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03/09/2007

Um problema real?

Financial Times
Jonathan Wheatley
Até poucos anos atrás, quando os mercados de crédito internacionais esfriavam, o Brasil era um dos primeiros a pegar um resfriado. Nas crises mexicana, russa e asiática dos anos 90, o país sul-americano rapidamente seguiu seus pares emergentes na turbulência. Quando foi forçado a desvalorizar sua própria moeda em 1999, seus ativos despencaram de tal forma que o banco central teve que elevar a taxa de juros a 45% ao ano para sustentar o real.

Hoje, o Brasil está altamente protegido por elevadas reservas de moeda estrangeira, baixa dívida externa e saudáveis superávits em conta corrente.

O crescimento econômico está acima de 5% ao ano, mais do que o dobro da taxa média das últimas duas décadas. O crédito e a demanda doméstica estão passando por um boom à medida que milhões de brasileiros pobres se tornam consumidores pela primeira vez.

O país, ao que parece, nunca contou com saúde tão robusta. Por que, então, há tanta conversa sobre a "doença brasileira"?

Como a chamada doença holandesa que atingiu a Holanda nos anos 70, quando as exportações do gás natural recém-descoberto provocaram tamanha valorização da moeda a ponto de destruir a competitividade do restante da economia, o equivalente brasileiro ameaça transformar o país em vítima de seu próprio sucesso.

A balança comercial do Brasil passou por uma transformação desde os anos 90, quando restrições às importações foram reduzidas e a alta inflação foi vencida. Após anos de déficits, o país saiu do vermelho em 2001. Desde então, os superávits têm aumentado ano a ano, de US$ 2,7 bilhões em 2002 para US$ 46 bilhões no ano passado. Apesar da exportação de bens manufaturados ter aumentado, o verdadeiro impulso veio das commodities.

Valorização do real

Enquanto isso, a moeda tem se valorizado constantemente. Do ponto mais baixo de R$ 3,95 frente ao dólar americano em outubro de 2002, o dólar atingiu R$ 1,84 em 23 de julho, antes do estouro da crise das hipotecas de risco americanas. Ele agora vale cerca de R$ 1,95.

Mas a moeda mais forte, ao tornar os bens brasileiros menos competitivos, tem provocado protestos de muitos na indústria. O risco, eles dizem, é que os empregos melhor remunerados em setores de capital intensivo e outros tradicionais sejam substituídos por pior remunerados no setor de commodities.

"Nós estamos sofrendo uma pressão incrível", disse Jorge Faccioni, um líder empresarial de Novo Hamburgo, no Estado do Rio Grande do Sul, onde a economia local depende das indústrias têxtil, de calçados e metalúrgica. "Se isto continuar, nós veremos uma desindustrialização do Brasil."

"A doença brasileira é boa para setores primários e ruim para os de valor agregado", disse Luiz Carlos Mendonça de Barros, um ex-ministro e atual administrador de fundo hedge em São Paulo, que foi um dos primeiros a diagnosticá-la.

A valorização da moeda significa que muitos setores manufatureiros que antes exportavam para o leste da Ásia, por exemplo, agora estão construindo fábricas lá. "Não há mais qualquer estímulo para buscarmos novos clientes no exterior exportando do Brasil", disse Oscar Becker, diretor financeiro da Iochpe-Maxion, com sede em São Paulo, uma das maiores fabricantes de autopeças e uma fornecedora global para a indústria.

A empresa está construindo uma fábrica para produzir rodas na China no próximo ano. Becker disse que espera fazer com que a Iochpe-Maxion reconquiste os clientes asiáticos que perdeu à medida que a valorização da moeda minava sua competitividade. "A moeda teve um impacto imenso, tem sido muito complicado para nós", ele disse. "Eu espero não chegarmos ao ponto em que teremos que fornecer ao mercado brasileiro a partir do exterior."

Isto, muitos argumentam, é o sintoma clássico da doença brasileira. Suas causas também são fáceis de avistar. Na Companhia Vale do Rio Doce, a maior produtora de minério de ferro do mundo, a receita cresceu de US$ 4,1 bilhões em 2001 para US$ 13,4 bilhões em 2005, US$ 20,4 bilhões em 2006 e US$ 16,6 bilhões apenas na primeira metade de 2007, estimulada pela demanda da China.

