Turbulência global ameaça o crescimento da América Latina

Richard Lapper e Jonathan Wheatley

Ao longo da última meia década, poucas regiões confundiram tanto as expectativas quanto a América Latina. A alta dos preços dos commodities, a liquidez abundante nos mercados financeiros e a expansão dos mercados exportadores ajudaram a transformar países amplamente considerados como sendo incorrigíveis, no início da década, em paraísos de estabilidade econômica, marcados por baixa inflação, redução da dívida e crescimento constante.

Mas os desdobramentos nos mercados globais neste ano sugerem que a América Latina poderá perder seu brilho. As bolsas de toda a região caíram mais rapidamente do que a maioria do restante do mundo, com um declínio médio de quase 16% desde o início do ano.

Há temores de que uma recessão americana e uma queda de preços de commodities industriais possam minar o crescimento. Como o banco central argentino colocou na quarta-feira: "Para nosso país, este é primeiro teste de estresse desde a crise de 2001 e 2002".

Muitos dizem que o pessimismo é exagerado. Os Estados Unidos podem estar passando por um declínio, mas a robustez de outros mercados emergentes, especialmente a China, ajudará a América Latina a suportar a tempestade, eles dizem.

A longo prazo os mercados da região estão "correlacionados negativamente" em relação à Europa e aos Estados Unidos, disse Jerome Booth, chefe de pesquisa da Ashmore Investment Management, em Londres. "Eu não chamaria exatamente de 'descolamento'. Mas os mercados emergentes estão mais resistentes."

Ele cita o fluxo contínuo de fundos para títulos em moedas locais e outros investimentos de renda fixa. Como medido pelo EMBI -um índice desenvolvido pelo JP Morgan- os preços dos títulos dos mercados emergentes atingiram sua maior alta na semana passada.

Muitos argumentam que a maioria dos países latino-americanos está melhor preparada para enfrentar a instabilidade financeira global do que no passado. A política fiscal geralmente é mais conservadora, a demanda doméstica está crescendo e vários anos de superávits em conta corrente permitiram aos governos formar reservas significativas de moeda estrangeira.

Guillermo Ortiz, o presidente do banco central do México, disse nesta semana para uma platéia no Fórum Econômico Mundial em Davos: "A América Latina atual, do ponto de vista macroeconômico, nunca esteve tão sólida -pelo menos ao longo da minha vida".

Mas nem todos estão tão confiantes. É verdade, houve uma diminuição da dependência dos Estados Unidos, que atualmente absorvem menos de 20% das exportações do Brasil, Argentina, Chile e Peru. Mas muitos mercados para os quais a América Latina se diversificou serão duramente atingidos por uma desaceleração americana. Os preços dos commodities industriais provavelmente cairão.

Muitos críticos também dizem que os governos não tiraram proveito das condições internacionais favoráveis para promover as reformas que aumentariam a produtividade e a perspectiva de crescimento a longo prazo. A Venezuela e o Equador usaram a maior receita do petróleo para aumentar os gastos sociais. O Brasil também aumentou seus gastos. Pouco foi feito para reformar um sistema previdenciário deficitário e a carga tributária aumentou.

Muitos citam o rápido crescimento doméstico do Brasil como evidência de sua dependência reduzida de mercados externos. Mas Christian Stracke da CreditSights, uma firma de pesquisa, disse que o crescimento é alimentado pela exploração da liquidez global por parte dos bancos locais.

Ele acrescentou que muitos mercados emergentes estão particularmente vulneráveis, já que a quantidade de dinheiro que atraíram para portfólios de investimento nunca esteve tão alta quanto desde logo após a crise asiática de 1998. A fuga de capital poderia se tornar uma torrente caso o sentimento permaneça ruim, ele previu.

Walter Molano, da BCP Securities, disse que o crédito está se tornando menos abundante no Brasil. As taxas de juros de mercado aumentaram nos últimos meses, enquanto as condições para empréstimos para compra de carros -o primeiro boom dos últimos anos- foram endurecidas neste ano. "Não há como a região escapar do que está acontecendo internacionalmente. Há um amortecimento, mas ele desaparecerá."

* Reportagem adicional de Jude Webber, em Buenos Aires, e Adam Thomson, no México. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos