Escândalo da Blackwater reanima debate sobre segurança privada

Jon Boone
Em Cabul, Afeganistão

Nem mesmo grandes celebridades conseguiram salvar a firma Olympus Security Group de ser fechada pela polícia no Afeganistão nesta semana.

A afiliada da empresa inglesa Olympus que trabalha com clientes do show business tornou-se a oitava empresa de segurança privada a ser fechada em três semanas, como parte de um esforço de fiscalização de uma indústria que até agora operava próxima da impunidade.

A Olympus, recém chegada à próspera indústria de segurança privada de Cabul, que fornece proteção aos grupos de assistência, embaixadas e empresas, viu-se vulnerável a um movimento de limpeza que teve como alvo empresas que não tinham a proteção de figuras políticas importantes ou de clientes influentes. Como se estabeleceu no Afeganistão há poucos meses, a Olympus não tinha nem um nem outro. A empresa não pôde ser contatada para comentários na noite de ontem.
SEGURANÇA: UM SETOR PRÓSPERO EM UM PAÍS POBRE
Acredita-se que as empresas de segurança tenham mais de 10.000 funcionários no Afeganistão
Apesar de o número ser pequeno, comparado com o total do Iraque, representa uma enorme presença no Afeganistão, superando as tropas empregadas por todos os países estrangeiros, exceto os EUA
Desde a queda do Taleban, em 2001, o setor cresceu e tornou-se uma das poucas formas de fazer fortuna no país, um dos mais pobres do mundo. Os contratos mais lucrativos envolvem a proteção de interesses ocidentais, incluindo embaixadas e diplomatas


A Olympus, entretanto, também se viu presa nos danos colaterais do recente escândalo da Blackwater no Iraque, em que guardas de segurança de uma firma americana foram acusados de matar 17 iraquianos. O escândalo fez com que autoridades afegãs reanimassem os esforços de reformar e regular a indústria de segurança em suas próprias regiões, com resultados que as pessoas na indústria vêem como inconsistentes.

O comportamento das empresas de segurança é uma fonte antiga de preocupação. Incidentes com nomes de alto escalão, particularmente estrangeiros, revoltaram o público. Em um caso em 2004, um funcionário da empresa americana DynCorp causou revolta por dar um tapa na cara do ministro de transporte enquanto protegia o presidente Hamid Karzai.

O atual estado anárquico da indústria de segurança privada também representa um enorme furo no processo de desarmamento. Em vez de entregarem suas armas, muitos líderes de milícias e antigos senhores de guerra simplesmente abriram firmas de segurança ou foram trabalhar para elas.

Um documento do governo, ao qual o Finanacial Times teve acesso, também adverte que algumas empresas são usadas como "esconderijos" de criminosos e traficantes de drogas.

O plano de regulamentar a indústria ganhou seriedade após uma revolta em Cabul em maio do ano passado. O estopim da inquietação foi um caminhão militar americano que se chocou contra uma multidão de pessoas. No caos que se seguiu, 20 pessoas foram mortas, e o incidente foi atribuído às empresas de segurança.

Especialistas da indústria dizem que aquela primeira tentativa de reforma, que incluiu esforços para coletar informações básicas sobre as empresas, desmoronou após criminosos conhecidos e "generais infames" simplesmente comprarem a entrada para a lista de empresas aprovadas.

Como resultado, o Afeganistão continua muito atrás em relação à regulamentação que existe no Iraque, onde a maior parte das empresas é de propriedade de estrangeiros.

Acredita-se que cerca de 10.000 homens armados operam só em Cabul, mas o governo sabe pouco sobre eles, apesar de crer que haja 59 empresas no total.

De acordo com o documento do governo, a tentativa de coletar informações básicas sobre as empresas fracassou porque, "na maior parte dos casos (a comissão de inquérito), não pôde nem encontrar seus endereços".

Apesar de suas boas intenções, o processo de criar uma nova regulamentação foi uma bagunça. A primeira proposta de diretrizes, na maior parte escrita pela Força de Assistência e Segurança Internacional da Otan (Isaf), foi tão embaralhada pelo governo afegão que se tornou contraditória.

"Há muitos interesses em torná-la tão complicada e confusa quanto possível, para que a única forma de operar seja dando propinas", diz uma fonte de empresa de segurança.

Enquanto isso, empresas de segurança estão enfrentando uma ansiosa espera para ver se Ali Shah Paktiawal, diretor de investigações criminosas da polícia de Cabul, vai varrer seus escritórios e fechá-las por não terem as licenças apropriadas.

Infelizmente para elas, há sérias dúvidas se as licenças emitidas têm valor legal.

No início deste ano, tornou-se impossível tirar licenças pela Agência de Apoio ao Investimento no Afeganistão ou pelo Ministério do Interior. Como os novos regulamentos para controlar a indústria ainda não foram finalizados, os papéis que as empresas de segurança têm não valem nada, diz Paktiawal. "O tempo acabou; as licenças expiraram", disse ao Financial Times.

Isso será uma surpresa para muitos em Cabul. Até recentemente, diz um gerente de uma empresa de segurança de Cabul, havia um departamento no Ministério do Interior que ficava muito feliz em emitir licenças por US$ 10.000 (cerca de R$ 20.000) cada. Mas não importa quanto foi pago, "nunca houve licença do Ministério do Interior". Deborah Weinberg

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