Democracia capenga de Putin alimenta a apatia dos russos

Neil Buckley

Em uma sala de aula da Universidade de Yekaterinburg, no norte da Rússia esta semana, Grigory Yavlinsky estava a mil por hora. Os alunos escutavam atentamente sua mensagem de que o presidente Vladimir Putin está recriando um Estado de partido único. O único problema era que ele deveria estar fazendo outra palestra.

Há seis meses Yavlinsky era esperado como o orador principal em uma conferência sobre o declínio da população russa que se realizava no mesmo local. Na noite anterior os organizadores lhe telefonaram para dizer que sua presença não seria necessária. Como consolo, ele poderia falar a uma classe de economia.

Assim é a vida de um líder de oposição em campanha para as eleições parlamentares da Rússia no próximo dia 2 de dezembro -mesmo um que, diferentemente de alguns grupos mais radicais, continua dentro do sistema de partidos "aprovados" que surgiu com o Kremlin de Putin.

Tatyana Makeyeva/AFP - 4.nov.2007 
Simpatizantes do partido de oposição Yabloko participam de manifestação em Moscou

É uma vida em que encontros e aparições podem ser subitamente cancelados, folhetos eleitorais confiscados ou a publicidade arrancada no último momento. Yavlinsky disse que seu partido Yabloko acabara de ter removidos cem cartazes em São Petersburgo, aparentemente depois da pressão oficial contra os donos dos locais.

"Essas pessoas estão nos procurando, quase chorando, pedindo-nos para não [exibirmos os cartazes], apesar de já estar tudo pago, porque elas seriam demitidas", ele disse.

Esse inteligente economista parece um temor improvável para as autoridades. Ele foi candidato presidencial duas vezes, mas conquistou no máximo 7% dos votos em 1996. É extremamente convincente em aparições públicas, mas dificilmente um líder de massas.

Enquanto isso, as divisões no campo liberal e suas associações na memória pública com as depredações durante a mudança para a economia de mercado na década de 1990 significam que o Yabloko desta vez quase certamente não passará dos 7% de votos necessários sob as novas regras para entrar no Parlamento. Com o Yabloko destinado a não ter representação pela primeira vez desde 1993, as pesquisas dizem que alguns de seus seguidores estão mudando para o Rússia Unida, o partido pró-Kremlin que deverá ganhar 60% ou mais, para não "desperdiçar" seus votos.

Mas uma série do que os russos chamam de "recursos administrativos" -ou apoio da mídia, dos órgãos policiais e da oficialidade- foi mobilizada por trás do Rússia Unida, de tal modo que até partidos marginais como o Yabloko dizem que não podem fazer campanha em paz. Assessores do partido dizem que os cartazes proibidos em São Petersburgo já tinham sido atenuados sob pressão oficial. Uma crítica disfarçada aos planos da Gazprom, o monopólio do gás, de construir um polêmico arranha-céu na cidade histórica foi trocada pelo neutro "Um voto no Yabloko é um voto em São Petersburgo".

Yavlinsky disse que veículos que levavam seus folhetos de campanha nos Urais foram detidos várias vezes durante até três horas pela polícia, que abusou do direito de verificar o conteúdo. O Yabloko queixou-se à comissão eleitoral central da Rússia e ao Ministério do Interior esta semana de uma série de supostas violações, incluindo pressão contra seus eleitores em certas áreas.

Na Rússia, assim como em outros lugares, a exposição na TV é um poderoso instrumento de campanha. Yavlinsky conseguiu três entrevistas na TV em Yekaterinburg, a quinta cidade da Rússia, e esteve no ar em várias outras cidades. Assessores dizem que criaram seu programa de campanha para evitar locações onde estivesse claro que ele não seria bem-vindo na TV.

Mas se o Yabloko está achando difícil transmitir sua mensagem, o Rússia Unida, mesmo com Putin liderando a lista de candidatos e tendo a maior parte do tempo na TV, parece estar lutando para animar os russos.

Nas ruas de Yekaterinburg esta semana, três em cada quatro cidadãos manifestaram pouco interesse pelas eleições. Nikita, um estudante de engenharia, disse que vai votar no partido pró-Kremlin, mas acrescentou: "Não sei por quê".

Natalya, uma fisioterapeuta, disse que seu salário mensal de 10 mil rublos (US$ 400) quase não é suficiente, com os preços dos alimentos aumentando rapidamente -uma das poucas questões que parecem repercutir entre os eleitores- e a irrisória aposentadoria de sua mãe de 5 mil rublos. Mas ela votaria no Rússia Unida porque não tinha alternativa.

Tatyana, assistente em uma loja de eletrônicos, também se queixou de seu salário de 10 mil rublos, mas não tinha certeza em quem vai votar. "A política acontece muito acima de nós. Na verdade não nos diz respeito", ela disse.

Na estação de TV local, a editora-chefe Elena Savitskaya disse que a apatia dos eleitores, talvez um subproduto da falta de uma verdadeira concorrência, parece ser hoje a maior preocupação das autoridades. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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