Empreendedores brasileiros ganham somas consideráveis nos EUA

Richard Lapper
Em Boston

O tranqüilo subúrbio de Allston, a oeste de Boston, dificilmente poderia ser mais diferente do Rio de Janeiro, a cidade natal de Mônica Chianelli. Mas ela é o endereço improvável da Vida Verde, sua cooperativa de limpeza doméstica que é uma das crescentes empresas brasileiras bem-sucedidas nos Estados Unidos.

Chianelli tinha uma pequena fazenda e uma empresa de massa caseira no Brasil antes de abrir mão de tudo e partir para os Estados Unidos. Apesar do furor político que cerca a imigração aos Estados Unidos, ela e milhares de outros brasileiros consideram o país um terreno mais fértil do que seu lar.

Massachusetts, que tem fortes laços históricos com imigrantes de língua portuguesa dos Açores e de Cabo Verde, é um ímã para os imigrantes brasileiros desde os anos 80.

Mas enquanto as gerações anteriores de pessoas de língua portuguesa trabalhavam na pesca de baleia e na indústria têxtil, os recém-chegados demonstram um espírito mais empreendedor.

No Brasil, barreiras burocráticas complicadas e algumas das leis tributárias mais punitivas do mundo tornam a vida difícil para aqueles que pretendem ser empreendedores.

Segundo a International Finance Corporation, as novas empresas no Brasil precisam preencher 18 formulários diferentes, em procedimentos que normalmente levam 152 dias. Em comparação, nos Estados Unidos, uma nova empresa envolve apenas seis procedimentos que levam seis dias.

Àlvaro Lima, um assessor brasileiro de Thomas Menino, o prefeito de Boston, disse que a população brasileira de Massachusetts, entre 80 mil e 85 mil pessoas, abriu mais de 1.000 empresas, uma taxa que, segundo ele, é três vezes maior do que a da população nativa americana.

"No Brasil, é preciso ser de classe média alta para dispor dos US$ 25 mil a US$ 30 mil necessários para abrir uma franquia. Aqui, tal valor está ao alcance de muito mais pessoas", ele disse.

Os brasileiros formaram um nicho poderoso de serviços domésticos especializados, como limpeza, pintura e jardinagem, onde ganham até US$ 100 por hora -o que equivale a quase metade do salário mínimo mensal em seu país natal.

Os faxineiros brasileiros geralmente organizam sua agenda semanal de contratos em listas, que adquirem valor e são compradas e vendidas. Chianelli pagou US$ 2 mil para comprar uma agenda para limpeza de três casas.

Ela e os outros fundadores da Vida Verde lançaram seus próprios materiais de limpeza caseiros, depois de descobrirem que a exposição prolongada ao cloro ou amônia contidos nos produtos de limpeza abrasivos causavam irritação de pele e náusea.

Os produtos, baseados em uma série de materiais que usam produtos orgânicos como vinagre, bórax, óleo de melaleuca e bicarbonato de sódio, não apenas são melhores para os funcionários da cooperativa, mas também representam um serviço ambientalmente sensível que está se tornando popular junto à classe profissional liberal da cidade.

Grande parte disto não funcionaria no Brasil, onde pintura e limpeza doméstica são ocupações de baixo status e mal remuneradas. Os brasileiros de classe média-baixa têm uma visão diferente nos Estados Unidos, porque as recompensas são muito maiores. De fato, os brasileiros de Boston que voltaram para casa não tiveram muita sorte em reproduzir o sucesso que tiveram nos Estados Unidos.

Sueli Siqueira, uma socióloga que estuda as experiências dos emigrantes que voltaram para a cidade de Governador Valladares, uma cidade do Estado de Minas Gerais cujos moradores têm laços antigos com Boston, descobriu que metade dos novos empreendimentos criados -lavanderias ou locadoras de vídeo eram os favoritos- rapidamente faliram, levando alguns emigrantes a repetirem a jornada aos Estados Unidos.

Enquanto muitos autores de política americanos se concentram na canalização das remessas de dinheiro dos imigrantes para ajudar a desenvolver negócios em seus países de origem, Lima acredita que o dinheiro seria melhor gasto permitindo aos brasileiros uma maior integração nos Estados Unidos.

Para isto, ele está trabalhando com o gabinete do prefeito, filantropos locais e bancos brasileiros e americanos no desenvolvimento de um fundo que pagaria por aulas de inglês ou outros cursos para a comunidade brasileira.

Mas há o crescente desconforto popular com os imigrantes ilegais que parecem ambiciosos, já que muitos brasileiros -como outros imigrantes- carecem de documentos legais.

No momento, a maior vigilância e batidas mais freqüentes pelas autoridades de imigração estão fazendo muitos dos brasileiros de Boston fugirem assustados e estudarem planos para voltar para casa.

Mas Lima é mais otimista. "Pode-se fazer muito barulho, mas a economia depende demais do trabalho imigrante, de forma que eles vieram para ficar." George El Khouri Andolfato

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