Brasil vive grande surto de investimento estrangeiro

Richard Lapper e John Rumsey
Em São Paulo

Quase não se passa um dia em São Paulo, a maior cidade do Brasil, sem notícias de mais investimentos estrangeiros, e esta semana não foi exceção.

A gigante da mineração Anglo American disse ontem que pagará US$ 5,5 bilhões para comprar o controle de duas minas de minério de ferro da companhia brasileira MMX. E alguns dias atrás surgiram notícias de que a Symetrix, uma empresa americana de chips, está investindo US$ 1 bilhão para fabricar cartões inteligentes.

Os fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE) estão crescendo. Na maior parte desta década, os atrativos do Brasil empalideceram ao lado dos de outros mercados emergentes gigantes -China, Índia e Rússia, os outros três dos chamados BRICs-, até então com crescimento mais rápido. Mas nos últimos meses o Brasil começou a se sair melhor.

Números publicados na semana passada pela Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento mostram que o Brasil conseguiu o dobro em IDE que a Índia em 2007 e seu investimento cresceu em um ritmo mais rápido que o da Rússia ou da China.

Os fluxos totais de US$ 37,4 bilhões foram mais que o dobro da quantia que o Brasil atraiu em 2006 e também, pelo menos em termos nominais, maiores que os fluxos atraídos no início desta década quando estava em vigor uma grande campanha de privatizações.

O investimento na China caiu para US$ 67,3 bilhões, comparado com US$ 69,5 bilhões em 2006, enquanto a Rússia conseguiu US$ 48,9 bilhões, 70% a mais que em 2006.

"Foi uma surpresa", diz Antônio Corrêa de Lacerda, um economista da Sobeet, um grupo de pensadores brasileiros sobre companhias transnacionais, que esperava que o Brasil atraísse somente cerca de US$ 25 bilhões. "O resto do mundo está crescendo, mas o Brasil agora está conseguindo uma boa parcela do aumento."

Por que o Brasil tem se saído tão bem? Parte da explicação é que o país é rico em recursos naturais -como petróleo, soja e minério de ferro- pelos quais a demanda mundial tem crescido. Nos primeiros 11 meses de 2007, o Brasil atraiu US$ 3 bilhões para o setor de mineração, quase seis vezes o valor de 2006.

O recente sucesso dos investimentos é muito mais amplo, porém. Números do Banco Central para os primeiros 11 meses mostram que mais de um terço dos influxos gerais foram dirigidos para manufaturas.

A indústria de aço do Brasil, altamente competitiva, é um dos focos. Lakshmi Mittal, presidente e executivo-chefe da Arcelor Mittal, a maior siderúrgica do mundo, é um entusiasta. Na ano passado ele dirigiu uma grande expansão de sua companhia no complexo de Tubarão e em dezembro fez uma oferta de US$ 1,75 bilhão para comprar a participação de 43% que ainda não possui na Acesita, uma fabricante de aço inoxidável. Ele pretende gastar outros US$ 5 bilhões nos próximos cinco anos para aumentar a capacidade anual em mais de 40%.

Bilhões de dólares foram bombeados no setor de etanol, onde a experiência e a perícia técnica brasileira são uma vantagem importante. Como explica Andrew Liveris, presidente e executivo-chefe da Dow Chemical: "Quando se trata de biocombustíveis e produtos relacionados, o Brasil é o líder. Os EUA estão pensando nisso; o Brasil está fazendo".

Mas grande parte do interesse se relaciona à própria melhora das perspectivas macroeconômicas do Brasil. Uma política monetária e fiscal cautelosa estabilizou a economia e pavimentou o caminho para uma expansão estável do crédito interno.

Setores orientados para o mercado doméstico, como o da construção, estão em ascensão. O crescimento, que atingiu 5% em 2007, é decepcionante comparado aos da China ou da Índia, mas os investidores estão confiantes em que a demanda doméstica de base ampla, especialmente entre grupos de baixa renda, e os índices crescentes de formação de capital permitirão que o Brasil sobreviva relativamente ileso a uma desaceleração da economia americana.

Mas mesmo alguns que estão investindo no Brasil expressam preocupação sobre obstáculos para o crescimento. Marcelo Mosci, diretor da GE para a América Latina, diz que o fracasso em melhorar as condições comerciais, através de reformas trabalhistas e outras, criará dificuldades à frente. "Existem dois Brasis. O investimento está crescendo, o setor privado está fazendo um ótimo serviço. Mas [por causa da falta de reformas] o Brasil está atingindo um grande obstáculo em seu caminho", ele diz.

* Colaborou Jonathan Wheatley Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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