Nascimentos de crianças com má formação no Brasil geram novas preocupações

Andrew Jack, em Londres e
Jonathan Wheatley, em São Paulo

Ao menos três crianças no Brasil nasceram com sérias deficiências físicas causadas pela talidomida nos últimos dois anos, gerando novos questionamentos sobre a autorização do governo para o uso da droga controversa, 46 anos após sua retirada inicial.

Um artigo na última edição da revista "Birth Defects Research" descreve dois nascimentos no ano passado e um em 2005 que foram identificados por "coincidências ao acaso" e adverte que, provavelmente, os números totais são muito maiores.

Os dados sugerem a fraca supervisão do Brasil de um remédio que foi retirado do uso geral como sedativo em torno do mundo em 1961, mas, em meados dos anos 60, foi recomendado para uso especializado em muitos países em desenvolvimento para tratar o ENL, uma complicação da lepra.

Entretanto, desde o início desta década, a Organização Mundial de Saúde e a Organização de Saúde Pan-Americana pediram sua substituição como tratamento do ENL por alternativas que fornecem de graça.

A mudança nas diretrizes foi movida por evidências crescentes de defeitos em crianças nascidas de mulheres que tomaram a droga no início da gestação, incluindo relatos da Índia e da África e 33 casos confirmados no Brasil de 1965 a 1994.

Os três casos mais recentes, os primeiros três oficialmente reconhecidos no Brasil por mais de uma década, ressaltam o risco continuado. Uma criança nasceu de uma mãe que estava sendo tratada de ENL. Duas outras nasceram de familiares de pacientes que tiveram a droga receitada e presumivelmente a tomaram como sedativo.

Em países desenvolvidos, a talidomida é usada para tratar mieloma múltiplo, um câncer da medula óssea, e algumas outras doenças, mas somente sob estrita supervisão, que inclui informação dos pacientes sobre os riscos, controle rígido de distribuição, uso de dois métodos contraceptivos e testes de gravidez regulares.

Dirceu Barbano, diretor do departamento de medicina do Ministério de Saúde brasileiro, defendeu o uso de talidomida com base na eficácia clínica e custo, e disse que os casos mais recentes foram investigados.

"O Brasil vem melhorando o controle de uso... minimizando o máximo possível os riscos", disse ele.

Entretanto, em um artigo de 2003, Vijaykumar Pannikar, diretor do programa de lepra da OMS, argumentou: "A experiência demonstrou que é virtualmente impossível desenvolver e implementar um mecanismo de fiscalização à prova de erros para combater o mau uso da talidomida."

Diana Lockwood, especialista de lepra da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que foi consultora paga da Pharmion, distribuidora britânica da talidomida, defendeu o uso da droga e disse que os tratamentos alternativos também causaram efeitos colaterais. Deborah Weinberg

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