Escândalos e desastre eleitoral derrubam primeiro-ministro

David Pilling
Em Tóquio

A imprensa japonesa, em geral muito cordata, fez uma pergunta extraordinariamente pessoal a Shinzo Abe, sobre sua saúde, na terça-feira (11/09).

Ele respondeu que tinha um leve resfriado. Como acontece nos filmes, quando alguém espirra pode pressagiar a morte e, menos de 24 horas depois, Abe tornara-se um defunto político.

Yoshikazu Tsuno/AFP7 
Empresário japonês observa anúncio da demissão de Shinzo Abe pela televisão

Kaoru Yosano, secretário do gabinete, disse que, apesar do primeiro-ministro não ter mencionado, a deterioração de sua condição física pode ter tido um grande papel em sua decisão de renunciar. "O primeiro-ministro Abe vem se perguntando se sua saúde é forte o suficiente para agüentar a agenda muito agitada e se psicologicamente conseguiria agüentar tal pressão", disse Yosano.

Certamente, Abe parecia esgotado durante seu discurso de renúncia ontem, feito tão silenciosamente e com tamanha falta de energia que as pessoas no fundo do pequeno auditório tinham dificuldades em ouvir o que dizia.

Se as sugestões de problemas de saúde são ou não uma fachada - alguns estão especulando sobre o surgimento de um escândalo - sua súbita renúncia surpreendeu até as pessoas próximas a ele. "Realmente achava que ele ia lutar", disse uma delas.

Ninguém teria ficado chocado se Abe tivesse partido após a derrota de julho nas eleições da Câmara Alta - a maior vergonha eleitoral de seu Partido Liberal Democrata (LDP), em sua história de 52 anos. Os eleitores rejeitaram por ampla maioria sua liderança e seu programa político, particularmente nos distritos mais pobres que sentem-se deixados para trás pelas políticas econômicas do LDP.

Abe, no entanto, desafiou a convenção e os pedidos de muitas figuras importantes de seu próprio partido para que renunciasse. Em vez disso, disse que ia lutar para realizar sua ambição de criar um Japão que pudesse manter a cabeça erguida nos círculos internacionais.

Em agosto, buscando um novo início, Abe nomeou um novo ministério que parecia mais competente do que sua primeira seleção de pesos leves - dos quais quatro foram forçados a renunciar por escândalos e erros crassos. Depois de uma semana, entretanto, seu novo ministério teve problemas, após a renúncia de seu ministro da agricultura.

O primeiro-ministro então apostou seu futuro na aprovação de uma lei especial antiterror, que permitiria ao Japão fornecer combustível aos navios americanos e de outros aliados no Oceano Índico para operações em torno do Afeganistão. O Partido Democrático do Japão, que conquistou o controle da Câmara Alta nas eleições de julho, disse que se oporia à extensão por não ter sido feita sob os auspícios da ONU.

Em sua reunião no fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Sidney, no final de semana passado, Abe prometeu a George W. Bush, presidente dos EUA, que conseguiria a extensão e depois sugeriu que renunciaria se fracassasse. Para alguns, pareceu que estava preparando uma estratégia de saída.

Entretanto, em sua volta ao Japão nesta semana, o primeiro-ministro agiu como se fosse continuar lutando, abrindo uma sessão do Parlamento com um discurso político ao estilo do "Estado da União", na segunda-feira, e sugerindo que ia usar a maioria de dois terços de seu partido na Câmara Baixa para promover a lei antiterror.

No mesmo dia, de acordo com o ex-primeiro-ministro Taro Aso, secretário-geral do LDP e seu mais provável substituto, ele confidenciou sua intenção de renunciar para resolver o que ele chamava de "situação caótica".

Muitos ficaram chocados e irritados com o momento escolhido, dizendo que ia gerar um caos. Taku Yamazaki, ex-vice presidente do LDP, disse: "Não posso entender por qual razão nos abandonou na metade do caminho. Os esforços dos que estão a sua volta foram desperdiçados".

Mesmo assim, esse destino estava escrito desde os primórdios de seu mandato. Ele marcou pontos no início, fazendo uma visita simbólica à China que aqueceu as relações geladas e iniciou o que os dois lados descreveram como "parceria estratégica".

Este acabou sendo o ponto alto de seu governo. Dali em diante, sua popularidade afundou, arrastada por escândalos de corrupção e gafes ministeriais.

Enquanto seus índices de popularidade caíam, seu governo foi atropelado por uma admissão que a agência de previdência social tinha perdido mais de 50 milhões de arquivos de pensão.

Gerald Curtis, especialista em Japão da Universidade de Columbia, chamou o fiasco de Abe de "Furacão Katrina". Apesar de não ser responsável pelo problema, sua forma de lidar com ele foi tão fraca que se tornou simbólica do fato que suas prioridades não eram as mesmas da nação. Enquanto pessoas comuns preocupavam-se que os frutos de cinco anos de crescimento econômico não estavam visíveis em nenhuma parte, Abe continuava falando em construir uma "bela nação".

A preocupação em restaurar o orgulho do Japão e abandonar o que Abe considerava ser sua auto-imagem masoquista, após a derrota na guerra, veio de seu avô. Nobusuke Kishi, ministro do gabinete de Hideki Tojo na guerra, foi preso por suspeita de crimes de guerra, mas nunca foi julgado. Abe admirava seu patriotismo.

Em 1960, Kishi renunciou com glórias ao cargo de primeiro-ministro, depois de ignorar protestos de rua e forçar uma revisão do tratado EUA-Japão no Parlamento. Por comparação, o ano de Abe no cargo - que também terminou indiretamente por discussões sobre os laços Japão-EUA - nunca pegou fogo. Deborah Weinberg

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