A agricultura também passa por um boom. O Brasil no momento é o maior exportador de carne do mundo, por exemplo, uma força poderosa na soja, milho e algodão, além das exportações tradicionais como açúcar, café e suco de laranja.

Investimentos

Mas o aumento das exportações não é o único fator por trás da valorização da moeda. O Brasil, com sua recém-encontrada estabilidade, se tornou altamente atrativo para investidores e emprestadores. A quantidade de dinheiro que flui para ações e títulos brasileiros teve um impacto ainda maior sobre o real que o comércio.

Tal fato por si só, talvez, deveria levantar uma bandeira de alerta sobre a estabilidade futura. Banqueiros de investimento não vêem nenhuma diminuição no ritmo do investimento. Mas outros alertam para uma futura mudança no sentimento. "Parece que os investidores compram qualquer coisa", disse um alto funcionário do governo. "Eles precisam se tornar mais seletivos. Nós realmente estamos entrando em uma bolha."

Grande parte do dinheiro que entra no Brasil na forma de dívida -quase US$ 19 bilhões no ano passado- tem sido usado para alimentar o consumo. Apesar da proporção do crédito em relação ao produto interno bruto (PIB) permanecer baixa, ela avançou de 25% do PIB, em 2002, para 35% no ano passado, podendo chegar a quase 38% no final deste ano.

Os mercados de capital ganharam vida. Após anos de estase total, o número de ofertas públicas iniciais na Bolsa de Valores de São Paulo tem sido de uma por semana.

Um exemplo é a Friboi, um frigorífico, que em uma década ascendeu do submundo da economia informal brasileira -onde os trabalhadores não são registrados ou parte de seus salários é pago sem registro, onde poucos impostos são pagos, quando são- à estar listada na Bolsa de Valores de São Paulo. Dois meses após sua oferta inicial em março, ela anunciou a compra da Swift dos Estados Unidos por US$ 1,4 bilhão, o que a tornou o maior frigorífico do mundo.

"Você pode transformar sua indústria ou seu negócio", disse Walter Molano da BCP Securities, uma corretora de Connecticut. "O empreendedor econômico não é um idiota. Eles estão mudando a paisagem industrial."

Ainda não se sabe se tal mudança será para melhor ou -à medida que empregos braçais e de baixa qualificação substituirem empregos qualificados melhor remunerados- para pior. "O que determinará para que lado o pêndulo oscilará é o dinamismo do mercado doméstico", disse David Kupfer, um especialista em indústria e concorrência da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "E isto realmente depende se teremos ou não as políticas governamentais necessárias para alimentar o processo."

Impostos e cargos públicos em excesso

Empresas por toda a economia se queixam muito sobre a moeda. Mas um simples arranhar da superfície revela que a moeda valorizada não causou tantos problemas, mas sim revelou problemas que estavam mascarados quando a moeda desvalorizada trabalhava a seu favor.

O pagamento de impostos, por exemplo, é complicado e caro. O fardo tributário, em cerca de 35% do PIB, é muito maior do que o de outros mercados emergentes e desproporcional à baixa qualidade dos serviços oferecidos.

Um motivo é que o governo colocou sua casa fiscal em ordem aumentando impostos em vez de reduzindo gastos. De fato, os gastos do governo estão aumentando à medida que o Estado oferece generosos aumentos salariais aos funcionários públicos e contrata, em vez de demitir, trabalhadores. O número de pessoas que se candidatam a empregos vitalícios no setor público nunca foi tão grande. Enquanto isso, as leis trabalhistas do Brasil permanecem altamente restritivas; para o empregadores do setor privado, o pagamento da previdência social e outras contribuições custa de 60% a 100% do valor da folha de pagamento.

Mas a maior queixa dos empresários atualmente é a baixa qualidade e alto custo da infra-estrutura do país e o fracasso do governo em fornecer regras claras para investimentos privados no setor de infra-estrutura. "Mostre-me algo em que eu possa investir", disse Marcelo Mosci, chefe das operações latino-americanas da General Electric, em São Paulo. "O governo precisa regulamentar. Se não o fizer, nós veremos o colapso da competitividade."

O governo anunciou planos ambiciosos de gastos em infra-estrutura e diz defender uma reforma tributária -apesar da reforma trabalhista parecer não estar em sua agenda. Mas à medida que se aproxima o final do primeiro ano de seu segundo mandato de quatro anos, pouco progresso foi feito.

