Rússia e China mostram a face não liberal do capitalismo

Gideon Rachman

Durante a guerra fria era natural agrupar a Rússia e China. Elas eram as duas grandes potências comunistas -e as principais adversárias ideológicas do Ocidente.

Então veio 1989 -o ano da repressão ao protesto dos estudantes na China e do colapso do império soviético. O comunismo tinha fracassado. Mercados livres e a democracia pareciam prontos para tomar conta desses países. O espírito da época foi capturado pelo famoso artigo de Francis Fukuyama sobre "O Fim da História", publicado na revista "National Interest" de Washington naquele ano. Fukuyama não argumentava que a história tinha acabado no sentido de que não haveria mais grandes eventos. Mas ele alegava vitória ideológica do Ocidente, sugerindo que a "democracia liberal pode constituir o ponto final da evolução ideológica do homem".

Apesar de rapidamente ter se tornado moda rejeitar Fukuyama, uma variante de sua tese influenciou poderosamente a política externa americana desde então. A cadeia de pensamento funciona assim. O comunismo fracassou como sistema econômico. A Rússia e a China tiveram que abraçar mercados livres. A liberdade econômica irá, com o tempo, produzir liberdade política. Uma economia liberalizada gerará novas forças e tensões que impossibilitarão a manutenção de um sistema político autoritário.

Jason Lee/Reuters - 5.nov.2007 
Guarda de honra marcha na praça da Paz Celestial, próxima à entrada da Cidade Proibida

O surgimento de novas tecnologias, aliado à globalização da economia mundial, deu uma nova dimensão a este argumento. Em 1993, Rupert Murdoch, o magnata da mídia, argumentou que os avanços na tecnologia das comunicações "provou ser uma ameaça clara aos regimes totalitários". Em 2000, Bill Clinton sugeriu que a liberdade se disseminaria inexoravelmente "por celular e cable modem".

Mas 19 anos após o "fim da história", a Rússia e a China não estão se enquadrando nas confiantes previsões dos deterministas liberais, democráticos. Pelo contrário, suas elites políticas estão buscando uma alternativa ao modelo ocidental predominante. O novo modelo russo-chinês é autoritário em vez de democrático. Ele tenta casar capitalismo com um grande papel do Estado na economia. Ele mantém a promessa do consumismo ocidental para uma classe média crescente, ao mesmo tempo que rejeita o liberalismo político ocidental. A retórica americana de direitos humanos e democracia é rejeitada como ingênua -ou como um esforço deliberado de semear o caos. Em vez de contar com a democracia ou com a ideologia comunista para criar lealdade ao sistema político, as elites russa e chinesa cada vez mais acentuam a combinação de crescimento econômico e nacionalismo. As duas idéias estão relacionadas porque a crescente prosperidade não apenas oferece novos confortos aos cidadãos individuais -ela também detém a promessa de que o país será mais respeitado ao redor do mundo.

A manifestação internacional desta ideologia compartilhada é a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, a sigla em inglês) -uma entidade regional formada em 2001 que reúne a Rússia, China e quatro países da Ásia Central. A SCO prega respeito absoluto à soberania nacional e busca limitar a influência americana na Ásia Central. Os russos e chineses realizaram exercícios militares conjuntos em 2005 -o primeiro desde a guerra de fronteira entre eles em 1969. No ano passado, esses exercícios foram repetidos sob os auspícios da SCO.

Na ONU, os dois países freqüentemente se opõem aos esforços ocidentais para exercer pressão sobre governos repressivos -seja o Irã, Iraque, Sudão ou Sérvia. Robert Kagan, um analista de política exterior americana, argumentou que "surgiu uma liga informal de ditadores, sustentada e protegida por Moscou e Pequim".

Como durante a guerra fria, seria um erro pensar na Rússia e China como abraçando uma visão de mundo monolítica. O racha sino-soviético revelou as intensas rivalidades entre a China de Mao e a União Soviética. Hoje, ainda há um forte elemento de suspeita mútua e rivalidade estratégica, com os russos desconfiados da expansão potencial da China para a esparsamente povoada Sibéria, rica em minérios.

Os pontos de partida dos dois países também são muito diferentes. O boom econômico da China está ocorrendo há uma geração e é amplamente baseado na manufatura. A rápida expansão da Rússia é mais recente e mais frágil -movida pelo alto preço do petróleo e do gás. Após um período turbulento de liberalização econômica e política nos anos 90, os anos Putin marcaram uma reafirmação do poder do Estado russo. O processo de liberalização econômica chinês foi mais ordenado e linear.

