Palavras de Juan Carlos conquistam a Internet

Leslie Crawford

Cinco palavras -"Por que não se cala!"- lançaram o rei Juan Carlos, monarca espanhol, ao estrelato na Internet e levaram as relações da Espanha com a América Latina a um ponto baixo.

A explosão do rei foi contra Hugo Chávez, presidente da Venezuela, em uma reunião de cúpula de líderes latino-americanos e ibéricos no Chile, no último final de semana. Em suas observações finais, Chávez chamou José Maria Aznar, ex-primeiro-ministro da Espanha, de "fascista". José Luis Rodríguez Zapatero, atual primeiro-ministro da Espanha, interrompeu Chávez para exigir "respeito para um homem que foi eleito pelo povo da Espanha", mas Chávez ignorou-o e continuou a insultar Aznar.

Foi então que o rei Juan Carlos perdeu sua compostura real. "Por qué no te callas!" exclamou, dobrando-se para frente e apontando o dedo para o líder venezuelano. Poucos minutos depois, o monarca, visivelmente exasperado, saiu da sala.

AFP - 10.nov.2007 
Montagem mostra o rei Juan Carlos (esq.) no momento em que pedia para Chávez se calar

O espetáculo sem precedentes do rei Juan Carlos perdendo a compostura fez grande sucesso no YouTube nesta semana. "Por qué no te callas!" também se tornou um ringtone popular para telefones celulares na Espanha e um grito de guerra para os opositores de Chávez na Venezuela.

Para o governo espanhol, entretanto, a reunião de cúpula foi um desastre. Zapatero, que cortejou Chávez e outros líderes de esquerda quando assumiu o cargo, em 2004, pareceu particularmente abalado com a veemência dos ataques contra a Espanha e suas multinacionais. "Espero que nunca repitamos essas cenas novamente", disse o premiê espanhol quando deixou o Chile.

O primeiro ato de Zapatero como primeiro-ministro foi retirar as tropas espanholas do Iraque e, enfrentando a fúria dos EUA, alinhou-se com esquerdistas anti-americanos como Chávez. O governo de Zapatero irritou o governo Bush ainda mais ao vender armas e equipamentos militares para a Venezuela. Miguel Angel Moratinos, ministro de relações exteriores, em duas ocasiões acusou Aznar de apoiar uma tentativa de golpe contra Chávez em 2002.

De acordo com Moratinos, Zapatero quer que a nova política externa espanhola seja "um espelho da política interna, com ênfase em direitos civis, democracia e justiça". Essa diplomacia "suave", entretanto, parece ter conquistado poucos fãs da Espanha na América Latina.
A explosão do rei espanhol contra Hugo Chávez não foi a primeira vez que interveio na vida pública. Também não foi a primeira vez que desafiou um coronel assertivo. Em 1981, com apenas três anos de reinado, Juan Carlos Alfonso Victor María de Borbón y Borbón-Dos Sicilias, 69, teve um papel crucial em abortar uma tentativa de golpe. Depois, ele modernizou as forças armadas do país, ajudando a garantir participação na Otan e na UE. Mais recentemente, ele foi atacado por nacionalistas que exigiam a abolição da monarquia, apesar de, em recente pesquisa de opinião, ele ter sido votado o maior espanhol de todos os tempos.
BRONCAS REAIS EM CORONÉIS
INVESTIMENTO ESPANHOL
CHÁVEZ FAZ AMEAÇAS


Foi doloroso para Zapatero ouvir Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, atacar a empresa espanhola Unión Fenosa, como "um bando de mafiosos usando táticas de gângsteres para extrair o máximo de lucro possível de nossos serviços privatizados". Chávez também atacou as multinacionais espanholas, processos de privatização "corruptos" e acordos comerciais. "Comércio livre? Que nome equivocado. O que queremos é comércio justo", disse o líder venezuelano.

Cinco dias após a explosão do rei Juan Carlos, Chávez ainda está falando a respeito. "O rei deveria pedir desculpas. Não fiz nada. Foi ele quem me atacou em um tom violento", disse Chávez em uma entrevista de rádio. O presidente advertiu que os investimentos espanhóis não são "indispensáveis" à Venezuela.

Na Espanha, diplomatas temem que Chávez tenha descoberto um novo tema, substituindo seu anti-americanismo já cansado e com retorno político decrescente por ataques contra a Espanha, antigo poder colonial. Nesta semana, Chávez fez várias declarações contra o "imperialismo espanhol" pela forma que havia maltratado o povo indígena venezuelano. "Eles cortavam a garganta de nosso povo, partiam as pessoas em pedacinhos e deixavam-nas em torno das cidades e vilas -era assim que o império espanhol fazia aqui", disse Chávez em discurso.

O Ministério de Relações Exteriores espanhol descreveu ontem o incidente "Por qué no te callas" como "sério", mas negou que era indicativo das relações da Espanha com a América Latina como um todo.

"Nossa influência na América Latina é maior do que nunca", insistiu um porta-voz. "Ainda somos o segundo maior investidor na região, após os EUA, com investimentos chegando a 120 bilhões de euros (cerca de R$ 300 bilhões); o comércio está crescendo e temos relações privilegiadas e estratégicas com México, Brasil, Argentina, Chile e Colômbia."

O diplomata não incluiu a Venezuela na lista de parceiros "estratégicos". "Estamos esperando para que os temperamentos esfriem um pouco, antes de tentar reparar as relações com a Venezuela", disse ele.

Mesmo assim, o investimento direto estrangeiro espanhol na América Latina caiu fortemente desde seu pico, em 1999, quando 27 bilhões de euros (em torno de R$ 70 bilhões) foram canalizados para a região, para menos de 1,5 bilhão de euros (aproximadamente R$ 3,75 bilhões) no ano passado. Algumas empresas, como a petroquímica Repson YPF, estão tentando diminuir seus investimentos em alguns países latino-americanos. Outras ficaram amarrados por limites de preço e controles de exportação. Muitos empresários espanhóis reclamam que a América Latina tornou-se mais hostil a eles.

"O investimento estrangeiro direto tende a fugir de lugares onde a instabilidade e a incerteza estão aumentado", disse Gerardo Díaz Ferrán, presidente da Confederação de Negócios Espanhóis, explicando a diminuição do interesse das empresas espanholas na região. Deborah Weinberg

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