Aquecendo-se para uma revolução no esporte eletrônico em estilo coreano

Anna Fifield

Enquanto Lee Yun-yeol aquecia-se no seu uniforme esportivo para o jogo do ano, centenas de garotas histéricas no estádio de Seul iam à loucura. Tendo ao fundo uma música heavy metal ensurdecedora, as fãs gritavam o nome dele em um coro agudo e agitavam cartazes que diziam, "Quero cozinhar arroz para você", o equivalente coreano de "Quer se casar comigo?!".

Os comentaristas narravam o histórico de jogos do competidor enquanto câmeras de TV faziam tomadas panorâmicas da platéia. Em casa, cerca de 10 milhões de pessoas assistiam a um dos oito canais a cabo que estavam prontos para transmitir o jogo ao vivo.

Neste clima de alta octanagem - um nível intermediário entre um concerto de rock e uma final da Copa da Inglaterra - Lee ocupou o seu lugar. Mas ele não entrou em um ringue de boxe ou em uma quadra de tênis. Lee sentou-se à frente de uma tela de computador, colocou fones de ouvido e preparou-se para bombardear o seu oponente até aniquilá-lo em um jogo de computador chamado Starcraft.

Bem-vindo ao esporte em estilo coreano.

Neste país que é o mais conectado à Internet, os jogos de computador tornaram-se comuns e os "jogadores profissionais" são tratados como astros populares e são conhecidos pelos penteados ultra-estilizados, pelos lucrativos acordos de patrocínio, pelos guarda-costas musculosos e pela multidão de fãs.

"Você é incapaz de me vencer. Vou lhe mostrar isto hoje", gritou Lee, 23, enquanto se preparava para a batalha contra o seu oponente no campeonato da Liga Profissonal 2007 All Star na semana passada, provocando o delírio da platéia. Na primeira fila, a jovem Chung Tae-ran mal podia conter-se. "Ele é tão bonitinho quando sorri", disse ela, sorridente. "Gosto do Starcraft como jogo, mas estou mais interessada nos jogadores. Eu apóio Lee porque ele está sempre no ataque".

Quando os dois jogadores deram início à disputa, telas enormes instaladas sobre o palco permitiam que a platéia acompanhasse a aeronave e os robôs enquanto estes se moviam freneticamente sobre a paisagem destroçada do Starcraft.

Ao final, as coisas não correram muito bem para Lee, que "treina" no Starcraft 12 horas por dia, mas que acabou cometendo erros táticos durante o jogo do último sábado, disputado sob intensa pressão.

"Foi a pressão psicológica", justificou-se Lee - que tem um contrato de patrocínio de três anos e no valor de US$ 750 mil com a Sansung - ao "Financial Times" após o jogo.

Mas ele continua ambicioso: "Vou me tornar o melhor jogador do mundo. Quando as pessoas ouvirem a palavra 'pro-gaming' (o circuito profissional de videogames), quero que elas pensem em mim".

Os esportes eletrônicos não se constituem em um nicho restrito na Coréia. Uma pesquisa com 1.150 adolescentes revelou que a profissão de "pro-gamer" é a mais desejada, e alguns institutos privados chegam a fornecer cursos de estratégias para jogos online.

Quando o jogador profissional Im Yo-han entrou para a força aérea, a unidade militar criou a sua própria equipe de jogos, a Airforce Challenge E-sports (ACE), e as fãs sobrecarregaram até o colapso o website da aeronáutica quando este publicou uma matéria sobre a vida militar de Im.

As empresas também querem participar da ação. Companhias de ponta como a Samsung Electronics, a SK Telecom e o Shinhan Bank também patrocinam os esportes eletrônicos.

O Instituto de Pesquisas Econômicas Samsung calcula que a renda com os "e-sports" chegará a mais de 77 bilhões de wons (o equivalente a US$ 800 milhões) neste ano, o que representa o dobro da cifra de dois anos atrás. E o instituto prevê que os jogos eletrônicos se transformarão em uma indústria de 121 bilhões de wons até 2010.

"A excelente infra-estrutura coreana de Internet tem sido um fator realmente muito importante para que os e-sports atinjam tamanha magnitude na Coréia do Sul", afirma Je Hun-ho, presidente geral da Associação Coreana de Esportes Eletrônicos. Mas ele enxerga o potencial global dessa tendência: "Os e-sports começaram a se espalhar pelo mundo, e esperamos que um dia eles tornem-se um esporte olímpico".

A Coréia do Sul conta com a maior penetração mundial da Internet - mais de três quartos dos domicílios possuem conexão de banda larga - e dados do Ministério da Informação sugerem que 55% dos 34 milhões de usuários da Internet disputam jogos online.

Existem atualmente 324 jogadores pro-gamers registrados - jogadores profissionais que ficaram pelo menos duas vezes entre os oito primeiros em competições individuais, e que passaram pelo programa educacional básico da Associação Coreana de Esportes Eletrônicos.

Os pro-gamers têm em média 20 anos de idade e ganham um salário anual médio de 31 milhões de wons (US$ 33 mil). O salário anual médio na Coréia do Sul é de 18 milhões de wons. UOL

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