Arquivo secreto de Mitterrand revela fuga da Gestapo

Ben Fenton

François Mitterrand, presidente falecido da França, escapou por pouco da prisão e execução quase certa pela Gestapo, dias antes de ser tirado da França pela Força Aérea Real, de acordo com arquivos altamente sigilosos divulgados no Reino Unido.

A primeira visão detalhada do relacionamento de Mitterrand com a inteligência britânica saiu de um arquivo pessoal compilado pelo Setor de Operações Especiais (SOE), organização fundada em 1940 por Winston Churchill com a ordem de "colocar fogo na Europa".

Até recentemente, o documento era mantido nos arquivos do MI6, serviço de inteligência exterior do Reino Unido.

O documento nunca tinha sido visto por historiadores e inclui um relatório completo do "interrogatório" de Mitterrand, provavelmente conduzido pelo coronel Maurice Buckmaster, diretor da operação francesa do SOE.

O conteúdo do documento, divulgado nesta semana pelo Arquivo Nacional em Kew, sudoeste de Londres, provavelmente acrescentará controvérsia sobre o histórico de Mitterrand.

Quando jovem, ele havia trabalhado no regime colaboracionista de Vichy do marechal Philippe Pétain, antes de se tornar membro da resistência contra a ocupação alemã, em meados de 1943.

Poucos meses depois, no dia 16 de novembro de 1943, Mitterrand, com 27 anos de idade e recrutado para trabalhar no movimento de resistência chefiado pelo general Henri Giraud, chegou em um monomotor Lysander da França central para a RAF Tangmere, em Kent.

Ele foi interrogado no centro especial de inteligência para estrangeiros na Escola Patriótica Royal Victoria, do outro lado da prisão de Wandsworth, no Sul de Londres.

Mitterrand foi citado no arquivo pelo nome de Monier, um dos três apelidos gravados em seu cartão, e foi descrito como "preocupado com o aspecto militar da organização".

Entretanto, parece ter se intimidado com a presença de um colega superior, o comandante Pierre du Passage, codinome Pepe, homem que misteriosamente parece não ter deixado qualquer registro histórico.

O relatório diz que "Monier" e "Pepe" trabalhavam juntos em um grupo "Giraudista", na França, que tinha se organizado em duas zonas, Norte e Sul. "(Mitterrand) não falou muito durante o interrogatório; Pepe respondia a maior parte das perguntas, dirigidas a ele ou ao seu companheiro."

"Em conexão com seu trabalho, entretanto, ele viajava muito, tanto na Zona Sul quanto na Zona Norte, vivendo intermitentemente em Vichy. Ele mudava de endereço freqüentemente, ficando em um lugar apenas um dia e nunca mais de uma semana. Desta forma, achava que os alemães nunca o pegariam. Há uma semana, a Gestapo visitou o endereço que ele acabara de deixar. Ele sabe que é suspeito, mas não sabe dar uma razão específica para isso, pois sente que há tantas pequenas coisas que poderiam ser levadas em conta se as autoridades o pegassem. A Gestapo sabe seu nome verdadeiro, mas ele espera que não tenha sua descrição."

O relatório não diz se Mitterrand fugiu por causa do interesse da Gestapo nele, mas, na tempestade de condenações que seguiram as revelações de seu passado de Vichy nos anos 50, o então astro político nascente da esquerda francesa nunca usou isso em defesa própria.

O arquivo mostra que o SOE gostava de trabalhar com Mitterrand para contrabandear agentes britânicos para a Alemanha usando informações "derivadas da organização de Monier".

Eles iam se infiltrar nos "Arbeitskommandos", campos de trabalho forçado nos quais centenas de milhares de civis franceses estavam trabalhando no início de 1944. Muitos desses campos estavam ligados a projetos militares e de infra-estrutura vitais para os alemães, tornando-os alvos teóricos de tentativas de sabotagem das Operações Especiais.

Parece, entretanto, que apesar de Mitterrand ter ficado "satisfeito" com a sugestão que deveria cooperar com os britânicos "em vez de administrar um show rival", esse esquema nunca alçou vôo.

Poucas semanas após esse interrogatório, ele partiu para a sede dos Franceses Livres de Charles de Gaulle na Argélia e, dali, voltou para a França, no início de 1944. Deborah Weinberg

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