Greve dos roteiristas: Hollywood precisa de resposta criativa para evitar final triste

Stefan Stern

O Writer's Guild of America (WGA), sindicato de roteiristas dos EUA, alcançou algo que, até agora, se provara além dos poderes dos piores criminosos e terroristas sanguinolentos do mundo. Eles pararam o relógio de Jack Bauer.

Bauer, interpretado por Kiefer Sutherland, é herói da série de aventura de televisão "24", que mostra em "tempo real" como as forças de segurança americanas lutam para salvar o mundo de atos criminosos. O drama se desenrola durante um dia literalmente incrível de desastres e quase desastres, enquanto um relógio na tela marca o tempo.

Cada uma das seis temporadas anteriores de "24" foram feitas de episódios de 24 horas. Mas a estréia da sétima temporada -um terço da qual já foi filmado- foi adiado pela greve feita pelo WGA.

Hector Mata/Reuters - 5.nov.2007 
Membros da Writers Guild of America fazem greve diante dos estúdios da Paramount

A Fox, produtora do programa, decidiu adiar a transmissão desse "sétimo dia", que deveria começar no início do ano, pois não quer interromper a série depois de começada. Se não houver roteiro, não haverá programa. E não há sinal algum de que um dinâmico terceiro partido va surgir para atravessar as janelas corporativas e resolver a briga entre estúdios e roteiristas.

A briga é em relação a dinheiro, é claro, mas também sobre princípios. Os roteiristas argumentam que não estão sendo adequadamente compensados por todo o material extra que hoje produzem -para DVDs, episódios da Web e similares. Eles também alegam que deveriam estar recebendo maior participação da receita que os produtores agora estão recebendo com as vendas de DVDs e com propaganda on-line.

Os estúdios apontam para um acordo feito após a última grande greve, em 1988, quando o sindicato dos roteiristas parou de trabalhar por 22 semanas. Depois, admitiu-se que os roteiristas tinham direito a uma pequena percentagem do preço das vendas de vídeos. Os dois lados vinham convivendo mais ou menos em paz, até o final do mês passado, quando um acordo expirou. Agora, porém, as canetas foram tampadas e os laptops fechados.

De certa forma, essa é uma história clássica de patrões contra sindicato, com os dois lados lutando com as conseqüências de novas tecnologias e as mudanças na demanda dos consumidores. Mas também oferece um caso de estudo interessante em outro dilema cada vez mais comum: como lidar com esses sujeitos criativos difíceis.

Em um mundo no qual, aparentemente, hoje somos todos "talentos" e onde "trabalho de conhecimento" detém a chave de riquezas, uma gangue de roteiristas prima-donas é meramente uma versão mais extrema do tipo de força de trabalho que muitos administradores têm que lidar.

Neste caso, porém, as histórias são antigas. Em Hollywood, a briga entre roteiristas e produtores sempre foi feroz. Na era das máquinas de escrever manuais, conta-se que um chefão do estúdio esperava do lado de fora da sala dos roteiristas, ouvindo o som vigoroso da datilografia. Se jamais a sala ficasse em silêncio, ele imediatamente entrava e questionava: "Por que vocês não estão escrevendo?!" Esse aspecto da era de ouro de Hollywood permanece, perfeitamente reproduzido no memorando enviado para a equipe da EMI pelo diretor da Terra Firma, Guy Hands, no final do mês passado. "Trabalhem mais, se não...", foi o que entenderam alguns artistas da firma.

Os roteiristas são bucha de canhão. Na comédia dramática (agora eliminada) de Aaron Sorkin, "Studio 60 on the Sunset Strip" -uma série que era uma homenagem ao ramo de escrever para a televisão- um veterano se lembrou da brutalidade do trabalho nos programas de comédia ao vivo em sua era de ouro.

Era conhecida como a "matança da sexta-feira à noite", explicou, referindo-se aos últimos minutos de cortes nos materiais para formar a programação final. "Antigamente", disse ele, "se o seu esquete não entrasse no ar, eles o mandavam pelado lá em baixo vender limonada. Vestido apenas com o seu fracasso, você tinha que explicar por que não era bom o suficiente."

Os roteiristas merecem compensação justa por seu trabalho. Mas devem tomar cuidado com o que desejam. Com um aumento nos custos de produção, os produtores acharam o charme da televisão de realidade barata irresistível. Alguns roteiristas trabalhadores e produtivos ainda podem nos salvar de "Help! My Boob Job is Killing Me!", ou o que quer esteja no cenário para a programação de 2008.

Só o que estou dizendo é para dar aos criadores uma chance. (Pedido especial? Muito bem, então, pedido especial.) Mas veja o que podem fazer por você quando têm essa chance. No início dos anos 50, a NBC reuniu uma equipe de roteiristas -Woody Allen, Mel Brooks, Larry Gelbart, Carl Reiner e Neil Simon- para criar "Your Show of Shows", de Sid Caesar. O programa dominou as transmissões por anos e lançou uma nova geração de atores.

Era uma equipe de rara capacidade, mas também foi um modelo de colaboração altamente produtiva (e às vezes abrasiva). Como Neil Simon explicou: "Ia para casa assistir os programas e ria e ria, e minha mulher diz: 'Essa piada é sua, não é?' Eu respondia: 'Não sei'. Nunca sabíamos. Elas vinham tão rápido."

"There is no business like show business", como cantou Ethel Merman. Mas na "economia do entretenimento", todos nós temos que atuar. Ethel nos deu a missão: continuemos com o espetáculo! Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos