Estado de emergência: o desvio de Musharraf leva o Paquistão ao desconhecido

De Jo Johnson e Farhan Bokhari
Em Islamabad

O arame farpado estendido pela avenida Constituição de Islamabad a torna tão inacessível quanto é o desalento das autoridades ocidentais no Paquistão. Nos últimos oito meses, diplomatas têm assistido com desânimo a posição do presidente Pervez Musharraf, um aliado chave na guerra contra o terror, se enfraquecer perigosamente.

Os diplomatas se queixam de que o chefe do exército se tornou tão envolvido na política doméstica que ficou difícil fazê-lo se concentrar nas prioridades americanas: proteger a porosa fronteira com o Afeganistão e purgar as áreas tribais pouco governadas do Paquistão dos militantes simpáticos à Al Qaeda e ao Taleban.

MILITARES x DEMOCRACIA
1979Tropas soviéticas invadem o Afeganistão, levando os EUA a usarem o Paquistão como um Estado de linha de frente
1988O general Zia ul Haq, ditador militar, morre em acidente aéreo; o Paquistão volta a ter
um governo civil depois de mais de 11 anos
1990Benazir Bhutto, a primeira mulher a chefiar um governo islâmico, é removida após 20 meses no poder.
Os EUA aplicam sanções devido à suspeita de que o Paquistão está produzindo armas nucleares
1998O Paquistão realiza testes nucleares em resposta aos testes realizados pela Índia
1999O general Pervez Musharraf toma o
poder em um golpe
sem derramamento
de sangue
2001Os ataques terroristas de 11 de setembro levam George W. Bush a dar ao general Musharraf a escolha de apoiar a guerra de Washington contra o terror ou manter o relacionamento do Paquistão com o regime do Taleban no Afeganistão
2003Pervez Musharraf envia tropas paquistanesas para ocupar as áreas tribais na fronteira com o Afeganistão
2007O Paquistão vive seu pior ano em segurança interna. Mais de 500 pessoas foram mortas
A solução radical do general Musharraf —a suspensão de toda a atividade política doméstica por meio da declaração de um estado de emergência— está longe de ser a solução que Washington tinha em mente. Apesar do Pentágono ter deixado claro no domingo que as relações estreitas entre as forças armadas paquistanesas e americanas continuarão, o Departamento de Estado americano está claramente desapontado.

A imposição do que na prática representa uma lei marcial acabou com a habilidade de Condoleezza Rice, a secretária de Estado americana, de continuar alegando progresso na direção de uma "transição estável para a democracia" no Paquistão.

Com o provável adiamento das eleições previstas para janeiro, o caminho do Paquistão de volta à democracia agora inclui um desvio inesperado rumo ao desconhecido.

O arranjo de divisão de poder apoiado pelos Estados Unidos entre o chefe do exército e Benazir Bhutto, a ex-primeira-ministra e líder do maior partido político paquistanês, parece difícil de ser ressuscitado. Se a líder do Partido Popular do Paquistão (PPP) decidir que não pode mais arcar com o custo de salvá-lo, a melhor esperança de Washington de ampliar a base de apoio ao presidente desaparecerá.

Bhutto, cuja popularidade já sofre com a percepção de que é "servil aos americanos", previu no domingo que as eleições marcadas para janeiro agora serão realizadas daqui um ano ou dois e pediu à comunidade internacional que pressione o general Musharraf a reverter a suspensão dos direitos constitucionais.

"Isto é na prática uma lei marcial", disse Yusuf Raza Gillani, um líder do PPP e ex-presidente da assembléia nacional. "O PPP nunca poderia apoiar uma medida destas. Todo o progresso na direção da democracia voltou à estaca zero."

Do ponto de vista do general Musharraf, a medida visava neutralizar a ameaça ao seu papel duplo como presidente e chefe do exército representado por uma Suprema Corte agora com mentalidade independente. A corte decidiria sobre sua elegibilidade como candidato nas eleições presidenciais do mês passado, que foram boicotadas pelos partidos de oposição.

Ao interromper suas deliberações, o ex-comandante de 64 anos parece ter calculado que a decisão dificilmente seria a seu favor. A maioria dos analistas previa que a corte emitiria um veredicto favorável, diante da promessa do general Musharraf de renunciar como chefe do exército em 15 de novembro se fosse confirmado presidente.

Poucas horas após declarar o estado de emergência, o general Musharraf informou Iftikhar Mohammad Chaudhary, o ministro chefe da Suprema Corte, cuja suspensão desajeitada em março deste ano provou ser o estopim para um movimento pró-democracia mais amplo, que seus serviços "não eram mais necessários".

A prisão domiciliar de fato de Chaudhary foi apenas parte de uma onda maior de detenções de advogados, ativistas de direitos civis e jornalistas. Aitzaz Ahsan, o advogado do presidente da Suprema Corte, e dois ex-presidentes, Muneer Malik e Tariq Mahmood, foram presos por um mês segundo a lei de detenções preventivas.

Ativistas de direitos humanos disseram que Ahsan Bhoon, o presidente do tribunal de Lahore, e Ali Ahmed Kurd, um ex-líder da ordem dos advogados, também foram presos e que a polícia tentou prender outros advogados proeminentes, incluindo os presidentes das ordens dos advogados de Peshawar e Karachi.

Cerca de 200 policiais armados invadiram o escritório da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão em Lahore no domingo e prenderam cerca de 50 ativistas, segundo Mehbood Ahmed Khan, um de seus ex-diretores legais. "Eles nos arrastaram para fora, incluindo as mulheres", ele disse. "É desumano, não democrático e uma violação dos direitos humanos."

Asma Jehangair, presidente da Comissão de Direitos Humanos e ex-relatora especial do Alto Comissariado de Refugiados da ONU, disse que foi colocada sob prisão domiciliar por 90 dias.

Em uma mensagem em massa enviada por e-mail para seus "Queridos amigos", ela disse que o general Musharraf "perdeu o juízo" ao reprimir as "pessoas de mentalidade secular, progressista" em nome da guerra contra o terror.

"Os advogados e a sociedade civil contestarão o governo e a situação provavelmente ficará feia", escreveu Jehangair.

"Nós queremos que os amigos do Paquistão peçam ao governo americano que suspenda todo o apoio ao ditador instável. Musharraf precisa ser retirado da equação e um governo de reconciliação nacional precisa ser formado."

Com os advogados e ativistas de direitos civis ameaçando uma nova onda de protestos, o Paquistão parece caminhar para mais turbulência. George El Khouri Andolfato

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