Mundo globalizado dissemina o "embromation" da língua inglesa

Michael Skapinker

Chung Don-young, ex-âncora de televisão e candidato à presidência da Coréia do Sul, talvez esteja atrás nas pesquisas de opinião, mas uma de suas promessas de campanha chama a atenção. Se eleito, promoverá um amplo aumento no ensino do inglês, para que os jovens coreanos não tenham que ir ao exterior aprender a língua. O país precisa "resolver o problema das famílias separadas para o aprendizado do inglês", teria dito ao "Korea Times".

Na China, Yu Minhong fez da New Oriental, a empresa que ele fundou, a maior fornecedora de educação privada do país, com mais de 1 milhão de alunos no último ano financeiro, na maioria, estudantes de inglês. No Chile, o governo disse que quer que sua população seja bilíngüe em inglês e espanhol no prazo de uma geração.

Ninguém tem certeza de quantas pessoas estão estudando inglês. Há dez anos, o Conselho Britânico calculava em 1 bilhão. Um relatório publicado pelo conselho no ano passado, chamado "English Next", previu que o número de estudantes de inglês provavelmente atingirá um pico de cerca de 2 bilhões em 10 ou 15 anos.

Quantas pessoas já falam inglês? David Crystal, um dos maiores especialistas do mundo na língua e autor de mais de 100 livros sobre o assunto, estima que 1,5 bilhão de pessoas -cerca de um quarto da população mundial- pode se comunicar razoavelmente bem em inglês.

O latim já foi uma língua compartilhada em uma ampla área, mas isso foi só na Europa e na África do Norte. Nunca na história uma língua foi tão amplamente falada quanto o inglês hoje. A razão para milhões aprenderem o idioma é simples: é a língua dos negócios internacionais e, portanto, a chave para a prosperidade. Não é só porque a Microsoft, a Google e a Vodaforne conduzem seus negócios em inglês; é a língua que os chineses usam para falar com os brasileiros, e os alemães com os indonésios.

David Graddol, autor do "English Next", diz que é tentador ver a história do inglês como triunfo dos EUA, Reino Unido e Australásia, mas isso seria um engano. O inglês global entrou em uma fase mais complexa, mudando de tal forma que os países nos quais a língua era nativa não têm como controlar e talvez não gostem.

Os comentadores sobre o inglês global têm três perguntas principais. Primeiro: é provável que o inglês seja desafiado por outras línguas de rápido crescimento, como o mandarim, espanhol ou árabe? Segundo, com a disseminação e a influência de línguas locais, o inglês poderia se fragmentar, como fez o latim para o italiano e francês -ou sobreviveria e geraria novas línguas, como o alemão fez com o holandês e o sueco? Terceiro, se o inglês retiver um caráter padrão que permita continuar sendo compreendido em toda parte, o padrão será o do mundo que fala o inglês antigo ou algo novo e diferente?

Graddol diz que a idéia do inglês sendo suplantado como língua global não é absurda. Há cerca de 50 anos, o inglês tinha mais falantes nativos do que qualquer língua, exceto o mandarim. Hoje, tanto o espanhol quanto o hindi-urdu têm mais falantes nativos que o inglês. Até a metade deste século, o inglês pode ficar em quinto lugar, atrás do árabe, em termos do número de pessoas que o tem como língua materna.

Alguns acreditam que o inglês sobreviverá porque tem uma vantagem natural: é fácil de aprender. Além de um "s" incômodo no final da terceira pessoa do singular do presente ("she runs"), os verbos não são modificados, não importa quem está falando ("I run, you run, they run; we ran, he ran, they ran"). Artigos definidos e indefinidos não são afetados pelo gênero ("the actor, the actress; a bull, a cow"). Não há necessidade de lembrar-se se a mesa é um substantivo masculino ou feminino.

Há, entretanto, muita coisa difícil no inglês. Tente explicar os verbos frasais -a diferença, por exemplo, entre "I stood up to him" (eu o enfrentei) e "I stood him up" (dei bolo nele). Crystal rejeita a idéia que o inglês se tornou uma língua global porque é fácil. Em ensaio publicado no ano passado, ele disse que a complexidade gramatical latina não dificultou sua disseminação. "Uma língua se torna um idioma global por razões extrínsecas apenas, e essas se relacionam com o poder das pessoas que a falam", escreveu. O império britânico levou o inglês para todos esses países, de forma que o sol nunca se põe; a força econômica e cultural americana garantiu a dominância do inglês, depois que o império britânico se enfraqueceu.

Então, o crescimento da China poderia levar seu mandarim a ser uma língua mundial? Pode acontecer. "Há mil anos, quem teria previsto a morte do latim?", pergunta Crystal. Neste momento, porém, há poucos sinais disso, diz ele. Os chineses estão correndo para aprender inglês.

