Expansão ainda é a ordem do dia

Jonathan Wheatley

Se a quantidade de investimento sobre a qual se fala no Brasil for feita de fato, o tamanho do setor siderúrgico do Brasil mais que dobrará ao longo da próxima década.

Hoje, isto o colocaria entre os cinco maiores países produtores de aço, um aumento em comparação à sua 10ª posição no ranking global do Instituto Internacional do Ferro e do Aço (IISA).

O aumento do investimento foi provocado pela consolidação da indústria global -incluindo uma tendência das placas de aço serem produzidos em países em desenvolvimento, sendo transformados em produtos acabados nos países desenvolvidos- e acima de tudo por um melhor panorama para o mercado doméstico brasileiro.

"Finalmente, o mercado doméstico parece estar entrando em um período de crescimento que não víamos há 20 ou 30 anos", disse Rodrigo Ferraz, analista do setor siderúrgico do Banco Brascan, no Rio de Janeiro. "O investimento ficou suspenso por anos, mas agora as empresas têm dinheiro para expandir domesticamente e no exterior."

Todavia, persistem as dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento doméstico. O Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) diz que sem mudanças na política do governo, há o risco de que o crescimento permaneça esporádico.

O IBS disse que as empresas investiram US$ 18,9 bilhões entre 1998 e 2006, grande parte na manutenção e modernização do parque siderúrgico, elevando a capacidade total para cerca de 37,1 milhões de toneladas por ano. Ele diz que a produção neste ano será de cerca de 34,3 milhões de toneladas, em comparação a 30,9 milhões em 2006.

Neste ano, disse Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente executivo, um novo ciclo de investimento teve início, que injetará US$ 17,2 bilhões na indústria existente, elevando a capacidade para 52,2 bilhões de toneladas por ano.

Isto sem contar as empresas recém-chegadas, que deverão gastar cerca de US$ 5,8 bilhões para acrescentar 6,7 milhões de toneladas à capacidade anual, e futuros projetos, aos quais é mais difícil atribuir um valor, mas que deverão acrescentar mais 19 milhões de toneladas, elevando a capacidade total para mais de 77 milhões de toneladas por ano.

Mesmo após tamanha expansão, a indústria do aço brasileira, assim como a maioria das demais no mundo, permanecerá à sombra da indústria da China, que produziu cerca de 423 milhões de toneladas no ano passado, segundo o IISI.

"A China é a grande preocupação para todos no mundo do aço", reconheceu Lopes. Todavia, ele disse que uma viagem à China, no mês passado, tranqüilizou muitos na indústria brasileira de que as autoridades chinesas estão tratando seriamente de medidas para limitar o impacto da recente mudança do país de importador líquido para exportador líquido.

"O governo parece sério sobre agir, de forma que voltamos um pouco mais calmos do que estávamos antes da viagem", ele disse.

As empresas chinesas também estão ajudando na expansão da indústria brasileira. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), um dos maiores grupos locais, recentemente construiu uma nova instalação portuária equipada quase que totalmente por fornecedores chineses. Mais importante, a Bao-steel recentemente fechou um acordo com a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a maior produtora de minério de ferro do mundo, para uma nova usina proposta no Nordeste do Brasil.

A CSN, que recentemente perdeu para a Tata Steel a disputa pela compra do Corus, o grupo anglo-holandês, está entre aquelas que estão expandindo mais agressivamente no mercado local. Após várias tentativas frustradas de expandir no exterior, ela disse recentemente que gastaria US$ 6 bilhões em até seis usinas de placas de aço, cada uma com capacidade de produzir 1,5 milhão de toneladas.

A Usiminas, outra grande produtora, planeja gastar US$ 8,4 bilhões para adicionar mais 5 milhões de toneladas de nova capacidade.

Em julho, a Gerdau, a maior produtora brasileira de produtos longos de aço, anunciou sua compra da Chaparral Steel dos Estados Unidos por US$ 4,2 bilhões, continuando uma antiga estratégia de investir no exterior. Ela agora produz mais aço fora do Brasil do que domesticamente.

"As empresas continuarão expandindo tanto domesticamente quanto no exterior", disse Ferraz. "O problema é que há muito poucos ativos interessantes ainda disponíveis no exterior, assim como os preços ficaram muito altos."

O investimento dentro do Brasil foi encorajado pelo anúncio do governo, no início deste ano, de um plano para estimular o crescimento econômico por meio de investimento do Estado em infra-estrutura. "A boa notícia é que o governo finalmente voltou sua atenção para o investimento", disse Lopes do IBS.

Mas ele alerta que a expansão da indústria será limitada caso o governo não realize as reformas para produzir o crescimento sustentável.

A economia do Brasil deverá crescer 5% neste ano -não tão rápido segundo muitos padrões, mas uma melhoria significativa em comparação à média de menos de 2,5% ao longo dos últimos 15 anos.

O crescimento acelerou nos últimos dois anos, liderado principalmente pelo setor exportador. Mas neste ano o mercado doméstico está liderando o crescimento, à medida que novas formas de crédito ao consumidor estimularam a demanda. Uma constante valorização da moeda também ajudou a manter a inflação sob controle e aumentou o poder de compra dos pobres.

"O problema é que o governo equilibrou suas contas com o aumento de impostos em vez de corte de gastos", disse Lopes. "Isto penaliza o setor produtivo." George El Khouri Andolfato

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