Na política, o Partido Comunista chinês ainda está no poder. O Partido Comunista russo agora está formalmente na oposição. Mas ex-autoridades soviéticas ainda dominam o Kremlin, apesar de vestirem novas roupas políticas.

Na política externa, a Rússia ainda pensa como uma potência global -enquanto a China está apenas começando a exercer sua influência fora da Ásia. Um alto diplomata chinês disse: "Quando há um grande evento mundial, os russos sempre reagem imediatamente. Nós freqüentemente pensamos a respeito por alguns dias". Todavia, acredita-se que poderio militar russo esteja em declínio, enquanto os chineses embarcaram em um fortalecimento militar sustentado.

Mas apesar de todas estas diferenças, também há fortes semelhanças entre as ideologias oficiais da Rússia e da China. Isto não se trata mais de ambos promoverem um conjunto comum de textos marxistas-leninistas. Em vez disso, parece que as elites governantes chegaram a idéias semelhantes em reação a pressões econômicas e políticas semelhantes. O produto final é uma nova ideologia semi-autoritária que -aliada ao sucesso econômico- poderia atrair aderentes. Escrevendo em uma recente edição da "Foreign Affairs", Azar Gat, um acadêmico israelense, sugere que se as democracias ocidentais enfrentarem problemas econômicos, "um Segundo Mundo não democrático bem sucedido poderia então ser considerado por muitos como uma alternativa atraente à democracia liberal".

Tanto na Rússia quanto na China, porta-vozes oficiais são ambíguos em suas declarações sobre democracia. Eles freqüentemente argumentam que a democracia permanece uma meta válida de longo prazo -mas que seus países precisam de tempo. Sim, eles serão "democráticos" -mas não permitirão que a idéia seja imposta a eles por forasteiros e estrangeiros. "A Rússia encontrará seu próprio caminho para a democracia", é o refrão em Moscou.

Dmitry Peskov, o porta-voz de Vladimir Putin, gosta de dizer que não há democracias perfeitas no mundo. A Rússia tem seus problemas, mas as democracias do Ocidente também têm. O presidente da China, Hu Jintao, chamou a democracia de "meta comum da humanidade". Mas, a linha oficial chinesa tende a ser de que pequenos passos estão sendo dados na direção de um sistema mais democrático -por meio de eleições nas aldeias ou eleições contestadas dentro do Partido Comunista- mas que é vital evitar o "caos" que seria causado por uma corrida ingênua na direção da democracia.

Em ambos os países, o medo do "caos" é freqüentemente empregado para rechaçar as exigências de liberalização política. Na China, a palavra evoca os horrores da Revolução Cultural, quando a ordem social estabelecida foi virada de cabeça para baixo. O medo de que se o Partido Comunista perder o controle a violência e a desordem social se seguirão também é associado à revolta estudantil de 1989. Em conversas, muitos chineses parecem temer que uma democratização poderia levar ao separatismo e guerra civil.

Na Rússia, os seguidores de Putin associam a democratização dos anos 90 à queda nos padrões de vida, à falta de lei, ao declínio nacional e à tomada do Estado por um pequeno grupo de oligarcas ultra-ricos. As pesquisas de opinião mostram que tais argumentos contam com considerável apoio popular.

Porém, apesar de toda a conversa sobre democratização gradual, a realidade tanto na Rússia quanto na China é de que o espaço para liberdade política e dissensão estão encolhendo em vez de expandindo. Ainda há consideravelmente mais liberdade de expressão na Rússia do que na China. Mas a televisão nacional -que é de longe o veículo de comunicação mais poderoso- reflete fielmente a linha do Kremlin. Intelectuais dissidentes não são enviados para o Gulag atualmente. Mas encontram muita dificuldade para expor suas opiniões. Uma série misteriosa de assassinatos de jornalistas investigativos também teve um efeito assustador sobre a imprensa.

A China, por outro lado, nunca experimentou o florescimento de uma imprensa independente como a Rússia viu nos anos 90. Mesmo assim, Hu Jintao, o presidente da China, está supervisionando um endurecimento significativo do controle sobre os meios de comunicação. O Comitê para Proteção de Jornalistas, uma organização não-governamental com sede em Nova York, lista mais jornalistas presos na China do que em qualquer outro país que monitora -com vários casos em 2007. Os controles chineses sobre a Internet -por meio do "grande firewall da China"- também provaram ser surpreendentemente eficazes. A confiança de Clinton de que seria impossível impedir a disseminação de idéias subversivas pela Internet até o momento não vingou.