Graddol concorda que é improvável vermos o inglês desafiado em nossas vidas. Quando uma língua franca é estabelecida, leva um longo tempo para mudar. O latim talvez esteja desaparecendo, mas continuou sendo a língua da ciência por gerações e foi usado pela igreja católica romana até o século 20.

Quanto à fragmentação do inglês, Graddol argumenta que já aconteceu. "Há muitos ingleses que você e eu não compreenderíamos", diz ele. "World Englishes", um livro recente de Andy Kirkpatrick, professor do Instituto de Educação de Hong Kong, dá alguns exemplos. Um diário de um adolescente indiano contém esse texto: "Rival groups are out to have fun . . .you know generally indulge in dhamal (um tipo de dança) and pass time. So, what do they do? Pick on a bechaara bakra who has entered college." (Grupos rivais saíram para se divertir... em geral dançam dhamal e passam o tempo. Então o que fazem? Implicam com um pobre bode que entrou para a faculdade". O professor Kirkpatrick também dá essa amostra do inglês nigeriano misturado: "Monkey de work, baboon dey chop" (macacos trabalham, gorilas comem).

É improvável, entretanto, que essa fragmentação leve ao desaparecimento do inglês como idioma compreendido em torno do mundo. É comum para os falantes do inglês mudarem de variante para usar uma língua mais apropriada para o trabalho, escola ou comunicação internacional. Crystal diz que a comunicação moderna pela televisão, cinema e Internet significa que o mundo provavelmente se aterá a um inglês amplamente compreendido.

A questão é: qual inglês será? Os falantes não nativos hoje superam os nativos em uma proporção de três para um. Na medida em que centenas de milhões de outros aprenderem a língua, esse desequilíbrio crescerá. Graddol diz que a maioria das reuniões em inglês hoje ocorre entre falantes não nativos. De fato, ele acrescenta, muitas reuniões de negócios em inglês parecem correr mais tranquilamente quando não há falantes nativos presentes.

Os que têm o inglês como língua materna muitas vezes não conseguem ser entendidos em discussões internacionais. Eles tendem a pensar que precisam evitar palavras mais longas, quando os problemas de compreensão são mais freqüentemente causados pelo uso de termos coloquiais e metáforas.

Bárbara Seidlhofer, professora de inglês e lingüística aplicada da Universidade de Viena, diz que é comum um alívio na ausência de nativos em inglês. "Quando falamos com as pessoas sobre a comunicação internacional, essa observação é feita muito freqüentemente mesmo. Não conduzimos um estudo sistemático disso ainda, então o que digo, por enquanto, é anedótico, mas parece haver uma concordância ampla sobre isso", diz ela. Ela cita um banqueiro austríaco que teria dito: "Sempre acho mais fácil fazer negócios (em inglês) com parceiros da Grécia, Rússia ou Dinamarca. Mas quando os irlandeses ligam, fica complicado e cansativo."

Em outra ocasião, em uma conferência internacional estudantil em Amsterdã, conduzida em inglês, pediram à única representante britânica para ser "menos inglesa", para que os outros pudessem entendê-la.

A professora Seidlhofer também é diretora da Vienna-Oxford International Corpus of English, que está gravando e transcrevendo as interações faladas em inglês entre falantes da língua em torno do mundo. Ela diz que sua equipe observou que os não nativos estão variando a gramática inglesa padrão em uma série de formas. Até mesmo os mais competentes algumas vezes esquecem do "s" na terceira pessoa do singular. Também é comum os não nativos usarem "which" (os quais) para humanos e "who" (quem) para não humanos ("things who" e "people which").

A professora Seidlhofer acrescenta que muitos não nativos deixam os artigos definidos e indefinidos de lado quando são exigidos no inglês padrão, ou os colocam onde o inglês padrão não os usa. Os exemplos são: "They have a respect for all" (eles tem um respeito para todos) ou "he is very good person" (ele é pessoa muito boa). Substantivos que não têm plural são usados como plurais por não nativos ("informations", "knowledges", "advices" - informações, conhecimentos, conselhos). Outras variações incluem: "make a discussion" (fazer uma discussão), "discuss about something" (discutir sobre alguma coisa) ou "phone to somebody" (telefonar para alguém).

Muitos falantes nativos têm uma resposta pronta: essas não são variações, são erros. "Knowledges" e "phone to somebody" simplesmente estão errados. Muitos não nativos que ensinam inglês em torno do mundo concordam. Mas a língua muda, e também as noções de correção gramatical. Crystal salienta que os plurais como "informations" eram vistos como correto e usados por Samuel Johnson.

Os que insistem na gramática padrão continuam em posição de poder. Cientistas e acadêmicos que querem seu trabalho publicado em revistas internacionais têm que aderir às regras gramaticais seguidas pelas elites anglo-falantes.

