Arábia Saudita se arrisca a receber convidados incontroláveis no encontro da Opep

Roula Khalaf

Receber ao mesmo tempo Hugo Chávez, da Venezuela, e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, é um desafio para qualquer país. E isso é um desafio ainda maior em se tratando da conservadora monarquia saudita, que deseja que as suas reuniões sejam perfeitamente coreografadas e isentas de surpresas.

Os sauditas ficaram furiosos quando o rebelde líder iraniano usou uma reunião da Organização da Conferência Islâmica, em 2005, na cidade sagrada de Meca, para fazer as suas alegações de que o Holocausto não existiu. A fúria saudita foi especialmente acentuada porque o rei Abdullah tentou interromper o governante iraniano durante as reuniões oficiais.

Mas, enquanto procura acentuar o seu papel político no cenário mundial e afirmar a sua liderança sobre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a Arábia Saudita, o maior produtor de petróleo do mundo, está assumindo esse risco ao liderar a reunião de cúpula do cartel neste fim de semana.

Embora as autoridades do setor petrolífero neguem, os líderes venezuelano e iraniano teriam sido solicitados a se restringir às questões relativas ao petróleo nos seus comentários, já que Riad estaria tentando impedir que a reunião fosse subvertida por discursos políticos bombásticos.

No entanto, a única certeza é de que os sauditas não contarão com a presença de Muammar Kadafi, o imprevisível líder líbio que trocou insultos com o rei Abdullah (à época o príncipe da coroa) durante uma reunião árabe em 2003 no Egito. Mais tarde os sauditas suspeitaram de que o coronel estivesse envolvido em um bizarro complô para assassinar o príncipe.

Mas, nesta semana, com os preços do petróleo se aproximando de US$ 100 o barril e os Estados Unidos pressionando a Opep para aumentar a produção, a reunião já está prejudicada por controvérsias.

Alguns analistas e diplomatas estão surpresos com o fato de Riad ter se colocado sob a luz dos holofotes com um show elaborado - exibições, seminários e visitas a locais de exploração de petróleo precedem a reunião - quando os preços do petróleo em disparada estão provocando fortes discórdias com as nações industrializadas.

Na última terça-feira, Samuel Bodman, o secretário de Energia dos Estados Unidos, pediu à Opep que aumentasse a produção de petróleo, insistindo que o preço está tão elevado porque os estoques dos países desenvolvidos encontram-se abaixo das suas médias nos últimos cinco anos.

Porém, um dia antes, Ali Naimi, o ministro saudita do Petróleo, declarou ao "Financial Times" que os níveis de produção não são um tópico a ser discutido na reunião de cúpula, e criticou os "pessimistas" que levantam dúvidas quanto à adequação da oferta.

Mas, em qualquer cenário, convencer os membros da Opep a aumentar a produção teria sido uma batalha para os sauditas, sendo que Chávez está entre aqueles que sentem-se perfeitamente felizes com a perspectiva de o barril de petróleo custar US$ 100.

Embora os sauditas não tenham se deixado convencer pelas alegações de carência de oferta, eles estão intranqüilos com os preços elevados. Os analistas dizem que os líderes do país temem que a elevação dos preços prejudique o crescimento mundial e fortaleça um presidente iraniano que eles prefeririam enfraquecer.

Mas Riad reluta em transformar uma reunião de chefes de Estado em um concurso de palavrões, preferindo em vez disso só fazer pressões por um aumento da produção, caso isso seja necessário, quando os ministros da Opep se reunirem em Abu Dabi no mês que vem.

Há um ano, quando os preços do petróleo encontravam-se em patamares mais administráveis, a Arábia Saudita decidiu sediar o encontro de cúpula da Opep - o terceiro do gênero na história da organização criada há 47 anos.

Naquela época, a diplomacia saudita mobilizava-se para a ação, sob o governo de um novo rei tido como mais independente do Ocidente. Os governos ocidentais, incluindo o dos Estados Unidos, também pediam ao reino que desempenhasse um papel mais ativo, pelo menos para contrabalançar a crescente influência do Irã na região.

Neste ano, a Arábia Saudita sediou uma reunião reconciliatória entre facções palestinas e depois disso foi a anfitriã em uma reunião da Liga Árabe. Riad também intensificou os seus esforços de mediação para reduzir as crises políticas no Líbano, na Somália e no Sudão.

No entanto, mais recentemente, houve um retorno a um estilo mais tradicional de diplomacia saudita discreta à medida que algumas iniciativas - especialmente o acordo de unidade nacional palestina - fracassavam. "A Arábia Saudita só apoiará iniciativas se tiver certeza do sucesso", afirma um analista político próximo ao governo saudita.

Em um momento no qual a Arábia Saudita, o único Estado da Opep com capacidade de aumentar a produção, encontra-se em meio a um programa maciço de expansão da produção de hidrocarbonetos, a reunião de cúpula deste final de semana foi elaborada para garantir ao mundo que o reino está arcando com a sua responsabilidade.

"É bom para os sauditas mostrarem-se ativos quando os preços estão tão altos - eles estão se posicionando no cenário mundial e afirmando: 'Usaremos o nosso poder econômico para lidar com isso'", afirma um diplomata ocidental em Riad. "Mas eles precisam ter cuidado em se restringir a esse roteiro, não permitindo que o encontro transforme-se em uma plataforma para outras mensagens".

No entanto, as autoridades sauditas se esforçarão para manter o encontro concentrado naquilo que segundo elas são preocupações estratégicas de longo prazo com relação à confiabilidade da relação oferta versus demanda. Uma questão-chave que perturba os membros do governo saudita é o fato de os países industrializados subsidiarem outras fontes de energia, tais como carvão e usinas nucleares, algo que eles vêem como um preconceito em relação ao petróleo. E, além disso, essas autoridades temem que as políticas vinculadas à mudança climática afetem negativamente a demanda por petróleo.

Naimi afirma desejar que a tecnologia seja usada para garantir que os combustíveis fósseis sejam queimados de maneira limpa, e não que os países reduzam a sua dependência do petróleo.

Mas o encontro de alto nível não pode escapar da sombra da crise do mercado, fazendo com que a Arábia Saudita seja obrigada a promover um delicado equilíbrio entre a solidariedade no âmbito da Opep, as suas prioridades no campo da política externa e a estabilidade do mercado. "O petróleo a US$ 100 o barril é uma manchete que geraria uma atenção bastante negativa nos Estados Unidos em relação à Arábia Saudita, em um momento no qual os sauditas não são populares junto a muitos políticos", afirma Greg Priddy, analista global do setor de petróleo da empresa de consultoria Eurasia Group.

Os analistas afirmam que alguma tensão com os Estados Unidos é não só inevitável, mas também benéfica para a Arábia Saudita, que se considera uma aliada forte, mas não subserviente, de Washington.

Mas embora desfrute dos benefícios dos elevados preços do petróleo, acredita-se que Riad se sentiria mais confortável com um preço bem menor, talvez no patamar de US$ 60 o barril, o que ainda seria suficiente para proporcionar um fluxo saudável de petrodólares para a economia saudita, sem ameaçar a estabilidade econômica em outras regiões.

David Kirsch, gerente de inteligência de mercado da PFC Energy, com sede em Washington, diz que Riad poderia conviver com um preço mais elevado, se não fosse pela contração do crédito global, que está acrescentando pressão à economia mundial.

Resumindo o dilema do país anfitrião, Kirsh afirma: "O que os sauditas desejam é exibir tudo o que fizeram (em termos de investimentos em capacidade de produção) para garantir que haverá oferta adequada de petróleo, e ser vistos como agentes promotores de segurança energética de longo prazo. Mas há muita vociferação por parte dos que afirmam precisar de mais petróleo agora". UOL

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