Bush busca uma oportunidade para fazer história no Oriente Médio

Daniel Dombey e Roula Khalaf

A visita do presidente George W. Bush ao Oriente Médio o levou a lugares onde nunca esteve antes, da sede suja e caindo aos pedaços da Autoridade Palestina, em Ramallah, à fazenda de cavalos do rei Abdullah da Arábia Saudita, que possui uma tenda com postes de ébano e marfim envoltos com pedras preciosas.

Mas dois temas ocuparam Bush em quase todas as paradas -sua tentativa de motivar israelenses e palestinos a chegarem a um acordo de paz e seu esforço para aumentar a pressão sobre o Irã.

Em ambas as questões, o presidente americano pode comandar as manchetes de uma forma que não mais consegue em políticas domésticas. Ele considera ambas históricas -uma como uma oportunidade, a outra como uma ameaça. Em ambas ele precisa convencer a região e o mundo de que sua abordagem incremental pode obter os resultados que ele almeja.

Mandel Ngan/AFP - 13.jan.2008 
Bush prova um pedaço de pão em um jantar típico em tenda no deserto dos Emirados Árabes

"Quando as pessoas ouviram a promessa do presidente de que ajudaria a intermediar uma paz entre israelenses e palestinos até o fim de seu mandato, elas riram", disse um assessor legislativo republicano em Washington.

"É uma infelicidade, de fato uma tragédia, que Bush tenha decidido nos visitar em seu último ano no governo", escreveu na terça-feira Sabria Jawhar, uma colunista do "Saudi Gazette". "Imagine o que ele teria realizado se tivesse nos visitado em 2002."

Mas Bush insiste que há uma rara chance para a paz, já que em Ehud Olmert e Mahmoud Abbas os israelenses e palestinos finalmente contam com líderes que desejam um acordo. Ao mesmo tempo, ele reconheceu que a região como um todo ficou perplexa com a conclusão da inteligência americana sobre o Irã no mês passado, de que Teerã abandonou o programa de armas nucleares em 2003, e que Washington agora precisa tornar sua estratégia clara.

Ao longo de toda a visita de uma semana, outras questões foram relegadas ao segundo plano. O presidente que iniciou seu segundo mandato prometendo colocar um fim à tirania, foi lisonjeiro em relação ao retrospecto de reformas desiguais dos países árabes no principal discurso da viagem e manteve suas críticas generalizadas. Sua pressão por democratização foi abalada não apenas pela vitória do movimento palestino Hamas em uma das eleições mais limpas já realizadas no mundo árabe, mas também pela prioridade que ele dá à mobilização da opinião contra o Irã.

Ele tem buscado reforçar as relações com os aliados árabes dos Estados Unidos passando bastante tempo na região -e ao se concentrar nas relações pessoais com líderes aos quais dá grande valor. Em troca, os governos do Golfo o receberam com cerimônias de boas-vindas espetaculares, ao mesmo tempo que lhe deram presentes preciosos, notadamente um medalhão de ouro de 18 quilates.

Mas Bush continua sendo uma figura profundamente impopular entre grande parte da opinião pública, que teve que conviver com toques de recolher virtuais durante suas visitas às cidades, de Ramallah a Dubai.

Em sua declaração mais abrangente sobre a paz no Oriente Médio na viagem, Bush buscou convencer a opinião árabe -que há muito o considera como tendencioso em prol de Israel- de sua solidariedade com a causa palestina. "O estabelecimento de um Estado da Palestina está há muito atrasado. O povo palestino o merece."

Também ocorreram algumas mudanças de conteúdo assim como de tom. A Casa Branca anunciou que estava nomeando um general americano para pressionar ambos os lados a cumprirem seus compromissos, enquanto Bush apoiou publicamente a idéia de um fundo para compensar os refugiados palestinos. Mas apesar da idéia de indenização ser discutida pelos governos ocidentais há anos, comentaristas árabes condenaram a idéia, que eles disseram negar aos palestinos o direito de retornar. Muitos analistas acrescentaram que um acordo neste ano -a meta prometida por Bush- não pode ser conseguido apenas "empurrando" as partes na direção da paz, o método que ele adotou.

Mas o presidente permanece otimista. Em uma entrevista confiante e à vontade com os repórteres na terça-feira, Bush confessou que em seus encontros com os líderes por toda a região, "a primeira pergunta na mente deles era: 'Por que estou soando tão otimista?' (...) Temos muito trabalho para insuflar confiança nas pessoas".

Na segunda metade de sua viagem, Bush viajou para o Golfo, onde buscou endurecer a posição contra o Irã. Em seu principal discurso da viagem, o presidente convocou "amigos de todo o mundo a confrontarem este perigo antes que seja tarde demais".

Washington está particularmente disposta a reduzir os laços financeiros entre os Emirados Árabes Unidos e Teerã, e parece ter conseguido algum progresso em convencer a federação a refrear os créditos de exportação para o Irã.

Mas passado mais de um ano desde que os Estados Unidos iniciaram seu esforço para persuadir os países a imporem sanções incrementais, não há sinal do Irã ter freado seu programa nuclear.

E apesar do discurso ter ganho manchetes ao redor do mundo, no salão onde foi feito, ele recebeu apenas dois segundos de aplauso. No dia seguinte, Saud al Faisal, o ministro das Relações Exteriores saudita, sinalizou sua cautela em relação às declarações de Bush sobre o Irã ao alertar: "Este não é o momento para qualquer provocação na região".

"No momento, a estratégia diplomática está em grandes apuros", disse Mark Fitzpatrick, um ex-funcionário do Departamento de Estado que atualmente está no Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, que acentuou não apenas a confusão semeada pela Avaliação Nacional de Inteligência, mas também o acordo fechado entre o Irã e a agência de fiscalização nuclear da ONU no fim de semana.

Ele destacou que ao afirmar que o Irã não possui um programa nuclear militar, a Avaliação Nacional de Inteligência na prática eliminou a opção militar americana ao mesmo tempo que tornou a busca por sanções muito mais complicada.

"As coisas provavelmente avançarão aos tropeços pelo restante do ano", ele disse. "O Irã não terá uma arma nuclear durante o governo do presidente Bush. Isto será um problema para o próximo presidente." George El Khouri Andolfato

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