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30/08/2007

Famílias transnacionais - parte 3: A confraria

Financial Times
William Wallis
A cidade de Touba espalha-se pelas terras áridas do centro do Senegal; a cada ano um labirinto de novas paredes de concreto e casas inacabadas engloba aldeias de pau-a-pique a sua volta.

Com apenas 5.000 habitantes, Touba também era uma aldeia por ocasião da independência da França, em 1960. Hoje, depois de três décadas expandindo-se a 15% ao ano ou mais, é a segunda maior cidade do Senegal, centro de uma rede global de ambulantes, mercadores e trabalhadores, com uma população próxima a um milhão.

A evolução da cidade espelha a de outras na África, onde o enfraquecimento do Estado e a expansão do setor informal foram acompanhados pela urbanização frenética. Mas em Touba, uma série de idiossincrasias amplificou esses padrões.

Sua origem na savana remota foi puramente espiritual. Touba foi o local escolhido em 1887 para a construção de uma utopia profética pelo xeque Ahmadou Bamba, místico que procurava proteger a sociedade senegalesa dos efeitos corrosivos do jugo colonial e devolvê-la ao caminho reto do islã. Ele passou anos no exílio e na prisão, por sua luta não violenta contra os colonizadores franceses do Senegal.

Seus ensinamentos, porém (entre eles: "Ore como se fosse morrer amanhã e trabalhe como se não fosse morrer nunca"), inspiraram uma ética de trabalho puritana que perdura entre os mourides, uma confraria sufi fundada por Bamba cujos membros são a maior parte dos senegaleses que vendem coisas nas calçadas de Nova York, trabalham nas docas de Marselha ou colhem tomates na Espanha.

Assim, Touba tornou-se potente símbolo de renascimento cultural e religioso, destino para itinerantes mourides cujos ganhos alimentaram a expansão da cidade e custearam sua infra-estrutura.

Enquanto isso, senegaleses rurais sustentados pelos familiares no exterior mudaram-se para a cidade, tirando vantagem dos serviços que oferece. "Se você depende das remessas para viver, não precisa ficar em uma aldeia isolada", diz Serigne Mansour Tall, professor da Universidade de Dacar e especialista em imigração.

Touba ficava no coração de uma comunidade agrícola próspera, que fornecia ao mundo um quarto de suas exportações de amendoim. Atualmente, bolsas plásticas rasgadas voam sobre as terras abandonadas, em torno dos troncos de baobás antigos. Nos anos 70, uma seca persistente e subsídios europeus para o girassol e canola, matéria-prima para óleos de cozinha rivais, combinaram para derrubar o principal produto senegalês.

Ao norte de Touba, no vale do rio Senegal, as aldeias foram esvaziadas uma após a outra, em um êxodo de duas vias - os rapazes e algumas moças enfrentaram os mares bravos para chegar à Europa e além, e suas famílias mudaram-se para as cidades onde há postos de transferência de dinheiro.

A Organização Internacional de Migração estima que o número de senegaleses morando em países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico seja de 150.000. Mas se forem incluídos os que estão em outros países africanos e imigrantes ilegais na Europa e outras partes, 2 milhões dos 11 milhões de senegaleses hoje moram fora do país, de acordo com o Ministério de Senegaleses no Exterior. As maiores comunidades estão na França, Itália, Espanha e EUA.

Para muitos senegaleses hoje, a renda de familiares no exterior supera a obtida com o amendoim ou com salário do serviço público fornecendo uma renda de subsistência. No ano passado, as remessas foram 17% do produto interno bruto do Senegal, como em qualquer parte na África.

O FMI estima que o dinheiro enviado pelos emigrantes pelo sistema bancário formal e agências de transferência licenciadas aumentou de US$ 560 milhões (cerca de R$ 1,1 bilhão) em 2004 para um recorde de US$ 850 milhões (aproximadamente R$ 1,7 bilhão) em 2006.

