Líder supremo está de olho em Ahmadinejad

Roula Khalaf e Najmeh Bozorgmehr

Durante seus oito anos no cargo, o ex-presidente reformista iraniano Mohamed Khatami lutou para firmar sua autoridade diante da pressão incansável da linha dura do regime. Ele deixou a presidência em 2005 frustrado, com muitos de seus defensores desiludidos.

Seu sucessor, Mahmoud Ahmadinejad, teve uma experiência dramaticamente diferente. Fortalecido pelos preços altos do petróleo e apoiado por um regime mais unido, ele tem tido maior controle da política interna -principal tarefa do presidente no sistema político iraniano. Nos últimos meses, ele forçou a saída de dois ministros e do presidente do banco central por se recusarem a implementar suas políticas econômicas.

No entanto, ele também lutou para expandir seu controle sobre a política externa e nuclear, efetivamente expulsando no final de semana Ali Larijani, secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança e um político conservador influente, com quem ele tinha repetidamente entrado em confronto.

Atta Kenare/AFP - 26.set.2007 
Imagem do aitolá Khamenei ao lado de mísseis antes de festejo em Teerã

Políticos e analistas iranianos, entretanto, advertem que, apesar de suas aparentes vitórias, a consolidação de poder por Ahmadinejad pode prejudicá-lo, pois está acumulando uma longa lista de inimigos.

De fato, a renúncia surpresa de Larijani, em uma época crucial na disputa nuclear do Irã, e sua substituição por um aliado do presidente provocaram tanta oposição de todo o espectro político que Larijani provavelmente reterá um importante papel no Conselho.

Com a aparente insistência do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã e principal autoridade, Larijani deve ao menos continuar a agir como representante em negociações nucleares com Javier Solana, diretor de política externa da União Européia.

Por enquanto, Ahmadinejad ainda tem apoio significativo entre os segmentos mais pobres da sociedade iraniana. No entanto, políticos conservadores e reformistas e muitos representantes no parlamento se desencantaram com suas políticas, enquanto o clero mostrou sinais de desconforto com o que alguns chamam de crenças religiosas supersticiosas do presidente. Se os eleitores também se desapontaram será descoberto em março, quando o Irã fará eleições parlamentares.

"A renúncia de Larijani significa que ele e uma rede poderosa de conservadores conectados a ele estarão na oposição nas próximas eleições", disse um analista político.

A briga com Larijani causou revolta política, com críticas até de Ali-Akbar Velayati, assessor de política externa do líder supremo, em uma possível indicação de que Khamenei só aprovou de má vontade a mudança do Conselho Supremo de Segurança Nacional.

Ahmadinejad era uma pessoa de fora dos circuitos políticos, cuja virtude foi dirigir-se diretamente aos iranianos, acima das cabeças dos políticos tradicionais. Ele tem o apoio da Guarda Revolucionária, força de elite cuja influência vem crescendo à custa do clero. Seu maior trunfo, entretanto, tem sido o apoio continuo de Khamenei, que há muito é considerado pragmático.

"Ahmadinejad vem se comportando como se não tivesse medo de nada, e o regime não está fazendo nada para levá-lo ao centro", diz um diplomata ocidental em Teerã. "É curioso, porque a hipótese básica -de que o líder é conservador por excelência- não está se sustentando, porque Ahmadinejad deveria ser visto como perigoso para o regime."

Políticos iranianos, incluindo figuras da oposição, entretanto, dizem que o líder tem razão de ver as políticas desafiadoras de Ahmadinejad como bem-sucedidas.

Foi Khamenei, afinal, quem decidiu, antes das eleições presidenciais de 2005, que as negociações do Irã com a União Européia sobre o destino de seu programa nuclear não estavam indo a lugar nenhum. Ele determinou o fim da suspensão voluntária de dois anos do enriquecimento de urânio, optando, em vez disso, por seguir adiante a todo vapor nos experimentos nucleares.

Apesar da suspensão das partes mais sensíveis do programa nuclear agora ser exigida pelo Conselho de Segurança da ONU, o regime de Teerã parece convencido que pode agüentar a pressão internacional. Teerã calcula que os preços de óleo podem mitigar o impacto de sanções econômicas e acha improvável que os americanos lancem ataques militares, dada a habilidade do Irã de retaliar contra alvos americanos no Oriente Médio.

"O supremo líder vê Ahmadinejad como um bom presidente. Os slogans de política externa foram levados a sério no mundo; a hostilidade entre Irã e os EUA aumentou, deixou o presidente mais popular, o que também torna o líder mais popular", diz um político reformista.

O líder elogiou o governo em agosto por seu compromisso com os valores revolucionários "em palavras e prática" e "por não ser passivo em relação às demandas excessivas da arrogância global".

Que os lemas revolucionários de Ahmadinejad encontraram eco pelo mundo islâmico, conquistando o apoio das massas sunitas ao Irã xiita também é importante para Khamenei.

"Uma das principais razões para o apoio do líder é a política externa de Ahmadinejad, que tornou o Irã mais popular nos países islâmicos", diz um ex-funcionário. "Sob o ex-presidente Khatami, sunitas radicais estavam dominando completamente os xiitas radicais. Mas Ahmadinejad reverteu isso."

O apoio continuado do líder, entretanto, não é garantido, e Khamenei eventualmente pode retirá-lo diante das brigas constantes do presidente e suas tentativas de colocar seus próprios homens em posições importantes.

Em Teerã, acredita-se que o processo de enfraquecimento de Ahmadinejad será pelas urnas. "Se as chances de Ahmadinejad de vencer as eleições (presidenciais de 2009) caírem, o líder não vai cair com ele", diz um político reformista. Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos