Sarkozy acena com uma visão mais leve para a França

John Thornhill

Nas últimas semanas, a retórica política de Nicolas Sarkozy mudou tão abruptamente quanto sua vida amorosa.

Após se divorciar de sua segunda esposa Cécilia, em outubro, Sarkozy tem desfilado com Carla Bruni, a graciosa modelo italiana, como o mais recente amor de sua vida. As revistas ficaram em êxtase no fim de ano enquanto publicavam fotos do casal romântico se acariciando na Disneylândia, mergulhando no mar no Egito e caminhando por pontos turísticos na Jordânia -apagando convenientemente as imagens persistentes da visita de cinco dias de Muammar Gaddafi a Paris, que chocou grupos de direitos humanos assim como alguns dos ministros de governo do próprio Sarkozy.

Mas em um discurso na véspera de Ano Novo, Sarkozy também despertou o interesse da classe política parisiense, que tende a desdenhar as demonstrações ostentosas da vida privada do presidente, ao falar sobre uma "política de civilização" para 2008. Em uma coletiva de imprensa na terça-feira na qual Sarkozy insinuou que em breve se casaria com Bruni, o presidente esboçou sua nova filosofia política acentuando os valores humanos, o diálogo social, a qualidade de vida e o meio ambiente -as mesmas questões que Ségolène Royal, sua adversária socialista, reivindicava como sendo dela durante a campanha eleitoral.

Philippe Wojazer/Reuters - 9.jan.2008 
Sarkozy discursa para parlamentares franceses no Palácio Elysée, em Paris

Tanto em estilo quanto -talvez- em substância, parece que o Sarkozy que ingressou em 2008 é uma criatura diferente do reformista econômico linha-dura que foi eleito em 2007. Será que isso ocorreu simplesmente porque Sarkozy percebeu que suas promessas eleitorais seriam impossíveis de realizar em meio a um contexto econômico em deterioração, de forma que está criando novas distrações? ("Sarkozy prometeu a lua, mas receberemos apenas uma lua-de-mel!" como colocou o jornal satírico "Le Canard Enchâiné".) Ou teria Sarkozy sentido uma mudança real no sentimento popular, particularmente em questões verdes, e está genuinamente mudando suas prioridades políticas? Resumindo, Sarko está se transformando em Ségo?

Por toda a campanha presidencial e durante seus primeiros sete meses no governo, a mensagem de Sarkozy foi clara: como presidente ele estimularia o consumo reduzindo impostos, liberaria as energias empresariais do país reformando as leis trabalhistas, reenergizaria a economia recompensado o trabalho árduo e conseqüentemente restauraria a grandeza da França no mundo. "Trabalhe mais e ganhe mais", era seu mantra não sentimental.

O presidente francês prontamente introduziu um pacote de estímulo fiscal de 10 bilhões de euros e lançou uma série de reformas para restringir os regimes de aposentadoria privilegiados desfrutados por muitos funcionários do setor público, para reformar as rígidas leis do mercado de trabalho e conceder mais autonomia para as universidades.

Mas as reformas de Sarkozy, que ainda estão em processo de negociação e implementação, já encontram forte -apesar de esporádica- resistência de trabalhadores e estudantes. O cenário econômico também se deteriorou graças à crise de crédito imobiliário nos Estados Unidos, o aumento dos preços dos commodities e o fraco desempenho das exportações francesas em decorrência da forte valorização do euro.

Os índices de aprovação de Sarkozy também têm acompanhado o sentimento dos consumidores para baixo e agora está abaixo dos 50% pela primeira vez em sua presidência. A BNP Paribas prevê que o produto interno bruto da França crescerá cerca de 1,5% neste ano, em comparação a 1,9% em 2007. "O rei agora está nu", concluiu Mathieu Kaiser, um dos economistas do banco francês, em um relatório muito citado.

Em sua coletiva de imprensa na terça-feira, Sarkozy pareceu estar buscando novas roupas. Ele recuou de suas promessas anteriores de estimular o consumo. "O que esperam de mim? Que esvazie os cofres que já estão vazios?" ele perguntou. "Reduzir o debate político francês à simples questão do poder aquisitivo é absurdo."

Em vez disso, Sarkozy esboçou sua própria visão abrangente de uma "política de civilização". O termo, inventado por Edgar Morin, um eminente sociólogo de esquerda, sugere que os países às vezes precisam refazer seu tecido social quando este é rasgado por grandes revoluções econômicas, tecnológicas ou sociais. Assim, por exemplo, Sarkozy disse que a França precisa recriar suas certezas intelectuais, instituições e modos de vida durante a Renascença, o Iluminismo, a revolução industrial e após as crises homicidas da civilização européia nos anos 30 e 40.

Sarkozy disse que o mundo moderno experimentou uma revolução semelhante após ser virado de cabeça para baixo pela mudança tecnológica e globalização. Morin argumentou que os imperativos atuais deveriam ser a promoção da solidariedade, da moralidade e de um senso de identidade. "Eu tornarei meus estes objetivos", disse Sarkozy, prometendo reformar a política pública nos campos da educação, saúde, proteção social, desenvolvimento sustentável e planejamento urbano.

