Crise do British Council na Rússia revive época da Guerra Fria

Neil Buckley e Alex Barker

O Britsh Council (Conselho Britânico) aparece ocasionalmente nos romances de John Le Carré como abrigo para espiões. Mas a equipe da instituição cultural do Reino Unido na Rússia provavelmente nunca esperou ser intimada pela agência sucessora da KGB a ouvir perguntas ameaçadoras a respeito da saúde dos familiares e animais de estimação.

CRONOLOGIA
2004 - Começam as investigações sobre a atividade comercial do British Council na Rússia, à medida que azedam as relações devido à recusa do Reino Unido de extraditar Boris Berezovsky, um ex-oligarca e crítico do Kremlin. A polícia russa invade as instalações do conselho, alegando que este estava envolvido com atividades comerciais ilegais sobre as quais não incidiam impostos. O conselho cedeu e pagou os impostos exigidos, no valor de 1,4 milhão de libras esterlinas, em 2004. O caso foi encerrado.
Janeiro de 2006 - A Rússia reabre a investigação fiscal dias após o Serviço de Segurança Federal russo alegar ter descoberto diplomatas britânicos envolvidos em espionagem e financiando organizações não governamentais.
Novembro de 2006 - Renova-se a tensão depois que Alexander Litvinenko, um ex-agente do FSB que virou um crítico do Kremlin, acusou o regime de Vladimir Putin de envenená-lo com o elemento tóxico polônio, em uma carta escrita no seu leito de morte.
Maio de 2007 - O Reino Unido exige a extradição do ex-agente da KGB Andrei Lugovoi, que está na Rússia. A Rússia recusa-se a extraditá-lo.
Junho de 2007 - Moscou ordena ao conselho em Ekaterinburg que saia das suas instalações no consulado britânico porque o local confere imunidade diplomática.
Julho de 2007 - O Reino Unido expulsa quatro diplomatas russos. A Rússia responde com quatro expulsões, fazendo com que as relações entre os dois países atinjam o patamar mais baixo desde o fim da Guerra Fria.
Dezembro de 2007 - O Ministério das Relações Exteriores ordena ao British Council que feche os seus escritórios fora de Moscou.
14 de janeiro de 2008 - O conselho desafia a ordem, abrindo os seus escritórios em São Petersburgo e Ekaterinburg.
15 de janeiro de 2008 - Os serviços de segurança de Estado da Rússia ligam para os funcionários do conselho para fazer perguntas.
16 de janeiro de 2008 - David Miliband condena "qualquer intimidação e assédio de autoridades", dizendo que tais atos são "totalmente inaceitáveis".
17 de janeiro de 2008 - O Conselho Britânico suspende as suas operações em Ekaterinburg e em São Petersburgo.
Criado em parte para combater a disseminação do fascismo pela Europa na década de 1930, o conselho se firmou como o braço cultural britânico no exterior, oferecendo serviços que vão de aulas de inglês até a promoção da obra de Shakespeare.

Embora a maior parte do seu orçamento de 551 milhões de libras esterlinas seja gerado por atividades comerciais tais como o ensino da língua inglesa, cerca de um terço das verbas do conselho vem do departamento britânico do exterior. O conselho tem 7.900 funcionários em cerca de 110 países.

Ele abriu 15 unidades na Rússia depois que os dois países firmaram um acordo cultural em 1994. Stephen Kinnock, diretor do escritório do British Council em São Petersburgo - que nesta semana foi detido pela polícia russa por ter supostamente cometido uma infração de trânsito -, atua na instituição há mais de uma década.

O seu pai, Neil Kinnock, ex-líder do Partido Trabalhista e ex-comissário europeu, foi nomeado presidente do British Council em 2004.

Há muito tempo a Rússia alega que o acordo de 1994 não proporciona nenhuma base de fato legal para as operações do conselho na Rússia. O Reino Unido diz que isso não é verdade, mas os dois lados têm trabalhado no sentido de criar um novo acordo relativo aos "centros culturais" definindo o status do conselho e regras mais detalhadas para as suas operações na Rússia.

Porém, em maio de 2004, o conselho viu-se na condição de peão em um grande jogo político. A polícia fiscal russa invadiu os seus escritórios, alegando que o conselho ganhava "muito dinheiro" com as aulas de inglês e que deveria pagar impostos.

As autoridades britânicas imediatamente vincularam o caso à questão diplomática gerada pelo fato de o Reino Unido ter concedido asilo político a Boris Berezovsky, o oligarca que transformou-se em crítico de Putin, e a Akhmed Zakayev, o representante dos rebeldes tchetchenos. O conselho acabou registrando-se como contribuinte na receita russa, e em dezembro de 2005 pagou impostos cobrados no valor de 1,4 milhão de libras esterlinas (cerca de R$ 5 milhões).

Todavia, um mês mais tarde, a Rússia reabriu a investigação fiscal - depois que os serviços secretos russos acusaram diplomatas britânicos de praticar espionagem e financiar clandestinamente organizações não governamentais.

As tensões intensificaram-se após o envenenamento de Alexander Litvinenko, um ex-oficial de inteligência da KGB, no Reino Unido, e das tentativas britânicas de obter a extradição do principal suspeito, Andrei Lugovoi. No verão do ano passado a Rússia ordenou ao conselho que se retirasse do seu escritório em Yekaterinburg, na região dos Montes Urais, sob a alegação de que a unidade funcionava ilegalmente dentro do consulado britânico.

Quando os britânicos expulsaram quatro diplomatas russos em julho passado e reduziram a cooperação com Moscou, a Rússia retaliou suspendendo as negociações sobre o acordo que há muito se arrastava sobre a situação legal do conselho. Isso forneceu no mês passado ao Ministério das Relações Exteriores da Rússia o pretexto para ordenar o fechamento dos outros dois escritórios restantes do Conselho Britânico fora de Moscou, em São Petersburgo e Yekaterinburg, alegando que eles ainda não contavam com base legal para funcionar.

As autoridades britânicas acreditam que o motivo real é pressionar o Reino Unido a suspender a investigação do caso Litvinenko e a exigência da extradição de Lugovoi.

"Tais iniciativas não são articuladas pelo Ministério das Relações Exteriores, mas sim pelo FSB, o serviço secreto russo", disse na quinta-feira (17/01) uma autoridade britânica. "Eles querem uma maneira fácil de aumentar a pressão sobre o caso Lugovoi, de forma que estão se concentrando em um alvo obviamente fácil". UOL

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