Soja deve promover inflação dos preços de alimentos

Javier Blas

Os custos da soja atingiram os níveis mais altos em 34 anos, e os níveis dos estoques estão tão baixos que a total falta é uma possibilidade.

Os políticos, que já estão preocupados com o aumento constante da inflação global de alimentos, estão recebendo mais más notícias com o disparo do preço da soja.

Os preços do grão de soja atingiram seu nível mais alto em 34 anos, pressionados pela forte demanda chinesa e pelos temores que os atuais preços não estão altos suficientes para que as terras plantadas com milho nos EUA, maior produtor do mundo, migrem para a soja.

Em Chicago, o preço da soja nesta semana chegou a US$ 11,14 a bushel (1 bushel equivale a 27,21 kg), o mais alto desde julho de 1973. A alta foi ajudada pelo aumento da demanda pela indústria de biocombustível, com os preços do óleo chegando a US$ 100 (em torno de R$ 180) por barril, e também por temores com a safra do Brasil -segundo maior produtor do mundo- depois da seca no Estado do Mato Grosso, principal região de produção. A soja foi negociada ontem a US$ 10,85 por bushel.

O salto nos preços ameaça afetar a cadeia de alimentos e pressionar o preço da carne de boi e frango, pois a soja é usada em grande parte para a ração animal, advertiram os analistas.

A alta nos custos da soja -atrelada ao aumento do preço de outros produtos básicos nas rações, como trigo e milho- pode levar alguns produtores a abandonarem a criação de porco, boi e carneiro em meio às perdas, pavimentando o caminho para preços mais altos de carne no futuro.

A inflação alimentar já é grande preocupação para os políticos em países desenvolvidos e em desenvolvimento. A inflação alemã acaba de atingir 3% pela primeira vez desde ao menos 1995, por causa dos preços mais altos de alimentos e energia, enquanto a inflação chinesa atingiu uma alta de uma década.

A soja é, junto com o milho, o arroz e o trigo um dos maiores cultivos do mundo. Cerca de 80% da safra é processado para farinha de soja e rações, enquanto o restante é convertido em óleo para consumo humano (e, mais recentemente, para alimentar a indústria de biodiesel).

Peter Thoenes, especialista em óleos vegetais da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em Roma, disse que o Brasil e outros países sul-americanos agora eram chave para deter a falta dos EUA, após os produtores na maior região de produção de soja do mundo converterem parte de suas terras ao milho.

"Qualquer clima desfavorável na América do Sul pode gerar uma alta", diz Thoenes.

A safra de soja reduzida junto com a maior demanda de ração animal e de óleo para biodiesel levaram a uma queda nos estoques mundiais. A razão entre estoque e uso atingiu seu mais baixo nível em cinco anos, de acordo com estimativas da FAO.

Os estoques atuais equivalem a 10% da demanda anual.

Gavin Maguire, da Iowa Grains em Chicago, disse: "A demanda crescente combinada com o efeito de produção reduzida nos EUA em 2007 tornam o esvaziamento total dos estoques uma verdadeira possibilidade."

O governo chinês recentemente promoveu a compra de soja, reduzindo temporariamente a tarifa de importação de 3% para 1%, em um esforço para baixar os preços locais. Pequim espera que a medida, que expira no final de dezembro, promova a produção de suínos, após uma doença no início do ano ter matado milhões de porcos.

A firma de consultoria de Hamburgo World Oil disse ontem que novas compras de grande escala pela China são "prováveis, a curto ou médio prazo". A China é a maior produtora do mundo e adquire cerca de 40% da soja vendida no mundo, seguida de longe pela União Européia e Japão.

No início deste ano, a soja tornou-se a mais recente vítima da guerra de mercado, depois que produtores americanos responderam aos altos preços do milho do final de 2006 aumentando as áreas que dedicavam ao milho para o maior nível em mais de 60 anos.

Este aumento levou a uma redução profunda da área plantada com soja e, até certo ponto, trigo e algodão.

A área plantada de soja nos EUA caiu neste ano cerca de 16%, para 63,7 milhões de acres, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. A queda em área e a baixa produtividade cortaram a oferta de soja para 2,6 bilhões de bushels, 19% menos que a produção recorde do ano passado.

Lewis Hagedorn, analista de agricultura da JPMorgan em Chicago, disse: "A soja precisa comprar sua área de volta do milho antes da próxima estação de plantio, na primavera."

Até agora, não está claro se os preços recorde serão suficientes para convencer os produtores a mudarem de cultivo porque os preços do milho para a safra do ano que vem continuam altos.

Os contratos futuros do milho na Chicago Board of Trade (CBOT), usados para avaliar o valor das safras, de dezembro de 2008 estão sendo negociados a US$ 4,25 por bushel, bem acima dos preços spot atuais de cerca de US$ 3,80. Enquanto isso, os contratos futuros da soja de novembro de 2008 estão atualmente a US$ 10,20 por bushel, abaixo dos preços spot.

Apesar da razão do preço do milho para a soja ter se recuperado da baixa do ano passado que levou os produtores a abandonarem sua soja pelo milho, 2,4 vezes não é suficiente para convencer os agricultores a voltarem ao grão, de acordo com analistas.

Maguire disse que, se os preços do milho continuarem perto de US$ 4 por bushel, então a soja precisará chegar a US$ 12 "para estabelecer a razão chave de 3 para 1 que provocaria o aumento da produção da soja".

A produção brasileira é chave para a oferta
Os EUA são o maior produtor de soja do mundo, com uma fatia do mercado de cerca de 38%, de acordo com o Deutsche Bank. A soja é o terceiro maior cultivo do país, depois do milho e trigo, com a produção concentrada nos Estados de Illinois e Iowa.

O Brasil e a Argentina são o segundo e o terceiro maiores produtores, fornecendo juntos cerca de 43% do total mundial.

A oferta desta base da alimentação animal importante também está sendo pressionada porque os produtores brasileiros estão relutando em aumentar sua área de plantio de soja.

Desde o início de 2006, o real brasileiro apreciou 23,5% contra o dólar, gerando os preços recordes da soja em Chicago.

Os negociadores dizem que, sem maior produção do Brasil e dos EUA, o custo da soja continuará alto. Deborah Weinberg

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