Para ajudar a promover a civilização francesa e a identidade em casa e no exterior, o presidente também anunciou uma "verdadeira revolução cultural" na radiodifusão pública. Ele prometeu financiar uma emissora pública, semelhante à BBC, aumentando um imposto sobre as receitas publicitárias das emissoras de televisão privadas e "um imposto infinitesimal" sobre as operadoras de telefonia móvel e provedores de Internet.

A publicidade em emissoras públicas seria abandonada, ele disse, levando a um forte aumento dos preços das duas principais emissoras privadas, a M6 e TF1, esta última de propriedade parcial de Martin Bouygues, um amigo de Sarkozy. "Eu não quero dizer que a televisão pública deva ser elitista ou tediosa, mas que não deve funcionar apenas segundo um critério puramente mercantil", disse o presidente.

Para enfatizar a importância de "outro tipo de crescimento" na França, Sarkozy anunciou que pediu a dois economistas vencedores do Nobel, Amartya Sen e Joseph Stiglitz, que recomendassem formas de medir melhorias qualitativas na economia para compensar as medições quantitativas tradicionais. "Se permanecermos prisioneiros de uma visão restritiva do PIB, então não poderemos esperar mudar nosso comportamento e nossa forma de pensar", ele disse.

Alguns observadores, incluindo o próprio Morin, estão céticos em relação à repentina conversão de Sarkozy. "Na situação atual, eu acho que ele está prisioneiro das circunstâncias e de todas suas promessas quantitativas que não pode cumprir", disse Morin em um debate no rádio. "Mas eu não excluo uma conversão. Se ele usou a frase 'política de civilização' é porque ele sentiu que há um vácuo na política. É intuitivo."

Apesar de Sarkozy poder ter mudado o tom de seu discurso, ele certamente não abandonou sua mensagem anterior. O presidente insistiu que a França não deve culpar o mundo exterior por seus atuais problemas econômicos, acrescentando que eles apenas reforçam a necessidade de reformas estruturais. De fato, Sarkozy atirou mais carne vermelha aos liberais de livre mercado ao sugerir que eliminaria neste ano a contenciosa semana de trabalho de 35 horas introduzida pelo governo socialista anterior.

O presidente também forneceu alguns exemplos de como suas agendas de livre mercado e sociais poderiam ser alinhadas. Um exemplo foi a proposta de Sarkozy de oferecer incentivos fiscais adicionais para pequenas empresas criarem esquemas de divisão de lucros que poderiam beneficiar milhões de trabalhadores, partilhando assim os lucros de forma mais justa entre o capital e o trabalho.

Kaiser, o economista da BNP Paribas, disse que apesar de Sarkozy estar experimentando alguma turbulência econômica, ele dificilmente dará às costas para suas metas originais. "As pessoas não estão vendo resultados a curto prazo. Mas isto é normal e esperado. Não é possível mudar uma economia com problemas estruturais em seis meses e nós sabemos que a economia francesa estava em desaceleração", ele disse. "Mas as reformas estão em andamento no que se refere às aposentadorias e mercado de trabalho. E mais reformas também estão planejadas para os mercados de bens e serviços. Ele fez o que pôde a curto prazo e o foco agora é nas reformas a longo prazo."

Kaiser sugeriu que alguns elementos da "política de civilização" de Sarkozy poderiam melhorar o desempenho econômico da França: por exemplo, uma melhoria significativa no sistema educacional do país poderia estimular uma maior inovação.

Henri Guaino, o estrategista político e redator de discursos do presidente, que supostamente teria importado o pensamento de Morin para o Palácio Elysée, disse que Sarkozy se mantém fiel à sua agenda de reforma do mercado de trabalho e do bem-estar social e à sua promessa de melhorar o poder aquisitivo dos consumidores franceses.

"Aumentar o poder aquisitivo continua sendo uma de suas metas e é uma das formas de restaurar a confiança da França em si mesma", disse Guaino. "Mas não é a única meta e o presidente não pode simplesmente declarar sua existência de um dia para o outro."

Segundo Guaino, Sarkozy está apenas situando suas reformas econômicas dentro de um contexto mais amplo de sua "política de civilização". "Nós seremos bem mais ambiciosos com uma agenda mais ampla de mudanças", ele disse.

Guaino insistiu que este é um passo para frente em vez de um para trás, rejeitando as sugestões de que a "política de civilização" é uma nostalgia de uma era passada de comunidades de laços estreitos e maiores padrões morais. "Se a sociedade moderna não tem fraternidade, não tem humanidade e nenhuma ligação com seu passado, então precisamos acabar com a modernidade", ele disse. Incapaz de cumprir seu manifesto de reformas mais duras no mercado de trabalho, o presidente mudou seu foco para a qualidade de vida. Mas ele não desistiu de sua agenda original George El Khouri Andolfato

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