Europa foi pega de surpresa pela migração, diz Prodi

Guy Dinmore
Em Roma

A Europa subestimou totalmente a escala do êxodo da Romênia depois da adesão do país à União Européia neste ano, de acordo com o primeiro-ministro da Itália, Romano Prodi.

"Ninguém esperava isso. Ninguém esperava tamanha saída da Romênia (para o resto da Europa)", disse em entrevista ao "Financial Times".

O governo italiano está combatendo a ira pública em torno da imigração descontrolada, gerada pelo assassinato na semana passada de uma mulher de 47 anos na frente de uma estação em Roma. Um romeno foi preso e acusado de agressão sexual, roubo e homicídio.

Em resposta à revolta pública, o governo emitiu um decreto permitindo que as autoridades expulsassem da Itália membros da UE considerados uma ameaça à segurança pública.

Perguntado quantos haviam migrado para a Itália neste ano, desde a entrada da Romênia na UE no dia 1º de janeiro, Prodi respondeu: "Ninguém sabe." Entretanto, disse que o número de 500.000 dado por Giuliano Amato, ministro do interior, era um "exagero".

Prodi defendeu o princípio de livre trânsito de cidadãos da UE e argumentou que a Itália precisava desesperadamente de mão-de-obra importada. No entanto, admitiu que a diretriz européia que governa o movimento livre de cidadãos da UE, formulada quando ele era presidente da Comissão Européia, era inadequada.

"O que estou pedindo da União Européia são regras comuns para tornar a repatriação mais eficaz e maior cooperação em todos os efeitos colaterais desses movimentos (de pessoas)", disse ele.

Como sólido defensor da expansão da UE quando presidente da Comissão, entre 1999 e 2004, Prodi insistiu que a expansão do bloco tinha sido mais positiva do que se esperava. "Eu costumava repetir que (a expansão) era a única forma de exportar a democracia", argumentou.

Apesar de a Itália apenas ter expulsado poucos cidadãos da UE -quase todos romenos- o decreto gerou uma resposta irada e acusações de xenofobia do governo em Bucareste.

Calin Popescu Tariceanu, primeiro-ministro romeno, deve visitar Roma hoje para lidar com a crise.
IMIGRAÇÃO NA ITÁLIA
Imigrantes na Itália 3,69 milhões
Romenos na Itália 556.000
Imigrantes chegando à Itália neste ano 700.000
Licenças de trabalho para imigrantes em 2007 278.000
Licenças de trabalho pedidas por patrões italianos mais de 300.000
FonteCaritas e governo italiano


Autoridades italianas sugeriram que a Romênia está "despejando" membros indesejados de sua minoria roma na Itália e precisa exercer maior controle.

Walter Veltroni, prefeito de Roma e sucessor de Prodi como líder da centro-esquerda, procurou demonstrar suas credenciais de linha dura determinando que a polícia retirasse os imigrantes que moravam em cabanas e caixas ao longo do rio Tigre. Centenas foram levados embora e muitos voltaram de ônibus para Romênia nos últimos dias.

Ansiosos em se aproveitar da controvérsia e da maioria de apenas um voto do governo no Senado, membros da oposição de direita estão exigindo deportações em massa -o que seria contra as regras da UE- e ameaçam votar contra a extensão do decreto no parlamento.

Prodi apontou para os laços econômicos que estão se desenvolvendo entre a Itália e a Romênia, observando que mais de 22.000 empresas italianas estão operando na Romênia, empregando mais de 600.000 romenos.

A mídia absteve-se de salientar que o governo tinha estabelecido quotas para trabalhadores imigrantes, de 278.000, na maior parte na indústria, construção e atendimento a idosos, disse ele. Ele acrescentou que os empregadores pediam mais trabalhadores estrangeiros e queriam que mais de 300.000 licenças fossem emitidas.

"Estou convencido que esse fenômeno de imigração não é temporário. A demografia é tão clara", disse Prodi.

Um relatório neste ano dos grupos de caridade católicos Caritas e Migrantes estimou que a Itália tinha quase 3,7 milhões de estrangeiros, ou 6,2% da população total. Os romenos compuseram o maior grupo, com cerca de 556.000. Deborah Weinberg

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