Cineasta chinês vê necessidade de mais valores morais

Mure Dickie

Wang Jianlin, um magnata dos imóveis da China, delegado ao congresso do Partido Comunista e candidato a grande produtor de cinema, tem fortes opiniões sobre o que faz um bom filme.

Os recentes sucessos de bilheteria em seu país, como "A Promessa" e "O Banquete", tinham temas caóticos e uma ética opaca, critica Wang, que é presidente da Dalian Wanda, um grupo de shopping centers, imóveis e produção de cinema.

Por isso ele está investindo o equivalente a US$ 270 milhões na construção de uma nova base para produção de filmes no sudoeste do país, na província de Yunnan, para fazer entretenimento com moral positiva, capaz de edificar a população. "Quero construir uma Hollywood chinesa", ele diz em uma entrevista em Pequim, onde é um dos 2 mil delegados que participam do congresso qüinqüenal do Partido Comunista, que governa o país.

Teh Eng Koon Matthys/EFE 
Pedestres passam diante do poster do filme "Minha Longa Marcha", exbido em Pequim

Os estúdios de Los Angeles não vão tremer diante da perspectiva da concorrência da remota e principalmente rural Yunnan, mas as ambições de Wang certamente vão chamar a atenção de seus colegas da elite política da China.

Os comissários culturais do partido há muito desejam revitalizar a abalada indústria cinematográfica doméstica, e ao mesmo tempo garantir que ela ofereça uma mensagem ideológica mais positiva do que a transmitida pelos filmes importados dos EUA.

Em um discurso ao congresso do partido esta semana, o presidente chinês, Hu Jintao, pediu o desenvolvimento das "bases" da indústria cultural e o incentivo a "empresas chaves e investidores estratégicos".

Muitas autoridades devem concordar com Wang quando ele afirma que "sempre comer no McDonald's e assistir filmes americanos acabará causando problemas para nossa cultura e nossas crenças".

O problema é que, apesar das cotas que limitam os lançamentos anuais de filmes estrangeiros, o público local, que pode facilmente assistir aos filmes de Hollywood em DVDs piratas, tende a não ir aos cinemas para assistir às obras locais.

Nos últimos anos as autoridades incentivaram a produção de filmes épicos históricos e de artes marciais bem financiados e muito promovidos, como "A Maldição da Flor de Ouro", do diretor internacionalmente aclamado Zhang Yimou, mas mesmo esses geraram retornos modestos.

Wang sugere que os sucessos de bilheteria locais também não conseguiram atender ao pedido do presidente Hu de que os filmes devem "dar orientação correta ao público e promover tendências sociais saudáveis".
CINEMA E GOVERNO
Mark Ralston/AFP
Pedestres em Xangai passam diante de cartazes de filmes
O TRABALHO DO CENSOR
CONGRESSO DO PC


"Esses filmes ... não têm absolutamente qualquer pensamento positivo", diz Wang. "A única coisa que 'A Maldição da Flor de Ouro' promoveu foi o incesto e violações morais. Isso não tem nada a ver com a moral tradicional chinesa."

A história de uma rebelião fracassada contra um imperador chinês, "A Maldição" mostra um caso amoroso entre uma imperatriz e seu enteado, um final sangrento e vestidos curtos demais para alguns.

Mas seu roteirista, Bian Zhihong, insiste que é uma história moral de oposição a um governante feudal. "É uma história trágica [porque a rebelião fracassou], mas podemos extrair força do fracasso", ele diz.

Também não está claro se a visão de Wang de um cinema que transmita uma ética definida pode ser um sucesso comercial -e ele admite que fará lobby por mais apoio do governo, possivelmente incluindo financiamento direto do Estado, para produções adequadamente "positivas".

Esse tipo de pressão vai contra os sentimentos de muitos chineses do setor de cinema, que prefeririam que o governo abrandasse sua rígida censura e oferecesse deduções fiscais favoráveis para os investidores.

Mas Wang diz que percebe o risco de ser puritano demais. "Quero [que meus filmes] tenham temas positivos, mas que não sejam necessariamente sermões", ele diz. "Eu brinco que, se formos fazer um filme violento, que pelo menos os mocinhos matem os bandidos no final." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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