Tudo está confuso enquanto a indústria musical muda sua canção

Joshua Chaffin e Andrew Edgeclife-Johnson

Enquanto a indústria musical luta para se reinventar na era digital, alguns de seus artistas mais renomados são os que ditam as regras.

Nesta semana, Madonna aproximou-se de um acordo inovador pelo qual deixaria a Warner Music, há muito tempo sua gravadora, pela promotora de shows Live Nation.

Stephen Hird/Reuters - 07.jul.2007 
Madonna deve deixar a gravadora Warner Music pela promotora de shows Live Nation

O contrato de 10 anos pagaria mais de US$ 70 milhões (em torno de R$ 140 milhões) em dinheiro e ações adiantadas por discos, turnês e mercadorias, de acordo com pessoas que conhecem os termos do contrato. Tudo junto, daria bem mais de US$ 100 milhões (cerca de R$ 200 milhões) pela Material Girl.

Para altos executivos do ramo e analistas de Wall Street, o contrato de
Madonna representa uma aposta audaciosa ou extravagante da Live Nation que pode entrar para a indústria de música em geral. Michael Savner, analista do Bank of America, observou ontem que Madonna faria 60 anos no último ano do contrato.

O que está fora de discussão é que o acordo é uma indicação que o colapso das vendas de CDs -há muito o sangue das companhias- está embaralhando o relacionamento tradicional entre talento, selos e promotores de shows que governou a indústria por décadas.

"É inevitável", disse Barry Diller, diretor executivo da IAC, dona da
TicketMaster, aos investidores no mês passado. "Acabou essa idéia de que são roteiros horizontais separados."

Nesta semana, o Radiohead começou a distribuir versões digitais de seu novo disco, convidando os fãs a pagarem o quanto quisessem. A banda alcançou enorme publicidade pela atitude sem a ajuda de nenhuma máquina de marketing de uma gravadora.

Nos últimos meses, Prince distribuiu seu último disco por um jornal no Reino Unido, para promover vendas dos shows; Paul McCartney fechou contrato com a Starbucks, e o Eagles concordou com uma distribuição exclusiva nos EUA com a empresa Wal-Mart.

"Desenvolvedores" de talentos

Esses desafios ao modelo tradicional das gravadoras parece estar
acrescentando novo significado ao termo "banda de um homem só".

Ainda assim, as gravadoras estão entre as que mais têm se afastado do modelo tradicional.

As vendas digitais não estão conseguindo repor as perdas de dois dígitos nas vendas físicas, então os selos estão tentando participar em todas as fontes de renda dos artistas -desde turnês até ringtones e mercadorias.

A Universal Music e a Warner investiram em grupos de administração de
artistas; a Sony BMG e a EMI querem assinar mais contratos de "360 graus" com novos artistas.

"A idéia é nos tornarmos desenvolvedores de talentos, em vez de vendedores de CDs", disse Rolf Schmidt-Holtz, diretor executivo da Sony BMG ao Financial Times na semana passada.

Inevitavelmente, as empresas detentoras desses títulos não estão dispostas a entregá-los e -como a Live Nation- estão por sua vez tentando se aproximar dos artistas.

Edgar Bronfman, diretor executivo da Warner Music, argumenta que as
gravadoras têm uma vantagem nesse confronto: sua capacidade de encontrar artistas no início de suas carreiras.

"A Ticketmaster e a Live Nation teoricamente são competidoras, mas,
francamente, vemos os artistas muito antes", disse em uma conferência no
último mês.

A Warner pode fechar contratos amplos e lucrativos, disse ele, enquanto as agências de promoção teriam que "pagar pelo varejo".

O contrato da Live Nation certamente é uma indicação do poder que os
artistas estabelecidos apreciam neste novo ambiente.

Uma de suas características mais notáveis, entretanto, é que os direitos do catálogo de Madonna continuariam com a Warner. Sem esses, o acordo da Live Nation pode não fazer sentido econômico.

A Warner pode estar perdendo uma de suas maiores artistas, disse Savner do Bank of America ontem, mas "o maior risco, em nossa opinião, seria pagar demais por um artista que não parece estar gerando a receita para justificar o contrato sendo discutido".

Ainda há dependência

Já houve temores similares sobre o equilíbrio de poder entre gravadoras e
artistas antes. Em 1992, Madonna montou seu próprio selo, Maverick, seguindo o exemplo de artistas como U2 e Led Zeppelin.

Nenhum afetou o poder das grandes, entretanto, e Madonna foi comprada do Maverick pela Warner em 2004.

"Eles são tão bons nos negócios quanto os executivos das gravadoras são
cantando", disse um membro experiente da indústria ontem.

Os analistas acreditam que apenas os maiores nomes do mundo podem andar sozinhos e, mesmo assim, poucos estão dando as costas para a indústria inteiramente.

O Radiohead está negociando com importantes selos para vender o CD que pretende lançar em janeiro, e o Eagles procurou a Universal para distribuir fora dos EUA.

Executivos da música ainda ficam irritados com tais iniciativas, entretanto observam que é graças ao investimento que fizeram que os artistas estabelecidos podem andar sozinhos. "É o nosso capital semente que realmente faz a marca do artista", comentou Bronfman.

Para cada banda "descoberta" no MySpace, milhares de talentos não
descobertos ainda estão batalhando. A ampla maioria dos artistas ainda
precisa de selos para promovê-los. Se a aposta do Live Nation se pagar,
talvez seja um promotor de shows ou uma vendedora de ingressos que
preparará -e lucrará- com uma futura rainha do pop.

O relacionamento tradicional entre talento, selos e promotores de shows, que governou a indústria por décadas, está alterado Deborah Weinberg

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