Brasil goza os benefícios reais da estabilidade

Jonathan Wheatley

Noélia Santos, uma empregada doméstica de 43 anos, se levanta às 4h40 todos os dias para pegar o ônibus às 5h15, um dos dois que a levam até seu trabalho, com início às 7h, em uma casa de classe média em Perdizes, uma área residencial abastada no centro de São Paulo.

Lá ela faz a limpeza e supervisiona outra empregada que cozinha e lava a roupa. Saindo do trabalho às 17h30, ela enfrenta o tráfego pesado da noite e chega a sua casa duas horas e meia depois.

Santos é uma de um exército de faxineiras, babás, cozinheiras e motoristas que lutam diariamente para facilitar a vida dos brasileiros ricos, muitas vezes deixando de lado suas próprias famílias. Mas ela não se queixa. "Sei que as coisas melhoraram", ela diz.

Santos ficará contente de manter seu emprego até se aposentar com uma pensão do Estado. A maioria de suas amigas também está feliz em seu trabalho e menos preocupada com o desemprego do que alguns anos atrás.

"Há muito mais oportunidades que antes, especialmente em lojas e fábricas", ela diz. Quem é o responsável? "Isso vem do Lula."

Luiz Inácio Lula da Silva, quase terminando o primeiro ano de seu segundo mandato consecutivo de quatro anos, é o presidente mais popular da história do Brasil. Duas pesquisas publicadas na semana passada tornam fácil ver por quê.

Uma é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do departamento nacional de estatísticas, conhecida como Pnad. Entre uma série de avanços, ela descobriu que o salário mensal médio real aumentou extraordinários 7,2% de 2005 para 2006. Os economistas dizem que o aumento este ano será ainda maior.

A outra é uma pesquisa de opinião realizada para o jornal "O Estado de São Paulo", na qual dois em cada três brasileiros atribuem a Lula a estabilidade econômica que tanto fez para aumentar o poder aquisitivo dos pobres. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em 1994 lançou o Plano Real, que controlou a inflação, recebe o crédito de apenas 7% dos pesquisados.

Os jornalistas conservadores de "O Estado de São Paulo" fulminaram contra essa injustiça, mas os números do Pnad explicam. Apesar do aumento do poder aquisitivo devido à inflação baixa, a renda em reais caiu ano a ano de 1996 até 2003, primeiro ano do primeiro mandato de Lula. Desde então ela aumentou constantemente.

Alexandre Lintz, economista do BNP Paribas em São Paulo, diz que isso se deve a dois fatores predominantes: a liquidez internacional e os preços das matérias-primas. Quando estes atuavam contra o Brasil -um grande exportador de matérias-primas- na década de 1990, a moeda caiu da paridade com o dólar em 1994 para quase R$ 4 por dólar no final de 2002. Sob as condições internacionais amplamente melhores desde então, o real se revalorizou para cerca de R$ 1,85 hoje.

"A moeda forte mantém a inflação baixa e o poder de compra dos trabalhadores em um nível mais alto", diz Lintz. "Por isso estamos muito confiantes na continuidade de um forte mercado consumidor no Brasil."

Ele credita isso ao governo por este permitir que o Banco Central use as taxas de juros para controlar a inflação e por manter superávits orçamentários primários (antes dos pagamentos da dívida) suficientes para reduzir a proporção da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto.

Mas ele conseguiu isso através do aumento de impostos, em vez de cortar os gastos públicos exagerados. Em conseqüência, muitos economistas esperam que o crescimento caia de cerca de 4,7% este ano para 4% em 2009.

O Brasil precisa cortar gastos e efetuar outras reformas para realizar seu verdadeiro potencial, diz Lintz, mas o governo "não tem o menor incentivo" para praticar essas mudanças enquanto eleitores como Santos estão contentes.



Desde o primeiro ano do mandato de Lula, a renda dos brasileiros aumentou constantemente. Mas a estabilidade foi construída através do aumento de impostos, em vez do corte de gastos públicos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos