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30/08/2007

Suécia corre o risco de repetir a crise dinamarquesa com as charges do profeta

Financial Times
David Ibison
Em Estocolmo
O que começou como uma experiência artística inofensiva na Suécia corre o risco de levar a uma repetição da crise do ano passado na Dinamarca, depois da publicação de desenhos supostamente insultuosos ao profeta Maomé.

A crescente disputa na Suécia é sobre os "rondellhund" (cachorros de rotatória), que são esculturas amadoras de cães, geralmente bem-humoradas, colocadas em rotatórias de tráfego de todo o país como uma forma de expressão da contracultura.

Quando o artista sueco Lars Wilks decidiu desenhar uma imagem de "rondellhund" em que o cachorro tinha a cabeça de Maomé, provocou um debate nos jornais da Suécia sobre se as galerias de arte deveriam expor a imagem.

Ulf Johansson, editor-chefe do jornal regional "Nerikes Allehanda", da cidade de Orebro, a oeste de Estocolmo, considerou o debate digno de novas análises e publicou a imagem, juntamente com um artigo discutindo a liberdade de expressão.

Nerikes Allehanda/EFE 
Grupo de muçulmanos suecos entrega carta de protesto a Ulf Johansson (esq.)

No Irã, porém, as autoridades não acharam graça. Na segunda-feira elas convocaram o encarregado de negócios da Suécia em Teerã para receber uma queixa oficial sobre a publicação da imagem.

Na terça-feira o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, acusou os "sionistas" de estar por trás do desenho sueco, porque "sua sobrevivência está na guerra". Ele pediu que os muçulmanos não reajam, pois "os sionistas ficarão desorientados se houver paz no mundo".

"Não é importante que os governos islâmicos se mobilizem", ele disse. "Quando um louco insulta um cientista, prova sua própria loucura". O desenho não será empunhado contra a população sueca, ele acrescentou.

O Ministério das Relações Exteriores da Suécia confirmou que havia recebido uma advertência, mas disse que não reagiu de qualquer outra maneira além de enfatizar que "a liberdade de expressão e a imprensa são vitais na Suécia".

Johansson recebeu e-mails ameaçadores e foi obrigado a adotar um guarda-costas. "Alguns diziam que eu queimaria no inferno", ele disse. A polícia reforçou a segurança em torno dos escritórios do jornal.

Muçulmanos moradores de Orebro realizaram uma pequena demonstração pacífica diante do jornal na última sexta-feira, mas um protesto muito maior está planejado para amanhã, segundo um porta-voz do Centro Cultural Islâmico em Orebro.

"Se você fizesse uma imagem do papa como um cachorro, as pessoas pensariam que o papa não é bom", ele disse. "Então por que é certo ter uma imagem do profeta como essa? Agora cabe aos muçulmanos de outras cidades agirem".

O porta-voz disse que cerca de 800 pessoas são esperadas na demonstração de amanhã e acrescentou que os centros islâmicos de toda a Suécia estão sendo contatados e convidados a aderir.

Johansson disse que estava simplesmente tentando provocar um debate. "Eu achei que era uma boa oportunidade de levantar a questão da liberdade de religião e de expressão na Suécia - não apenas para os suecos, mas para os muçulmanos que vivem no país", ele disse ao "Financial Times". "Eles têm o direito de protestar aqui. Isso é o que realmente importa".

A reação do público foi mista. Um leitor que escreveu para o site de um jornal captou o clima: "Acredito que é válido defender a liberdade de expressão, mas também acho que há limites, mesmo na Suécia, para o que a mídia deve publicar em nome da liberdade de expressão".

No início de 2006, charges do profeta Maomé foram publicadas em jornais da Dinamarca, provocando violentos protestos de muçulmanos em todo o mundo e o boicote a produtos dinamarqueses em alguns países.

Especialistas em segurança advertiram que a Internet poderá ser usada para disseminar os protestos suecos nas próximas semanas. A rede mundial teve um papel chave para atiçar o ressentimento do mundo muçulmano durante a crise dinamarquesa.

A Suécia é um dos países mais conectados à Internet no mundo, e o número de muçulmanos no país cresceu rapidamente nos últimos anos sob uma política de imigração relativamente liberal. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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