Sem presidente e Parlamento, o Líbano teme o início de uma guerra civil

Koula Khalaf

Começou como um protesto contra os cortes de energia em um subúrbio xiita de Beirute. Horas depois, no entanto, tinha se tornado um combate, com jovens jogando pedras em soldados, queimando pneus e bloqueando ruas. À meia-noite de domingo há duas semanas, sete manifestantes tinham morrido, e a imagem do exército, uma das poucas instituições em torno da qual o Líbano ainda podia se unir, tinha levado um golpe.

Enquanto as facções em briga -o governo pró-Ocidente e a oposição liderada por partidos pró-Síria e pró-Irã- trocavam acusações, a única coisa que todos concordavam era que o país tinha dado mais um passo na direção do abismo.

Os confrontos do mês passado foram apenas o mais recente capítulo na gradual desintegração de um Estado afligido por uma crise política interna com ramificações que se estendem para muito além de suas fronteiras. O impasse que arde no país de quase 4 milhões de habitantes é visto por forças políticas internas e externas como parte de uma briga mais ampla no Oriente Médio, que coloca os EUA e seus aliados europeus e árabes contra o Irã e a Síria.

Então, enquanto o risco de confronto direto entre o Irã e os EUA declinou nos últimos meses, as tensões -entre Teerã e os EUA e entre os principais Estados árabes e o Irã e a Síria- continuam a ser encenadas em solo libanês. Isso provocou advertências da existência de outro conflito entre sunitas xiitas na região, junto com o do Iraque.

Desde o assassinato, em fevereiro de 2005, de Rafiq Hariri, ex-primeiro ministro bilionário, o Líbano tem temido a volta da guerra civil de 1975-91. A expulsão das tropas sírias e a subseqüente vitória de forças pró-Ocidente em eleições parlamentares -vistas nos EUA como exemplo do sucesso do "programa de liberdade" -enfrentaram resistência da oposição que ainda é próxima de Damasco.

O Parlamento do Líbano está fechado há mais de um ano. O país está sem presidente desde novembro e uma dúzia de tentativas de convocar uma eleição fracassaram. O ministério de 30 membros está desfalcado pela retirada dos ministros xiitas. Tampouco o exército ficou livre de pressão: no último verão, combateu um grupo extremista islâmico que tinha montado uma base em um campo de refugiados palestino. Esse conflito ocorreu menos de um ano após a Hezbollah, grupo militante xiita e força de oposição mais poderosa, travar uma guerra devastadora de um mês contra Israel.

Para tornar as coisas piores, a cada poucas semanas uma bomba tira a vida de uma figura política ou membro de segurança anti-Síria. "Os dois lados do conflito libanês estão correndo para o abismo -e podem cair", adverte um mediador árabe, acrescentando: "As implicações transcenderão o Líbano".

A crise é, acima de tudo, uma batalha interna pelo controle do Estado. Mas a perda de confiança entre governo e oposição foi exacerbada por suspeita de deslealdade, com cada lado acusando o outro de colocar os interesses de patrocinadores estrangeiros acima da busca pela estabilidade nacional.

Argumentando que a maioria parlamentar que venceu as eleições de 2005 não mais reflete o equilíbrio de poder e que o Líbano, de qualquer maneira, só pode ser governado por consenso, a oposição bloqueou o parlamento. Diz que concordará com um presidente eleito apenas se tiver participação no governo. Por trás da demanda está o temor de um governo que queira desarmar a Hezbollah (como exigido pelas resoluções da ONU) e aproximar o Líbano mais firmemente à esfera de influência dos EUA -e, por associação, de Israel. "Não vamos entregar o Líbano para o projeto americano ou para o governo americano", prometeu em recente discurso Sayyed Hassan Nasrallah, chefe da Hezbollah.

Em atitude inteligente, a Hezbollah formou uma aliança com Michel Aoun, ex-general do exército que alega deter a maior parte do voto cristão.
Depois do apoio do general à Hezbollah durante a guerra de 2006 contra Israel, o partido está determinado a recompensá-lo apoiando sua candidatura à presidência, posto reservado para cristãos maronitas na distribuição de poder sectária do Líbano.

"É quase impossível eleger alguém que não seja Aoun", diz um político alto da oposição.

Entretanto, a chamada coalizão de 14 de março de forças pró-governo -lideradas por um grupo sunita, mas que inclui drusos e cristãos- considera que os problemas do Líbano são uma campanha de vingança da Síria, em vez de uma genuína aspiração de união nacional por parte da oposição. A coalizão argumenta que a Síria, com o apoio do Irã, está determinada a manter o Líbano em agitação até que o próximo governo americano seja empossado, na esperança de negociar concessões americanas que possam incluir um fim aos planos da ONU de criar um tribunal para investigar a morte de Hariri (que poderia implicar autoridades sírias).

Quando a mediação francesa não conseguiu produzir um presidente, grupos pró-governo procuraram romper o impasse fazendo uma oferta que acreditavam que a oposição não poderia recusar: no final do ano passado, sugeriram Michel Suleiman, respeitado general das forças armadas, como candidato à presidência.

A candidatura do general Suleiman também foi debatida por membros da oposição e acreditava-se que ele teria algum apoio em Damasco. Mas quando a coalizão de 14 de março o adotou, a oposição ficou desconfiada. O impasse levou a um novo esforço de mediação, desta vez pela Liga Árabe. Mas esta também fracassou, em meio a demandas da oposição por um número igual de assentos em um novo governo.

Em privado, membros da oposição dizem que é improvável que uma eleição ocorra nos próximos meses. Enquanto isso, seu plano tem sido lançar protestos de desobediência civil para aumentar a pressão sobre o governo e seus aliados. Entretanto, o risco da ação nas ruas se tornar violenta, talvez até ameaçando a unidade do exército, foi duramente ilustrado pelos confrontos de janeiro. Além disso, as expectativas que a coalizão de 14 de março cairá sob a pressão da oposição são exageradas.

"A Hezbollah quer controle total", acusa Fouad Siniora, primeiro-ministro. "Não podemos sustentar o status quo -mas entregar o país com todos seus valores será melhor?"

Um acordo tácito entre a Arábia Saudita e Irã, que defendem lados diferentes na luta libanesa, até agora impediu que as tensões entre sunitas e xiitas se tornassem um conflito armado. A Hezbollah, além disso, pode perder seu status simbólico de movimento de resistência árabe contra Israel no momento que voltar suas armas para colegas libaneses. A comunidade sunita, enquanto isso, não pode se equiparar às forças bem disciplinadas do grupo militante xiita.

Até quando os dois lados conseguirão controlar as paixões de seus seguidores é incerto. Dentro da coalizão 14 de março, as autoridades advertem que as tensões nos bairros sunitas estão altas, com escaramuças com xiitas tornando-se mais freqüentes. Eles alegam que seus seguidores podem rapidamente se armar para competir com a Hezbollah.

Com os dois lados tão entrincheirados, o cenário mais otimista do Líbano não é muito positivo. Mesmo que evite um conflito sectário declarado, o país parece continuar em convulsão, tropeçando de um surto de violência para outro. Deborah Weinberg

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