Os otimistas apontam para alguns indicadores contrários, como o surto de ativismo ambiental -organizado pela Internet ou por celular. É verdade que a rede de atividades sociais não controladas diretamente pelo Estado expandiu, à medida que a economia chinesa cresce e se torna mais complexa. Isto criou novas pressões que exigem resposta do Partido Comunista. Mas a tendência geral parece ser de menor liberdade de imprensa do que maior; portanto, menos espaço para expressão e ativismo político não aprovado pelo partido.

O acesso ao poder político continua altamente controlado em ambos os países. As eleições russas agora são amplamente vistas como uma forma de legitimizar decisões anteriores. Os analistas da política russa estão tendo que voltar à Kremlinologia para entender como o país é governado. A eleição presidencial russa será em maio -mas parece que a decisão crucial já ocorreu, com Dmitry Medvedev apontado como o candidato favorito de Putin. Na China, não houve indício no recente congresso do Partido Comunista de que este tem alguma intenção de abrir mão de seu monopólio do poder político.

De fato, tanto na Rússia quanto na China o partido do governo e as elites políticas estão fortalecendo sua base de poder ao expandirem para os negócios. Na Rússia, o altamente importante setor de energia é considerado como a base do poder nacional -assim como da riqueza pessoal da elite de governo. De forma reveladora, o suposto novo presidente, Medvedev, é atualmente presidente da Gazprom, o monopólio estatal de gás. Na China, as esperanças de que um florescente setor privado poderia fornecer uma fonte alternativa de poder ao Partido Comunista até o momento não se concretizou. Pelo contrário, a participação do partido em monopólios estatais que geram lucro levou alguns a brincarem que ele agora é "a maior holding do mundo".

Tanto na Rússia quanto na China, as autoridades do governo estão usando sua nova riqueza para lustrar e redescobrir aspectos da cultura nacional que foram desencorajados no auge do comunismo. A Igreja Ortodoxa Russa conta novamente com apoio e o governo está reformando suas catedrais. Putin, um ex-agente de inteligência soviético, agora diz que lê a Bíblia. O governo chinês está patrocinando a construção de Institutos Confúcio ao redor do mundo.

A redescoberta da cultura nacional parece um desdobramento benigno. Mas também há um lado potencialmente sombrio no uso da ideologia nacionalista tanto na Rússia quanto na China. A maior asserção do presidente Putin no cenário internacional provou ser popular na Rússia. Grupos jovens nacionalistas patrocinados pelo Kremlin estão sendo usados para oprimir oponentes políticos -e até mesmo diplomatas estrangeiros. Um novo manual para professores de história russa -elogiado pelo próprio Putin- apresenta um tom fortemente nacionalista. A necessidade da força nacional para rechaçar as maquinações do Ocidente é um tema central do livro.

Na China, os estudantes também são expostos a um currículo altamente nacionalista -que pinta o país como uma vítima perene de interferência externa, primeiro pelos colonialistas ocidentais e depois pelos japoneses. A necessidade de recuperação da força nacional e da China reconquistar seu lugar de direito no mundo são temas constantes. Um professor ocidental em uma universidade de Pequim -que geralmente é bastante positivo em relação à China moderna- não consegue deixar de se preocupar com o fato de muitos de seus estudantes "parecerem ter sido ensinados que uma futura guerra com a América é inevitável".

Mas apesar de sua retórica às vezes sugerir que a China e a Rússia novamente vêem o Ocidente como rival, as empresas ocidentais também são parceiras comerciais vitais. As economias de ambos os países dependem das relações comerciais com a Europa e os Estados Unidos. A Gazprom está ávida em se expandir para a Europa Ocidental. O novo fundo soberano da China recentemente comprou uma participação de US$ 5 bilhões no Morgan Stanley, um banco de investimento e um dos maiores nomes em Wall Street.

A criação de interesses mútuos em um sistema econômico global deverá ajudar a limitar qualquer nova rivalidade entre o Ocidente e a China e Rússia. Mas as esperanças de que os dois países venham a abraçar o modelo político ocidental agora parecem ultrapassadas e ingênuas. A crença de que reforma econômica resultaria em liberdade política é abalada à medida que Moscou e Pequim buscam uma alternativa ao modelo ocidental predominante George El Khouri Andolfato

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