O amplo mercado de Touba, onde muitas das moedas do mundo podem ser encontradas, revela que isso é apenas parte da história. Vários cambistas não licenciados disseram que estavam negociando US$ 40.000 ou mais remessas por mês, com dinheiro transferido muitas vezes financiando o comércio com Dubai, EUA, Itália e Ásia ao longo do caminho.

Enquanto a Western Union, a Money Express - uma nova empresa rival senegalesa - e bancos locais estão começando a atrair mais desse tráfego para os canais formais, uma pesquisa acadêmica mostra que o dinheiro transportado pelas famílias, amigos e redes de câmbio é de pelo menos outro tanto. "Isso significa um total em torno de US$ 1,7 bilhão em remessas em 2006, mais do que a assistência pública e o equivalente a um terço ou mais do orçamento nacional", diz Tall.

Nos subúrbios mais ricos de Touba, vê-se BMWs, Mercedes e carros com tração nas quatro rodas dos "meninos de ouro", que progrediram lá fora. "Antes, o exemplo do sucesso era o pequeno burocrata, com seu salário regular. Agora são os emigrados. São eles que constroem e alugam suas casas para autoridades", diz Tall.

Apesar de muitos emigrados ajudarem a financiar a escola de parentes, Tall argumenta que a emigração também pode ter o efeito oposto. "As pessoas não pensam mais em estudar. Se você toma a rota tradicional (educação) você sobe as escadas, passo a passo. Mas se você vai embora, equivale a tomar um elevador social", diz ele.

Cheikh Gueye, um mouride que escreveu a história da cidade de Touba, diz que se tornou um lugar para migrantes "voltarem a si mesmos", depois de anos de exílio freqüentemente doloroso. "De todos os emigrantes de áreas rurais, há poucos que investem em casa em suas aldeias. Eles preferem investir em Touba, onde podem se beneficiar da eletricidade e da água gratuita", diz ele.

O status especial da cidade, acordado em tempos coloniais, encorajou isso, o que facilitou a missão pastoral da confraria. Seu território, anacronicamente classificado pelo Estado como comuna rural, é autonomamente administrado pelo último dos filhos de Bamba, o califa, que pode distribuir terras livremente para os recém chegados.

A cidade também é isenta de impostos e taxas. Isso a tornou uma alternativa à capital Dacar para o setor informal, e bens chegam de todo o mundo. Há um lado mais obscuro: lavagem de dinheiro e um comércio crescente de produtos falsificados como remédios.
No entanto, por comparação com muitas cidades sahelianas, Touba parece relativamente próspera e ordenada. Suas ruas limpas partem da maior mesquita na África sub-saariana. Talvez esteja no limite por seu desenvolvimento frenético, mas não está desmoronando, como as favelas de Dacar.

Além disso, seus líderes comunitários e religiosos foram capazes de canalizar a energia da diáspora, mobilizando fundos substanciais para projetos cívicos e religiosos. Gueye chama muitos emigrados do Senegal de "os novos instrumentos de urbanização", cujas remessas fomentam a construção civil e pagam por serviços que o Estado não consegue mais suprir.

Dame Ndiaye é um exemplo proeminente dos filantropos emigrados em busca de fortuna que ajudaram a construir Touba. Na sede de sua organização na cidade, ele fala de uma odisséia que começou nos anos 60, quando pegou o trem de Dacar para Bamako em Mali. Eventualmente cruzou para a Europa via Líbia, ganhando a vida como vendedor itinerante de jóias e peças de couro. Em 1990, ele tornou-se um pilar da comunidade mouride em Madri.

Para promover o sonho de Touba, ele montou uma obra de caridade mouride, Matlaboul Fawzani - que significa a busca pela felicidade na terra e no paraíso - com o objetivo de dar à cidade um hospital. Com o apoio do califa, ele levantou US$ 10 milhões com senegaleses em torno do mundo para construí-lo - um amplo complexo branco em um subúrbio de Touba - e entregou as chaves ao Estado em 2003.

