Sucesso das ações da Bovespa inspira outras Bolsas

De Jonathan Wheatley
Em São Paulo

Pode não haver melhor exemplo do crescente poder dos mercados financeiros emergentes do que o sucesso extraordinário no mês passado das ações da Bovespa Holding, a dona da Bolsa de Valores de São Paulo.

Após seu sucesso, os diretores da BM&F, a Bolsa de Mercadorias & Futuros de São Paulo que planeja lançar suas ações antes do final do ano, estão "extremamente animados" com as perspectivas de sua própria oferta pública inicial (IPO), segundo um diretor.

Sem querer ficar atrás, a Cetip, que registra os negócios na Bovespa, está preparando sua própria IPO. Mais ao norte, a Bolsa de Valores do México anunciou em agosto planos de oferecer suas ações.

O mundo está repleto de liquidez e os ativos dos mercados emergentes estão oferecendo tanto alto retorno quanto refúgio seguro. Mas mesmo neste contexto, a ascensão da Bovespa até a IPO foi de tirar o fôlego.

Dois dias antes do encerramento da coleta de intenções de investimento ("book building"), a meta para o preço de suas ações passou de R$ 15,50-R$ 18,50 para a nova faixa de R$ 20,00-R$ 23,00. Apesar dos protestos de alguns corretores de que o aumento limitaria a valorização potencial no primeiro dia de negócios, as ações começaram a ser negociadas em 26 de outubro no topo da nova faixa.

Os corretores não precisavam ter se preocupado. No final do primeiro dia, as ações ganharam mais de 52% (facilmente um recorde para o primeiro dia de negociação), fechando a R$ 34,99. A negociação apenas das ações da Bovespa naquele dia movimentou R$ 5,1 bilhões —mais do que a média diária, para o ano até aquele dia, da negociação de todas as outras ações da Bolsa.

Gigante em movimento
A capitalização de mercado da Bovespa Holding é atualmente de cerca de US$ 13 bilhões. A Nasdaq, em comparação, vale pouco mais que US$ 5 bilhões. A poderosa NYSE Euronext, o maior grupo mundial de Bolsa de valores, vale cerca de US$ 24 bilhões —mas as empresas que são negociadas na NYSE e Euronext possuíam um valor combinado de cerca de US$ 20.200 bilhões em setembro, em comparação aos US$ 1.200 bilhões das empresas negociadas na Bovespa.

Números como estes trazem à mente frases como "exuberância irracional" e "bolha de Internet". De fato, as autoridades começaram a sussurrar em particular que os investidores precisam tomar mais cuidado.

Mas os investidores possuem argumentos fortes ao seu lado. A própria NYSE Euronext participou do sucesso das ações, comprando 1% de participação na Bovespa Holding por US$ 90 milhões. "Este investimento faz parte de nossa estratégia geral de expansão", ela disse. "O Brasil é uma das regiões mais dinâmicas do mundo."

O Brasil é enormemente dinâmico. A média diária de negócios na Bovespa saltou de R$ 558 milhões em 2002, menos de US$ 200 milhões na época, para R$ 4,6 bilhões no ano até o momento e R$ 6,7 bilhões em outubro.

E pode haver muito mais à frente. A Bovespa não conta com concorrentes. Os mercados de capital brasileiros despertaram de anos de estagnação em 2004 e as IPOs estão acontecendo neste ano em um ritmo de mais de uma por semana. Cerca de 45 emissões primárias e secundárias de ações estão pendentes na CVM, a Comissão de Valores Mobiliários do Brasil.

Mas o grande empurrão poderá vir no próximo ano, quando espera-se que o Brasil receberá grau de investimento pelas principais agências de rating. Isto abriria as ações brasileiras para uma classe totalmente nova de investidor de alta qualidade e, potencialmente, para uma enxurrada de mais dinheiro.

Muitos analistas esperam que a média de negócios diários, em tais circunstâncias, dobraria para R$ 9 bilhões. Os lucros da Bovespa, que foram de R$ 243,7 milhões durante a primeira metade deste ano, um aumento em comparação a R$ 274 milhões em todo ano de 2006, deverão reagir de acordo.

O que se vê no horizonte
A BM&F, já a quarta maior Bolsa de mercadorias e futuros do mundo em média diária de contratos, deverá também pegar esta onda. Ela também não tem concorrentes e já atrai o interesse de grandes investidores internacionais. Em setembro, seus acionistas venderam 10% de suas ações para a General Atlantic, uma empresa americana de private equity com participação em várias Bolsas ao redor do mundo, por R$ 1 bilhão. A General Atlantic pagou R$ 900 milhões, com os R$ 100 milhões restantes sob a condição de que a IPO da BM&F ocorra antes do final ano e que sua capitalização subseqüente ultrapasse R$ 12 bilhões.

No mês passado, a CME, a maior Bolsa de mercadorias e futuros do mundo, seguiu o exemplo, trocando 2% de suas próprias ações por uma participação de 10% na BM&F em um negócio que valorizou a Bolsa de São Paulo em R$ 13 bilhões. Se a IPO da BM&F for parecida com a da Bovespa, tal valorização poderá facilmente dobrar.

Não há nuvens escuras no horizonte? A febre de IPOs deve muito à melhora na governança e regulação e de fatores macroeconômicos como a recente estabilidade econômica do Brasil e as sólidas reservas de moeda estrangeira de cerca de US$ 165 bilhões.

Mas dois fatores colocam estas e outras considerações à sombra: os preços das commodities e a liquidez internacional. Enquanto estes permanecerem fortes, há pouca chance da confiança do investidor ser abalada.

Mas a inflação começou a ameaçar. Nos últimos meses, o Banco Central primeiro reduziu e depois suspendeu dois anos de reduções das taxas de juros. Apesar dos preços recordes do petróleo, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, manteve o corte dos juros, mostrando mais preocupação com a ameaça de recessão do que inflação. Casa os bancos centrais sejam forçados a pisar no freio, as condições globais poderiam mudar. Nesse caso os centros financeiros do Brasil poderiam se ver em condições não tão boas em relação ao restante do restante do mundo. George El Khouri Andolfato

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