"Nosso maior problema é sistêmico", disse Kupfer. O mal estado da infra-estrutura de transporte e energia, ele disse, "gera custos mais altos (para as empresas) quando estes deviam estar caindo. Nós precisamos de mudanças na política do governo para gerar investimento."

Os horizontes se abrem no interior

Seguindo para leste de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso -onde uma grande placa verde indica aos visitantes que chegaram ao centro geodésico da América do Sul- uma estrada ruim e esburacada cruza uma planície fluvial antes de subir um escarpamento acentuado. Acima dele se encontra um cruzamento de onde sai uma estrada secundária que rodeia pelo platô até Campo Verde.

"Não havia nada lá há 20 anos", disse Arno Schneider, um dos muitos fazendeiros pioneiros que vieram do sul do Brasil para o Mato Grosso nos anos 70. "Então alguns de nós começaram a usá-lo como local de encontro para entrar no mercado."

Hoje, Campo Verde se ergue como uma miragem entre os campos de soja, com seus silos de aço reluzindo sob o sol. Uma ampla avenida central é margeada pelos depósitos das maiores empresas de commodities do mundo. Atrás deles se encontram ruas com comércio, casas e pequenas empresas. Se espalhando pelo gentil vale ao norte se encontram amplos novos projetos habitacionais.

Dimorvan Brescancin, um ex-diretor de faculdade que atualmente é o prefeito da cidade, disse que o boom das commodities fará a população local crescer dos quase 30 mil atuais para 100 mil em 2020. Mas em vez de atrair mais agricultores para o cultivo de mais produtos -toda terra arável do município já é usada- ele quer adicionar valor às commodities. "Nosso futuro depende da verticalização", ele disse.

A Sadia, a maior processadora de carnes do Brasil, já conta com granjas e uma fábrica de ração na cidade. A empresa já colocou Campo Verde em uma lista curta de possíveis locais para receber uma fábrica de processamento de aves e outras instalações, que criariam 3.000 empregos diretos e 9.000 indiretos com um investimento de R$ 200 milhões.

Apesar da Sadia ainda não ter decidido entre Campo Verde e outros locais para sua nova fábrica, ela prossegue com seu plano de construir fábricas de processamento de aves e suínos e uma fábrica de ração em Lucas do Rio Verde, também no Estado do Mato Grosso.

Expansão das exportações

A Sadia também está expandindo para o exterior e recentemente ingressou em uma joint venture com sua distribuidora russa, a Miratorg, para produzir, entre outras coisas, nuggets de frango para os restaurantes McDonald's, tornando-a a primeira fornecedora global não-americana da rede. Produtos processados e cortes de valor agregado -por exemplo, filés com peso preciso para o mercado japonês- compõem uma fatia cada vez maior de suas vendas.

A empresa diz que muitas modificações fazem parte de uma mudança global mais ampla em seus mercados. "Na próxima década nós veremos uma nova ordem na qual o comércio tradicional norte-sul perderá parte da força e o comércio sul-sul se tornará mais importante", disse José Augusto Lima de Sá, o diretor de relações internacionais da Sadia.

A Perdigão, a maior concorrente da Sadia, também expandiu tanto em casa quanto no exterior. Neste ano ela comprou a Plusfood da Holanda e abriu uma fábrica no Brasil para produção de carnes processadas apenas para exportação. "Nossa estratégia é aumentar consistentemente a parcela de produtos de valor agregado em nossa relação de produtos", disse Nelson Vas Hacklauer, o novo diretor de negócios. "Estes são mercados voláteis e dispor de mais valor agregado gera uma renda mais constante."

O aumento de tais exportações está ajudando a criar dezenas de milhares de novos empregos. Mas há riscos. Um é o de que os novos empregos nas áreas rurais no processamento de aves está ocorrendo às custas de empregos melhor remunerados em setores urbanos, tradicionais.

Outro é o fato das exportações de bens de valor agregado estarem ameaçadas pela valorização da moeda, que tem trabalhado contra os preços internacionais mais altos das commodities, reduzindo os lucros dos produtores rurais. "Se isto continuar, nossos produtores começarão a enfrentar sérios problemas e poderão deixar o mercado", disse Vas Hacklauer, da Perdigão. Como a economia brasileira corre o risco de se tornar vítima de seu próprio sucesso George El Khouri Andolfato

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