O patrocínio da infra-estrutura é uma das formas que as remessas entraram no vácuo deixado pelo Estado em retirada. A economia do Senegal, como muitas na África, está presa entre um modelo velho e decadente - dependente das mesmas exportações de commodities e doadores externos - e um futuro no qual o governo espera que a indústria, os serviços e o investimento privado terão maior papel.

Para tanto, Abdoulaye Wade, presidente desde 2000, investiu em um vasto programa de obras públicas para descongestionar Dacar, modernizar os transportes e infra-estrutura e reforçar os setores com potencial para crescimento acelerado da exportação.

Enquanto a economia está em transição, as remessas estão tampando muitas dos buracos. "Sem elas, o déficit corrente seria de 20% do PIB e não poderia ser financiado. Nesse caso, o Senegal precisaria de enorme assistência do FMI", diz Alex Segura-Ubiergo, representante do FMI em Dacar.

Apesar de as transferências de dinheiro freqüentemente serem mais eficientes em combater a pobreza do que a ajuda assistencial, já que são distribuídas onde as necessidades são maiores, a dependência delas também tem seu custo.

Uma pesquisadora estrangeira em Dacar compara isso com a dependência da ajuda exterior. "É como se o dinheiro caísse do céu", diz ela, ressaltando como poucos dos lucros são levados a uso produtivo.

Pela mesma moeda, alguns argumentam que a relativa prosperidade de Touba é artificial, que os muros fora das casas de dois andares escondem uma economia essencialmente campesina, que avançou pouco desde os antigos tempos do amendoim. De acordo com algumas estimativas, até 80% de seus habitantes, dependem das remessas para cobrir seu custo de vida. Menos de 10% do dinheiro enviado para casa vai para montar negócios.

O custo social da migração em massa também aumentou fortemente nos últimos anos, quando países europeus procuraram conter a maré e imigrantes africanos chegando as suas praias. No ano passado, os senegaleses foram proeminentes entre os milhares de africanos que morreram afogados no mar, nos 1.600 km atravessados de piroga entre a costa da África Ocidental e as Ilhas Canárias.

Apesar dessa tragédia recorrente estar gravada na psique nacional, há jovens e desempregados suficientemente desesperados que continuam a arriscar suas vidas.

Os migrantes senegaleses na maior parte vêm das classes mais pobres. No exterior, tendem a reduzir o consumo a um mínimo, vivendo de uma dieta básica e freqüentemente dormindo muitos no mesmo quarto.

O status dos emigrados ainda assim aumentou exponencialmente nas últimas décadas. A virada aconteceu em 1994, quando o franco CFA foi desvalorizado. Isso cortou pela metade o poder de compra nas antigas colônias francesas na África, cujas moedas estavam ligadas ao franco. Mas também elevou do dia para noite o poder social e financeiro dos emigrados, cuja moda estrangeira subitamente valia o dobro em casa.

A sorte política dos mourides deu um salto junto com a importância das remessas na economia local. As quatro principais confrarias sufi no Senegal sempre competiram por influência na política eleitoral, mas os líderes políticos evitavam tomar lados. Desde a eleição de Wade em 2000, há uma percepção que isso começou a mudar.

Wade, que também é mouride, reconheceu o poder comercial crescente da diáspora e a mudança nas aspirações dos jovens. Ele usou isso em sua campanha populista para as eleições presidenciais deste ano e em diversas ocasiões viajou publicamente para Touba para homenagear o califa.

O presidente foi muito bem recompensado, com uma parte maior dos impostos da confraria mercante mouride de Dacar, assim como o suporte do califa para garantir o voto mouride.

Apesar de haver poucas evidências que a confraria tenha ambições políticas maiores, Gueye diz que a sede em Touba agora está em posição de conduzir uma "negociação permanente" com o Estado. Talvez não seja a utopia com a qual Bamba sonhou há 120 anos, mas Touba certamente é diferente. Os emigrados do Senegal preenchem o vazio deixado por um Estado ausente Deborah Weinberg

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