Juros baixos no Brasil acirram a concorrência no mercado de automóveis

John Rumsey
Em São Paulo

Quando Luiz Carlos Ferreira decidiu reformar seu apartamento recém-comprado em São Paulo, para construir alguns closets, deparou-se com um dilema. Ele não tinha o dinheiro para pagar à vista a conta de R$ 10 mil e empacou diante dos financiamentos oferecidos tanto pela construtora quanto por seu banco, que cobravam mais de 6% de juros ao mês, ou seja, mais de 75% ao ano.

Então Ferreira vendeu seu Fiat Palio de três anos por R$ 22 mil e usou o dinheiro para pagar os armários e o restante do financiamento do carro. Depois foi até um revendedor Volkswagen e comprou um Fox zero à prazo, com uma taxa de juros de 15% em 60 meses.

Ele não só conseguiu o acesso a um financiamento muito mais barato, mas também mais flexibilidade no pagamento, podendo adiantar parcelas sem penalidade. Praticar a arbitragem entre as taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras no Brasil faz bastante sentido já que a diferença entre elas é cada vez maior.

Taxas de juros de menos de 20% ao mês são oferecidas na compra de automóveis, enquanto que para os empréstimos sem garantia elas começam em 35% ao ano e sobem vertiginosamente até 100% ou mais, dependendo do histórico de crédito da pessoa. Os bancos dizem que precisam cobrar tanto assim porque o país tem uma longa história de taxas flutuantes e eles têm poucos dados para a garantia de pagamento.

As baixas taxas de juros para o financiamento de carros estão rapidamente incrementando as vendas, apesar de a crise no crédito mundial ter acarretado algumas restrições nas condições e termos dos contratos nas últimas semanas. Mais de 2,5 milhões de carros foram vendidos em 2007, um aumento de 28% em relação a 2006. A invasão de carros nas ruas está provocando congestionamentos monstruosos, uma vez que a falha infraestrutura do país não consegue acompanhar o ritmo do crescimento da frota. Feriados prolongados são famosos por congestionar as rodovias para o litoral, levando hordas de repórteres de TV a saírem a pé pelas principais rodovias litorâneas para entrevistar motoristas e passageiros que chegam a demorar cinco horas ou mais para completar um percurso de apenas 60 quilômetros.

François Huteau, presidente da sede de São Paulo do Banco Peaugeot, o braço financeiro da montadora francesa, diz que o Brasil é um dos mercados automobilísticos mais atrativos do mundo. As taxas de juros foram forçadas a cair até esse ponto por causa de uma concorrência violenta entre os bancos e uma série de companhias especializadas em financiamentos, incluindo braços da General Motors, Volkswagen e Ford, explica. As companhias de financiamento oferecem muito mais flexibilidade para poderem movimentar o estoque de veículos e os bancos comerciais são forçados a competir. "Estamos aceitando cada vez menos como entrada e dando cada vez mais tempo para os financiamentos", diz Huteau. O mercado levou um outro tiro no braço no ano passado com algumas mudanças legais que inclinaram a balança a favor dos bancos para reaver os carros em caso de inadimplência.

O fato de que os devedores estejam usando as taxas de juros da compra de automóveis para financiar outras compras não preocupa Huteau, que conhece bem a técnica usada por Ferreira. As concessionárias também perceberam a moda e estão se espalhando pelo mercado. Novos showrooms se enfileiram em um dos lados da comprida avenida Giovanni Gronchi, na zona sul de São Paulo. Uma multidão de vendedores circula dentro das novas lojas.

Até que as outras taxas de juros caiam para níveis mais praticáveis, um número cada vez maior de brasileiros vão trocar seus carros para driblar os juros dolorosamente altos dos bancos. Passar pelo estorvo de vender e comprar um carro pode parecer uma solução radical para conseguir taxas de juros mais baixas, mas Ferreira diz que gastou um bom tempo avaliando preços e possibilidades. "Fiz todos os cálculos e essa foi, de longe, a forma mais atrativa para conseguir um financiamento."

Além dos juros mais baratos, ele não precisa se preocupar com a manutenção: o carro vem com dois anos de garantia. Eloise De Vylder

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