mais avanços. Mas sob pressão regulatória, os bancos têm recuado".

A tecnologia bancária representa outro obstáculo, porque a rede de transmissão geralmente usada pelos bancos - mesmo aqueles que fazem parte do mesmo grupo multinacional - não é adaptada para as transações de varejo dos clientes. Apesar de indivíduos poderem enviar dinheiro, as taxas cobradas são relativamente altas e o serviço está longe de ser fácil de ser usado. "Ele não é ajustado para clientes que desejam enviar US$ 200 ou mesmo US$ 5 mil", disse Bézard, do Aite.

Tudo isto significa que instituições financeiras alternativas, como uniões de crédito, cooperativas financeiras e instituições de microfinanciamento exercem um papel proeminente.

Nos Estados Unidos, as uniões de crédito - que oferecem contas de poupança e empréstimos para trabalhadores imigrantes - têm crescido nas comunidades latinas. "Quando conversamos com os executivos-chefes destas organizações, eles dizem que sua clientela está repleta de imigrantes", disse Dave Grace, vice-presidente do Conselho Mundial das Uniões de Crédito, em Wisconsin.

Na América Latina, instituições de microfinanciamento como a Integral compensam os altos custos administrativos e riscos com taxas de juros que, apesar de menores do que as cobradas por agiotas, são muito maiores do que as de empréstimos convencionais. Carlos Viteri, o gerente-geral da Integral, calcula os pagamentos do fundo de remessas em cerca de 15% do portfólio de US$ 33 milhões de empréstimos para pequenos negócios da instituição de microfinanciamento. "Nós queremos tornar mais clara a ligação entre as remessas e a formação de ativos no nível mais baixo", disse Maria Otero, presidente da Acción International, que tem investimentos na Integral e dezenas de outras instituições de microfinanciamento na região.

A Microfinance International Corporation (MFI), proprietária da empresa de transferência de dinheiro Alante, também está desenvolvendo iniciativas mais amplas na área. A MFI, que recebeu fundos de agências de desenvolvimento européias e americanas, assim como de investidores ricos sediados no Japão, inventou um sistema de mensagens que visa particularmente o mercado alternativo.

"Nosso objetivo é aumentar a capacidade dos destituídos e sem banco", disse Romi Bhatia, vice-presidente de operações internacionais do MFI. "Nós queremos uma penetração real no mercado e ir a lugares onde os bancos não vão".

Mesmo assim, está nos estágios primordiais. Hipotecas como as obtidas por Alfaro exigem tempo - tanto, na verdade, que a Alante, que lançou seu produto neste ano, apenas fechou um punhado de negócios. Grande parte dependerá da capacidade das grandes instituições financeiras de extrair o máximo de tais oportunidades. "Poderá acontecer, mas levará de 50 a 100 anos", disse Bazard. "Certamente há alguns grande bancos tentando decifrar o código, mas ainda ninguém conseguiu". Instituições bancárias transnacionais estendem novas linhas de crédito aos pobres George El Khouri Andolfato

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