Economias emergentes não se tornaram "desconectadas"

John Kay

Ali Babá sempre esteve associado aos 40 ladrões. Mas ele se desconectou dos larápios: uma pesquisa por "Alibaba" no Google direcionará o internauta para uma plataforma chinesa de comércio eletrônico. A recente oferta pública inicial de ações ordinárias da companhia fez dela um dos mais valiosos negócios da Internet.

O "decoupling" (algo como "desconexão") é o tema da hora no setor de investimentos. A alegação é a de que o desempenho econômico das economias emergentes do Brasil, da Rússia, da Índia, da China e da Ásia em geral, está em grande parte desconectado daquele das economias desenvolvidas. Estatisticamente, a China responde por uma proporção substancial do crescimento econômico mundial e a maior parte desse crescimento é resultado do aumento da demanda por bens e serviços dentro da própria China. O comércio entre as economias asiáticas está se expandindo mais rapidamente do que aquele entre estas economias e as do resto do mundo. Como conseqüência, os empecilhos ao crescimento esperados nos Estados Unidos e, talvez, na Europa, terão pouco impacto sobre os mercados emergentes.

Não parece fazer muito tempo que o argumento oposto estava na moda, e a globalização era a grande nova idéia na área de investimento. Como as companhias organizaram as suas atividades por todo o mundo, e os mercados de ações de todo o globo ficaram cada vez vinculados uns aos outros, os investidores deveriam comprar indústrias, e não países.

Se formos obrigados a escolher entre a metáfora da desconexão e a do mundo plano, a teoria da terra plana ganha todas as vezes. O colapso do comunismo e as reformas econômicas na China e na Índia provocaram a integração de amplos setores da atividade econômica que costumavam estar em grande parte desvinculados da economia do mercado global. Essa é a mais importante, e benéfica, mudança econômica da nossa época.

Até mesmo em economias pequenas, abertas e prósperas como as da Suíça e da Holanda, a maior parte da atividade econômica ocorre no campo doméstico. O país no qual o indivíduo mora é o local onde ele compra as suas roupas, faz suas refeições, formula as suas finanças e redige os memorandos dos conselhos diretores. Mas o volume e o valor de todas essas operações domésticas dependem do papel que os produtores do país desempenham na economia global. E o mesmo se aplica cada vez mais às economias complexas do mundo em desenvolvimento. A escala do comércio doméstico e intra-regional não deve fazer com que nos esqueçamos de que ambos dependem do que está acontecendo em outras regiões. Um cirurgião é capaz de observar a complexidade daquilo que ocorre no cérebro ou no coração, mas não pode se esquecer de que ambos funcionam devido àquilo que retiram, e fornecem, ao resto do corpo.

A realidade preocupante é que a conexão entre a maioria dos mercados emergentes e o mercado global ainda não chegou a tal ponto. As pequenas economias européias estão completamente integradas dentro das suas próprias fronteiras nacionais e à economia internacional. Mas isso está longe de ser o que ocorre no Brasil, na Rússia, na Índia e na China. Todos esses países ocupam grandes áreas que estão em estágios diferentes de desenvolvimento. As áreas mais afluentes e de crescimento mais rápido na China são aquelas mais próximas ao mar, e só é preciso dirigir por uma pequena distância a partir de Pequim ou Xangai para se deparar com um universo diferente. A maior parte da Índia rural permanece quase intocada pelo desenvolvimento que transformou alguns grandes centros daquele país. As ruas de Moscou podem estar cheias de automóveis Mercedes Benz, mas as províncias da Rússia não estão.

A teoria de investimento baseada na desconexão é equivocada: uma crise financeira ou uma recessão nas economias ocidentais terão, como sempre, um efeito sobre as companhias nos mercados emergentes. Mas, existe um sentido profundo segundo o qual a tese da desconexão é verdadeira. O crescimento de países como China e Índia é o resultado de mudanças que ocorreram lá. Os países ocidentais não criaram (a não ser por meio de exemplo) o ímpeto para o crescimento nessas economias. E tampouco, a não ser temporariamente, os países ocidentais são capazes de bloquear a transição gradual daquelas nações para o mundo desenvolvido. Os países são senhores dos seus próprios destinos porque são senhores das suas próprias economias, bem como de suas instituições políticas e sociais. Os pobres não são pobres porque nós somos ricos, embora eles pudessem ser ainda mais pobres se nós fôssemos mais pobres. A redução da pobreza global não diz respeito a uma distribuição mais justa de recursos finitos, e sim à capacidade de cada país fazer uso efetivo do seu principal recurso: o seu talento humano. UOL

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