No Paquistão, um juiz turbulento procura justiça nas ruas

Farhan Bokhari
Em Islamabad

Quando as redes de celulares caíram na terça-feira, nos arredores da Avenida da Constituição da elite em Islamabad, não demorou muito para descobrir o culpado: Iftikhar Muhammad Chaudhary, o ex-ministro chefe da suprema corte, estava tentando fazer uma ligação.

Chaudhary tinha começado a exortar um grupo de advogados a protestarem contra a declaração de estado de emergência pelo presidente Pervez Musharraf no sábado. "Vão para cada canto do Paquistão e transmitam a mensagem de que este é o momento do sacrifício. Não tenham medo. Deus nos ajudará", ele bradou dos limites de sua residência oficial, onde estava sob prisão domiciliar desde sábado. "Chegou a hora do sacrifício, de defender a supremacia da Constituição." Mas no meio da ligação, seu telefone -assim como todos os outros de seu bairro- ficaram misteriosamente mudos.

Oito meses após sua suspensão da suprema corte pelo general Musharraf ter provocado ultraje internacional e protestos domésticos, forçando seu retorno em julho, Chaudhary continua uma figura popular e um espinho na vida dos militares do Paquistão. Seu segundo afastamento no sábado parece ter sido provocado pelo temor do general Musharraf de que a suprema corte invalidaria sua reeleição como presidente no mês passado.

Em um sinal de que Chaudhary ainda conta com grande apoio do Judiciário do país, quase dois terços dos juízes veteranos do Paquistão ainda precisam prestar novo juramento segundo uma nova ordem constitucional provisória, uma lei pós-estado de emergência que obriga os signatários a aceitarem a lei de emergência. Tais juramentos são exigidos dos juízes toda vez que há lei marcial ou estado de emergência no Paquistão e representam uma aceitação de fato do novo status quo.

Ativistas dizem que mais da metade dos 3 mil manifestantes presos nesta semana eram advogados, que são os maiores simpatizantes de Chaudhary.

Observadores da política paquistanesa apontam que ele está bem posicionado para entrar na política caso deseje. "Ele é o primeiro juiz a se tornar símbolo de resistência e também contra um governante militar. Isto é o que o torna diferente e isto é o que o torna um dos líderes mais fortes da sociedade civil do Paquistão", disse Husain Haqqani, um ex-diplomata paquistanês e atualmente professor de relações internacionais da Universidade de Boston.

Antes de sua demonstração de desafio em março, Chaudhary conquistou elogios por se opor ao governo por meio de veredictos importantes, como a reversão no ano passado da privatização da Pakistan Steel Mills.

Mais importante, Chaudhary provocou a ira dos militares quando começou a convocar altos funcionários da inteligência e policiais no ano passado para responderem pelo desaparecimento de centenas de paquistaneses, a maioria detida para investigação em casos envolvendo terrorismo. "No Paquistão, onde ninguém ousa falar contra os militares, Iftikhar Chaudhary tem coragem de se erguer contra um general", disse Shafiq Alamgir, um taxista, refletindo o sentimento nas ruas. "Iftikhar Chaudhary deveria liderar o Paquistão."

Os amigos de Chaudhary alertam que ele não conta nem com o apoio de um partido político e nem tem desejo de concorrer ao cargo. "Por que as pessoas presumem que Iftikhar Chaudhary deseja ser um líder? Tudo o que ele deseja fazer é ser um juiz com grande reputação", disse um.

Mas o fato dele não ser um político tem apelo óbvio. "Há muitas pessoas no Paquistão que estão descontentes com todos os políticos. Para elas, Iftikhar Chaudhary é uma figura alternativa", disse Haqqani. George El Khouri Andolfato

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