Mas o inglês falado é outra questão. Por que não nativos vão se preocupar com o que os nativos acham correto? Seu alvo principal, afinal, é ser compreendido pelo outro. Como diz Graddol, na maior parte dos casos não tem um falante nativo presente.

A professora Seidlhofer diz que o inglês falado por não nativos "é uma língua natural, e línguas naturais são difíceis de se controlar por 'lei'".

"Acho que, em vez de um novo padrão internacional, o que estamos vendo é o surgimento de uma nova 'postura internacional': um reconhecimento e uma consciência que, em muitos contextos internacionais, os interlocutores não precisam falar como os nativos, ou se comparar com eles e assim sempre ficarem 'piores' -uma nova assertividade internacional, por assim dizer."

Quando os que falam inglês como primeira língua trabalham em uma organização internacional, alguns vêem sua língua mudar. Crystal escreveu: "Em diversas ocasiões, encontrei políticos, diplomatas e servidores trabalhando em Bruxelas que comentaram como seu próprio inglês estava sendo puxado na direção desses padrões de língua internacionais... essas pessoas não estão 'simplificando' seu inglês para seus colegas ou adotando expressões mais simples conscientemente, pois o inglês de seus interlocutores pode ser tão fluente quanto o delas. É um processo natural de acomodação, que, no curso devido, pode levar a novas formas padronizadas."

Talvez o inglês escrito eventualmente também faça essas acomodações. Hoje, ter um artigo publicado nas revistas "Harvard Business Review" ou "British Medical Journal" representa uma realização profissional substancial para um acadêmico da China ou pesquisador médico da Tailândia. Mas é possível imaginar um tempo quando uma revista pan-asiática, por exemplo, se torne igualmente ou até mais prestigiada e imponha seus próprios padrões gramaticais de "globês" -com os editores mudando "the patient feels" para "the patient feel".

Os que falam inglês como língua materna talvez resistam, mas são uma minoria cada vez menor.

Para que aqueles que têm o inglês como língua materna não se tornem marginalizados no ambiente corporativo internacional, eles precisarão aprender como falar inglês global -em outras palavras, a comunicarem-se com falantes não nativos.

O ressentimento da complexidade do inglês dos que o falam como primeira língua é amplo em negócios internacionais. Durante um estudo desenvolvido pela Kone Elevators da Finlândia, publicado na Business Communication Quarterly em 2002, um gerente finlandês reclamou: "Os britânicos são os piores... é muito mais difícil entender o inglês deles do que de outras nacionalidades. Quando nós não nativos falamos inglês, é muito mais fácil de entender. Temos o mesmo vocabulário limitado."

Como podem os falantes nativos de inglês se fazerem mais compreensíveis e agradáveis? A forma mais evidente é aprender outra língua. Não necessariamente para falar com os colegas que não falam inglês, apesar de também ajudar. O problema é que, na maior parte das reuniões de negócios hoje em dia, as pessoas falam diversas línguas, de forma que falar francês ou finlandês seria mais rude do que falar um inglês incompreensível.

O grande benefício de aprender outras línguas é ter alguma idéia do que os falantes não nativos enfrentam. Entretanto, as notícias desta semana que menos da metade das crianças inglesas estão aprendendo línguas estrangeiras sugere que não será uma rota lucrativa para muitos.

Então, o que devem fazer os falantes nativos para se fazer entender? Primeiro, falar mais devagar, mas não ao ponto dos membros da platéia se sentirem diminuídos. Segundo, evitar expressões idiomáticas ou metafóricas como "é assim que o biscoito se esfarela", "pessoas em casas de vidro" e assim por diante.

Piadas são uma área difícil. Você nunca se esquecerá do silêncio que se segue a uma piada confusa. Por outro lado, quando ela funciona, pode ser um enorme sucesso com um público não nativo. Se você aprendeu outras línguas, sabe que poucas conquistas são tão satisfatórias quanto compreender sua primeira piada em língua estrangeira. Tente algumas com seu público não nativo; logo saberá quais valem a pena ser repetidas.

Freqüentemente, é desnecessário evitar palavras longas como "association" (associação) e "nationality" (nacionalidade), que são comuns às línguas romanas e serão amplamente compreendidas na Europa e na América Latina.

Preste atenção em seus interlocutores por sinais que indiquem se foi compreendido ou não. Garanta que seus colegas tenham uma oportunidade de falar; muitas vezes parafrasearão as suas palavras em uma tentativa de ter certeza que entenderam o que você disse.

Sempre se lembre que o maior amigo do não nativo é a repetição. Encontre mais de uma forma de transmitir sua idéia e resuma freqüentemente. Falantes não nativos distorcem a língua mais proeminente do mundo Deborah Weinberg

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