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07/09/2007

Rei segura os cordões na eleição no Marrocos

Financial Times
Andrew England
Em uma tarde quente e úmida em Casablanca, dezenas de pessoas marcham pelas estreitas ruas de pedra entoando slogans políticos, enquanto tentam atrair eleitores indecisos com o duplo tema de justiça e desenvolvimento.

Muitos no grupo são jovens mulheres com as cabeças cobertas por lenços coloridos, sobre os quais equilibram chapéus de cartolina em forma de lanternas - o emblema do Partido Justiça e Desenvolvimento (PJD).

Seus seguidores vêm percorrendo as ruas há dias, e quando os marroquinos votarem nas eleições parlamentares hoje há altas expectativas de que os islâmicos moderados consigam fortes ganhos. Eles poderão até sair como o partido com mais assentos pela primeira vez, embora os analistas prevejam uma disputa apertada entre quatro ou cinco dos 33 partidos concorrentes.

Abdelhak Senna/AFP - 27.ago.2007 
Jovem recebe "santinho" de candidato marroquino das mãos de militante islâmica

Se as previsões estiverem corretas, os ganhos do PJD serão significativos, diante da ascensão do islamismo político em todo o mundo árabe, especialmente porque o partido é um dos poucos grupos islâmicos com que Washington acredita que pode negociar.

Mas para os marroquinos o impacto de uma potencial vitória do PJD está aberta a debate, num país onde a apatia dos eleitores é a norma. Os políticos gozam de pouca credibilidade e é visível a ausência de entusiasmo eleitoral.

Poucos duvidam da popularidade do PJD, que usou como tema as queixas sobre corrupção e a divisão entre ricos e pobres, enquanto falou na cultura conservadora do Marrocos assim como na crença de que os partidos tradicionais persistentemente renegam suas promessas.

Há 33 partidos concorrendo nas eleições parlamentares do Marrocos, as segundas desde que o rei Mohamed VI sucedeu a seu pai em 1999. Os analistas prevêem uma disputa apertada entre os principais partidos, incluindo a União Socialista de Forças Populares (USFP), de esquerda, o Istiqlal, um partido conservador, o Movimento Popular, o islâmico moderado Partido Justiça e Desenvolvimento e a Coalizão Independência Nacional. No sistema marroquino, nenhum partido pode obter uma maioria e os partidos têm de formar uma coalizão para governar. Em 2002 a USFP conseguiu a maioria dos assentos, com 50 membros no Parlamento de 325, seguido pelo Istiqlal, com 48. Ambos estão na atual coalizão. O PJD, que deverá fazer progressos desta vez, conquistou 42 assentos mas não concorreu em todos os distritos.
HISTÓRICO
Mas a vitória nas urnas não traz garantias de entrada no governo, e qualquer partido enfrenta diversos obstáculos antes de poder implementar reformas amplas. O sistema político do Marrocos garante que nenhum partido isolado pode ter maioria, forçando os grupos a formar coalizões.

O poder verdadeiro está com o rei Mohamed VI e seu séquito de assessores. O rei indica o primeiro-ministro e quatro ministros de gabinete, sem a obrigação de preencher os cargos com membros dos partidos políticos. E ninguém se dispõe a apostar se ele está ou não preparado para escolher um primeiro-ministro do PJD se o partido obtiver o maior número de assentos.

Analistas e políticos preferem destacar vários cenários possíveis.

Ter o PJD no governo permitiria que o rei reforçasse as credenciais democráticas do Marrocos. E como muitos vêem o governo como um mero instrumento do palácio real, poderia permitir que o PJD fosse influenciado por dentro, dizem analistas.

Alguns sugerem que também se adaptaria à estratégia dos EUA de integrar os islâmicos moderados e poderia servir a Washington como modelo para outros países árabes.

No entanto, o rei também poderia indicar um primeiro-ministro do PJD enquanto pressionaria outros partidos para não formar uma coalizão com os islâmicos, colocando-os novamente na oposição sob um disfarce de democracia. Ou ele poderia simplesmente buscar outros partidos desde o início.

Autoridades do PJD reconhecem os dilemas que poderão enfrentar, e o partido ainda precisa decidir se entrará numa coalizão se surgir a oportunidade. Está em jogo a credibilidade do movimento. Se ele entrar para o governo, corre o risco - como outros antes dele - de ser prejudicado pelo fracasso de cultivar as reformas.

Alguns do PJD consideram um "suicídio" entrar no governo sem uma reforma constitucional que reforce os poderes do governo, diz Abdelkader Amara, um candidato do PJD. Embora o PJD não desafie a legitimidade da monarquia popular, seus objetivos incluem reduzir os poderes políticos do rei.

Amara está na ala mais moderada do PJD. Ele acredita que "os cidadãos estão esperando por nós" e que o partido deve trabalhar a partir de dentro. Mas ele e outros também advertem sobre os perigos de um aumento do apoio a grupos mais radicais caso o PJD entre no sistema e depois seja incapaz de cumprir as aspirações da população.

Desde que conquistou 42 assentos no Parlamento de 325 membros nas eleições de 2002, o PJD sobreviveu a ataques de secularistas depois dos atentados a bomba em Casablanca em 2003 e realizou ofensivas de simpatia nos EUA, Espanha e França para tranqüilizar o Ocidente sobre suas intenções.

Amara diz que o partido está "um pouquinho irritado" pelo rótulo de islâmico, afirmando que se considera um "partido normal" que usa o islã como sua referência. "Somos um partido nacional, não temos nada a ver com os partidos do Egito ou da Palestina", ele diz, referindo-se à Irmandade Muçulmana e ao Hamas.

"Dizemos que o problema não é o álcool, não é o véu. Temos muitos outros problemas, temos o problema da democracia, governança, temos o problema dos cidadãos pobres", diz o professor de veterinária. "Se entrarmos para o governo vamos enfrentar todos esses problemas, mas não agiremos como se estivéssemos em uma mesquita".

No entanto, membros da União Socialista de Forças Populares (USFP), o maior partido no Parlamento desde as últimas eleições, acusam o PJD de usar "linguagem dupla" para mascarar suas verdadeiras intenções, e ainda esperam vencer. Eles advertem que o PJD poderá desgastar o "pluralismo cultural" do Marrocos e colocar em perigo seu recente sucesso econômico, alimentado em parte pelo turismo e pelo investimento estrangeiro.

Para os marroquinos apáticos, porém, os resultados pouco significam.

"Eles são todos iguais. Mesmo que eles digam que são islâmicos, eles não vão mudar. Eu sei que a maioria deles tem barba, mas quando forem eleitos vão raspar", diz Bachir Aydi, um funcionário da alfândega. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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