Musharraf disposto a manter o exército ao seu lado

Jo Johnson

Ávido para acabar com os rumores de que generais rebeldes o teriam colocado sob prisão domiciliar, Pervez Musharraf, o presidente do Paquistão e chefe do exército, alegou na segunda-feira estar mais preocupado com um jogo de tênis próximo.

"É uma brincadeira", ele disse para a agência de notícias "Reuters" no palácio presidencial em Islamabad, onde tinha acabado de se encontrar com mais de 80 diplomatas estrangeiros para explicar sua decisão de proclamar um estado de emergência no fim de semana. A necessidade de uma negação é reveladora.

Musharraf justificou a emergência citando a crescente ameaça do Islã radical e a necessidade de melhorar a eficácia das agências de manutenção da lei do Paquistão, atrapalhadas pela influência do Judiciário.
CRISE NO PAQUISTÃO
Arif Ali/AFP
Advogados são cercados por policiais em Lahore
FOTOS DAS MANIFESTAÇÕES
RUMO AO DESCONHECIDO


Mas a maioria acredita que sua principal motivação foi o desejo de lidar de uma vez por todas com os ministros da turbulenta e independente Suprema Corte, que ameaçaram colocar um fim aos seus oito anos no governo. Prestes a anular sua recente reeleição para a presidência, os ministros foram afastados no fim de semana.

O comandante de 64 anos realizou uma extensa consulta às altas patentes militares antes de suspender a Constituição, revisando pessoalmente a decisão com o general Ashfaq Kiyani, o ex-chefe da poderosa agência interserviços de inteligência. Nomeado no mês passado como novo vice-chefe do estado-maior do exército, o general Kiyani é o provável sucessor de Musharraf como chefe do exército caso o presidente cumpra sua promessa de abandonar o uniforme até 15 de novembro. O general Kiyani supostamente tem mais a perder com a longa espera pela aposentadoria de seu chefe.

Mas diplomatas disseram que não há motivo para achar que o general Kiyani e outras figuras poderosas do establishment militar -incluindo o presidente do comitê do estado-maior das forças armadas, os chefes das forças armadas e o corpo de comandantes do exército paquistanês- se levantarão contra Musharraf.

"Ele assegurou que a hierarquia militar fosse consultada individualmente e coletivamente", disse uma pessoa que observou de perto os eventos. "A hierarquia militar parece leal."

Tal lealdade seria duramente testada caso os Estados Unidos e o Reino Unido vinculassem o fluxo de ajuda às forças armadas à restauração da democracia. Ambos os países disseram ao governo que estão revisando seus programas de ajuda e Washington adiou na segunda-feira as negociações de cooperação em defesa com Islamabad, que estavam marcadas para esta semana.

Mas tais ameaças têm pouca credibilidade, dado que ambos os países necessitam da cooperação do Paquistão não apenas no Afeganistão, mas também na prevenção de ataques terroristas em casa.

Uma preocupação mais urgente para Musharraf é impedir que a crise de moral nas fileiras mais baixas do exército infecte toda a organização. Há um sentimento no exército de que está perdendo a batalha contra os militantes pró-Taleban nas áreas tribais, a ponto dos soldados não estarem certos de que desejam lutar. Na semana passada a violência atingiu o norte do Paquistão, quando uma milícia islâmica liderada por Maulana Fazlullah, um clérigo radical, tentou tomar o vale de Swat.

No sábado, enquanto Musharraf se preparava para emitir a ordem de emergência, os militantes de Fazlullah hastearam sua bandeira sobre um posto policial capturado e libertaram 48 soldados do governo que se renderam sem dar um disparo no primeiro conflito do exército com os islamitas fora da área tribal.

A humilhação ressaltou tanto a crescente confiança dos grupos militantes quanto o profundo desencanto dos 92 mil soldados paquistaneses financiados pelos Estados Unidos, distribuídos ao longo da fronteira afegã.

No dia seguinte, em outro duro golpe contra o prestígio dos militares, o governo libertou 25 militantes em troca da libertação de 213 militares que eram mantidos como reféns no Waziristão há mais de dois meses.

Alguns dos militantes libertados foram condenados por um tribunal antiterrorismo. A troca colocou fim a um dos episódios mais embaraçosos na história do exército paquistanês, mas a um custo excepcionalmente alto para sua auto-imagem.

"Minha sensação é de que o exército está cheio, como pode ser visto pelo número de soldados que estão se rendendo aos rebeldes nas áreas tribais e dizendo que não querem enfrentar seus irmãos", disse o brigadeiro Shaukat Qadir da reserva.

"Oficiais de baixa patente já estão cheios e alguns oficiais superiores também estão apreensivos sobre quão longe terão que ir em apoio aos interesses do presidente Musharraf e em apoio à guerra dos Estados Unidos contra o terror. Algum dia alguém se levantará e dirá 'não'."

A deterioração do moral do exército paquistanês preocupa gravemente os Estados Unidos, que repassou mais de US$ 10 bilhões para Islamabad desde o 11 de Setembro, grande parte gasto nas forças armadas.

Funcionários americanos dizem que há relutância entre os altos oficiais em buscar inteligência com a qual se possa agir quando há alto risco de fracasso. "A imagem das forças armadas de profissionais, capazes de enfrentar a Índia, é muito importante para eles e isto afeta a disposição deles de assumir riscos nas áreas tribais", disse um.

Mas o maior teste da lealdade do exército para com Musharraf poderá vir em breve, caso seja forçado a conter os manifestantes nas ruas de Lahore.

Apesar da classe de oficiais dominada por punjabis não ter reservas em ordenar uma repressão nas áreas tribais ou na província da Fronteira Noroeste pashtun, será uma história diferente caso uma oposição popular ao estado de emergência force o exército a atirar contra sua própria carne e sangue no Punjab.

Se isto acontecer, Musharraf poderá se ver rapidamente sem parceiros de tênis. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos