Infiltração de princípios sul-coreanos pela fronteira

Anna Fifield

A economia enferrujada da Coréia do Norte deverá receber uma enorme injeção de dinheiro -e capitalismo- após o importante acordo desta semana com a Coréia do Sul, que abre o caminho para o estabelecimento de complexas relações e para o desenvolvimento de sua infra-estrutura em pedaços.

A disposição de Kim Jong-il, o líder do Estado mais obstinadamente comunista do mundo, de permitir tal desenvolvimento fala muito sobre o agravamento da situação na Coréia do Norte.

"É importante que a Coréia do Norte tenha aceito a idéia de desenvolver sua economia", disse Choi Choon-heum, do sul-coreano Instituto para a Unificação Nacional. "Kim Jong-il está cada vez mais desesperado."

AFP 
Roh Moo-Hyun (esq.), presidente da Coréia do Sul, e Kim Jong-Il, líder da Coréia do Norte

De fato, Kim no momento está no processo de trocar suas armas nucleares -há muito a garantia de segurança de seu país- por ajuda econômica e energética do mundo exterior. A Coréia do Sul tornou a cooperação econômica a base de sua política de engajamento, visando tanto abrir os olhos dos norte-coreanos aos princípios de mercado quanto apoiar sua economia arrasada, assim como reduzir o custo de uma eventual unificação com o Sul.

O complexo industrial Kaesong, onde milhares de norte-coreanos trabalham em fábricas de propriedade sul-coreanas no lado norte da fronteira, é o projeto piloto de Seul, mas é altamente controlado e não ajudou a propagar as idéias capitalistas pela Coréia do Norte. O acordo desta semana permite outras zonas, o que exporá mais norte-coreanos ao capitalismo sul-coreano.

Mais significativamente, as duas Coréias concordaram em criar uma "zona especial de paz e cooperação" ao redor do porto de Haeju, na costa oeste da Coréia do Norte. Ao designar a área uma zona de pesca conjunta e desenvolvê-la como uma zona econômica especial, elas permitirão a navegação de embarcações entre Haeju e o Rio Han, na Coréia do Sul, que leva até Seul. A área foi local de uma disputa às vezes sangrenta, já que Pyongyang não reconhece a fronteira marítima e deseja redesenhá-la mais ao sul.

O Instituto de Pesquisa Hyundai estimou na sexta-feira que as promessas de negócios custariam à Coréia do Sul mais de US$ 11 bilhões -quase metade do produto interno bruto anual da Coréia do Norte- para serem implementados, US$ 4,6 bilhões apenas no desenvolvimento de Haeju.

As duas Coréias decidiram estabelecer complexos cooperativos para construção de navios em Anbyon, na costa leste da Coréia do Norte, e em Nampo, em um rio da costa oeste. Elas também concordaram em abrir serviços ferroviários de transporte de carga para ligar Kaesong com a Coréia do Sul, reparar a linha férrea que sobe pelo lado oeste da Coréia do Norte até a China e pavimentar a estrada de 165 km de Kaesong até Pyongyang.

O instituto Hyundai estimou que a Coréia do Norte receberia US$ 138 bilhões em benefícios econômicos e a Coréia do Sul receberia US$ 4,8 bilhões em caso de implementação dos planos.

Mas o acordo também sugere que Pyongyang está ficando desconfortável com o domínio de Pequim sobre os negócios na Coréia do Norte e com os preços de barganha que está pagando pelo acesso às minas norte-coreanas.

Isto tudo significa que a Coréia do Norte está mudando? Quase certamente não.

O presidente Roh Moo-hyun admitiu que o capitalismo é uma idéia difícil de ser vendida a Kim. "Apesar de termos confiança, o Norte ainda nutre suspeitas em relação ao Sul", disse Roh após as primeiras conversas com Kim. "Eu pude sentir um senso de desconfiança e desaprovação de nosso uso dos termos 'reforma' e 'abertura' durante os encontros."

De fato, "reforma" é uma palavra proibida na Coréia do Norte por sugerir que há algo errado com o atual sistema, de forma que o regime de Kim prefere falar sobre "melhorias" econômicas. Isto sugere que a interpretação singular do comunismo de Kim prevalecerá tanto quanto o próprio Querido Líder.

*O Departamento de Estado disse na sexta-feira que os Estados Unidos enviarão especialistas na terça-feira para visitar o reator nuclear da Coréia do Norte. As autoridades criarão um plano para as equipes iniciarem o desmonte do reator de Yongbyon. George El Khouri Andolfato

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