Brasil pode trazer o futebol para casa e para o caos

De Jonathan Wheatley

O auditório de 200 lugares da Fifa em Zurique estará lotado até nos corredores na terça-feira, quando a federação mundial do futebol deverá confirmar o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará lá com pelo menos quatro governadores, dois ou mais ministros e um avião lotado de outros políticos, se contar os dirigentes do futebol, outros convidados e o máximo possível de membros da imprensa que conseguirem entrar.

O tamanho da delegação reflete o sentimento de alegria sentido pela maior nação futebolística do mundo com o fato da Copa do Mundo finalmente estar voltando, 64 anos depois da competição de 1950 —quando cerca de 200 mil pessoas lotaram o estádio do Maracanã do Rio, com capacidade para 174 mil pessoas, para assistir o Brasil virar o primeiro tempo vencendo por 1 a 0 e depois levar a virada de 2 a 1 do Uruguai na final. A competição de 2014, espera-se, enterrará tal trauma de uma vez por todas.

Mas o tamanho da delegação também indica o que mais aguarda: muita farra.

Dezoito cidades por todo o enorme território do Brasil estão disputando para ser uma das oito ou 12 sedes de jogos. Nenhuma delas conta com um estádio à altura, de forma que uma série de projetos de construção são iminentes, com todas as possibilidades de corrupção que obras de tal tamanho costumam oferecer.

Uma amostra do que poderá ocorrer pôde ser vislumbrada nos Jogos Pan-Americanos realizados no Rio, em julho. Muitos previam um desastre de organização, mas os jogos transcorreram surpreendentemente bem, com as obras concluídas a tempo e sem grandes problemas.

Da mesma forma, e graças ao policiamento pesado e a presença de tropas nas ruas, a criminalidade foi contida.

De fato, o sucesso dos jogos —e especialmente o fato do Maracanã, atualmente um estádio com 95 mil assentos, estar com aspecto esplêndido— ampliou as chances do Rio sediar outro evento esportivo internacional, incluindo os Jogos Olímpicos de 2016.

Mas foi um sucesso relativo. O Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu que os contratos para construção e reforma estouraram o orçamento em até dez vezes. Em agosto, o TCU suspendeu todos os pagamentos às construtoras sob suspeita de fraude.

Policiamento pesado pode até conter o crime. Um amigo narrou o encontro com um grupo de senhoras idosas desfilando no calçadão da praia de Copacabana certa noite, usando jóias e peles. "Para onde as senhoras vão?" ele perguntou. "Para lugar nenhum", elas responderam. "Estamos apenas aproveitando a oportunidade para exibir as jóias."

Mas repetir tal façanha de confiança em até uma dúzia de cidades será bem mais difícil.

Um dos fracassos do Pan foi não ter entregue as melhorias duradouras prometidas pelos organizadores, como um novo transporte público e a limpeza da poluição na lagoa central do Rio. Muitos agora se perguntam que legado um empreendimento muito maior deixará ao país.

"Em teoria, o Brasil pode perfeitamente sediar a Copa", disse o jornalista esportivo Juca Kfouri. "O que não podemos fazer é repetir o que fizeram na Alemanha. Nós precisamos ter uma Copa do Mundo para o Brasil, dentro de nossa realidade."

"Se nós a usarmos como uma chance de melhorar a qualidade da infra-estrutura nas cidades sedes, então nós realmente deixaremos um legado para o país. Mas esperava-se isto do Pan e não aconteceu."

Kfouri teme que aqueles que dirigem o futebol brasileiro tentarão construir estádios grandiosos para a competição.

Ricardo Teixeira, o veterano presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), já disse que a competição não usará os dois maiores estádios do Brasil —o Maracanã no Rio e o Morumbi em São Paulo— a menos que sejam demolidos e reconstruídos.

Sirenes de alarme estão soando na imprensa diante da formação do comitê organizador, presidido por Teixeira.

Os comentaristas se queixam de que os estatutos do comitê o deixam explicitamente livre de supervisão e interferência do governo —apesar de que dinheiro público será gasto em grande parte das obras que serão realizadas.

Também foram manifestadas dúvidas sobre a capacidade da infra-estrutura rangente de transporte do Brasil ser capaz de lidar com o grande afluxo de turistas que cruzarão o país de um lado a outro. Uma crise de aviação
precipitada por dois grandes acidentes nos últimos 14 meses deixou
aeroportos propensos a superlotação e atrasos.

Todavia, a Copa do Mundo ainda está distante. Até 2014, o Brasil poderá ter solucionado alguns de seus problemas mais urgentes. E como Kfouri disse: "Se a África do Sul (a sede da Copa do Mundo de 2010) é capaz, o Brasil também é". George El Khouri Andolfato

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