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01/09/2007

Cheney, o sobrevivente sem desafiadores

Financial Times
Edward Luce e Andrew Ward
Certa vez Dick Cheney referiu-se brincando a si próprio como sendo Darth Vader - tamanha era a sua reputação sombria nos principais veículos da mídia dos Estados Unidos. Com a saída na sexta-feira (31/08) de Karl Rove, o principal estrategista eleitoral de bastidores de George W. Bush, o vice-presidente norte-americano é visto como "o último homem que restou de pé" no governo.

Mas longe de ser uma figura cada vez mais isolada, conforme é retratado com freqüência, Cheney exerce uma influência que nunca foi tão grande. Dos integrantes do círculo próximo de assessores de confiança nos quais Bush se apóia desde que chegou à Casa Branca, só resta Cheney.

Os outros - a chamada "Máfia do Texas", que incluía o ex-conselheiro Harriet Miers; o diretor de comunicações Dan Barlett; Karen Hughes, uma das principais assessoras; Alberto Gonzales, o procurador-geral que está deixando o cargo; e Rove - saíram todos.

Larry Downing/Reuters - 8.ago.2007 
Dick Cheney (esq.) é o único membro do alto escalão que defende Guantánamo

Era esse grupo informal que se encontrava com Bush nas instalações particulares do presidente após as reuniões formais da Casa Branca e tomava as decisões difíceis. "Essas eram as pessoas nas quais Bush confiava, e para as quais podia dizer qualquer coisa", conta um ex-assessor de Cheney. "Agora Cheney não terá desafiadores".

Nesse círculo interno, Rove provavelmente era o único cujo peso político se equiparava ao do vice-presidente - embora as opiniões dos dois nem sempre fossem concordantes. O principal objetivo de Rove era a expansão da base eleitoral do Partido Republicano a fim de criar uma "maioria permanente". Já o de Cheney era a ampliação dos poderes do Executivo, que, na sua opinião, foram ilegitimamente removidos da Casa Branca após o escândalo de Watergate, na década de 1970.

Eles freqüentemente perseguiam objetivos diferentes. E parece que Cheney é quem tem a maior probabilidade de completar a sua agenda. "Não restou ninguém capaz de contestar o vice-presidente", afirma Juleanna Glover, uma outra ex-assessora de Cheney.

O fato de a Casa Branca não contar com um candidato na disputa presidencial de 2008 amplia ainda mais a margem de manobra de Cheney, especialmente com a saída de Rove. "Rove era acima de tudo um animal político", afirma Stephen Hayes, biógrafo de Cheney. "Ele avaliava a maneira como determinadas políticas poderiam beneficiar os republicanos. A atitude típica de Cheney é dizer: 'Quero que os políticos se danem. Esta é a coisa certa a se fazer. Agora alguém tem que vender esta proposta ao povo norte-americano e aos nossos aliados'".

Tampouco, conforme certas pessoas sugeriram, a saída de Gonzales necessariamente enfraquece o vice-presidente.

"Em termos de formulação de argumentos, Gonzales nunca foi um grande jogador", afirma John Bolton, ex-aliado de Cheney no governo Bush, ex-embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU) e, atualmente, integrante da American Entreprise Institution, em Washington. "David Addington (um antigo assessor de Cheney) era o principal articulador de políticas de privilégios do Executivo, e ele ainda permanece no cargo".

O primeiro teste significativo ao qual será submetida a influência de Cheney na era pós-Rover ocorrerá nas próximas semanas, quando Bush escolher um nome para substituir Gonzales como procurador-geral. Pessoas próximas à Casa Branca dizem que Cheney deseja uma figura conservadora que defenda a expansão do poder presidencial que ele promoveu nos últimos seis anos.

Mas Bush está sofrendo pressões de outros integrantes do governo para escolher uma figura independente que sustente a Casa Branca. Bruce Fein, que foi um assessor de direito no governo Reagan, afirma que o nome escolhido para substituir Gonzales determinará "se a agenda de privilégios do Executivo defendida por Cheney continuará prevalecendo".

Cheney tem concentrado a sua vice-presidência na reversão dos limites impostos aos poderes da presidência após o escândalo de Watergate e a Guerra do Vietnã.

Foi essa filosofia que levou à implementação de um polêmico programa doméstico de interceptação de comunicações domésticas após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, à criação do centro de detenção na Baía de Guantánamo, em Cuba, e à indefinição da política adotada pelos Estados Unidos com relação à tortura.

Talvez a evidência mais clara da enorme influência de Cheney seja o impasse quanto ao futuro de Guantánamo. O vice-presidente é o único funcionário de alto escalão do governo que ainda defende que aquele centro de detenção continue funcionando. Mas até o momento as suas posições têm neutralizado o crescente consenso em outros setores do governo quanto à necessidade de se fechar aquelas instalações.

"A meta mais importante de Cheney é firmar para além desta presidência o papel proeminente, e sob certos aspectos exclusivo, da Casa Branca de fazer a guerra, e de definir o que é uma guerra e quem se constitui em um adversário combatente", afirma Fein. "Esse será o seu legado".

Embora Cheney tenha perdido algum terreno para moderados no campo da política externa, aqueles que o conhecem bem insistem que ele continuará pressionando por uma ação mais dura no sentido de impedir que o Irã obtenha armas nucleares. "Ele não deve ser subestimado quanto a isso", adverte um ex-integrante graduado do governo. "Cheney já defendeu antes uma ação militar contra o Irã, e provavelmente defenderá novamente. Se as atuais resoluções da ONU forem incapazes de fazer com que o Irã mude de rumo, a argumentação de Cheney ganhará força em 2008".

Bolton afirma que, no que diz respeito à política externa, o governo Bush manterá a sua extrema liberdade de ação.

"As pessoas tendem a se esquecer de que nós não somos um sistema parlamentarista - os poderes do executivo não dependem de quem controla o parlamento e nem da opinião pública", afirma ele. "Temos uma separação dos poderes. E isso é especialmente verdadeiro quando se trata de política externa". UOL

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